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Moçambique: Uso de receitas do gás gera alertas de corrupção

29 de maio de 2026

O Governo moçambicano quer usar receitas do gás para reconstruir infraestruturas destruídas por cheias e protestos, em vez de investir em escolas e hospitais. Decisão gera críticas e alertas para riscos de corrupção.

Processamento de gás numa fábrica no distrito de Temane, província de Inhambane, Moçambique
Repor as infraestruturas destruídas pelas cheias e pelos protestos pós-eleitorais é uma questão urgente, justifica o GovernoFoto: Roberto Paquete/DW

O Governo de Moçambique quer usar as receitas de gás naturaldestinadas ao Orçamento do Estado para repor infraestruturas destruídas pelas últimas cheias e pelos protestos pós-eleitorais.

Inicialmente, o Executivo pretendia aplicar os cerca de 3 mil milhões de meticais (mais de 40 milhões de euros) na construção de novas infraestruturas sociais e económicas, incluindo escolas e hospitais, mas agora desistiu, considerando tratar-se de uma necessidade urgente.

Para o ativista Abudo Gafuro, a grande questão é porque não investir em novas escolas e em novos hospitais? "O governo, se hoje está a pronunciar-se que tem verbas para poder fazer ou reconstruir as infraestruturas e instituições abrangidas, no passado já estávamos com déficit e problemas graves e estruturantes no setor da saúde, já estávamos com problemas no setor da educação", lembra Gafuro.

"Por que é que não pode se resolver de uma vez por todas esta situação? E por que é que hoje está-se a ir buscar as verbas do Fundo Soberano para aplicar isto? Isto significa que há uma falta de vontade política para resolver os problemas estruturantes que o Moçambique tem", remata o ativista.

Governo diz que é uma questão urgente

Repor as infraestruturas destruídas pelas últimas cheias e pelos protestos pós-eleitorais é uma questão urgente e é para isso que o Governo quer usar as receitas do gás natural, em vez de construir novas infraestruturas, justificou o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa.

"Este montante é estrategicamente canalizado para o financiamento das ações prioritárias inscritas no plano de recuperação e reconstrução, em consequência, das manifestações ilegais pós-eleitorais 2024-2025 e a construção e reabilitação de infraestruturas pós-cheias, assegurando uma resposta celere, eficaz e alinhada com as necessidades urgentes de reposição e reforço da resiliência socioeconómica do país", disse Impissa.

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Risco de alimentar "cartéis" de corrupção

Boaventura Monjane, investigador da Universidade de Western Cape, na África do Sul, não vê problemas nesta decisão do Governo. No entanto, o académico questiona a falta de informação sobre o número exato de infraestruturas por reabilitar.

"Acho que reconstruir o que eventualmente foi destruído é uma prioridade menos importante. Acho que o grande problema em relação ao que se pretende reconstruir, entre aspas, é que não creio que haja um inventário claro sobre o que realmente foi destruído pelas manifestações, o que foi destruído pelas cheias e o custo real dessa reconstrução. Eu acho que aí vai faltar transparência e aí levanta-se a questão de como é que depois será possível identificar situações de abuso, de corrupção, de desvio, de aplicação", explica o académico em entrevista à DW.

Por isso, alerta para o forte risco de este valor poder alimentar "cartéis" de corrupção e para a "falta de mecanismos claros de fiscalização e de acompanhamento, quer das próprias entidades dentro do governo, mas também as entidades fora do governo que tenham o papel de fiscalizar as ações do governo." O investigador acredita que "isso vai dar aso a desvios de verbas" e, portanto, poderá surgir "uma espécie de saco azul, a partir do qual, obviamente, as mãos que se apoderarão não serão fáceis de identificar."

Não seria o momento de o país, como um todo, discutir e decidir as prioridades e os setores nos quais as receitas do gás e do petróleo devem ser aplicadas? "Acho que um debate nacional sobre as prioridades de Moçambique que poderia, eventualmente, inspirar um plano nacional de desenvolvimento que surja de um consenso nacional é extremamente urgente", responde Boaventura Monjane.

No entanto, lembra que o modelo de desenvolvimento que Moçambique tem adotado continua a ser o mesmo. "Não vejo de que forma é que os dividendos do gás serão diferentes daquilo que foi com o carvão, por exemplo, em Tete. O governo fez grandes promessas, finalmente Moçambique ia sair da pobreza, etc. Se hoje olhamos para Tete, aquilo ficou pior que antes do início das grandes explorações do gás", conclui.

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