Violência e cortes na ajuda estão a agravar surto de Ébola?
22 de maio de 2026
O surto de Ébola, provocado pela rara variante Bundibugyo, para a qual não existe vacina nem tratamento disponível, já provocou pelo menos 139 mortos e mais de 600 casos suspeitos, segundo a Organização Mundial da Saúde.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, mostra-se "profundamente preocupado com a dimensão e a velocidade da epidemia", admitindo que o vírus poderá ter circulado durante várias semanas sem ser detetado. O responsável alertou ainda que os números poderão aumentar à medida que forem reforçadas as operações de vigilância, rastreio de contactos e testes laboratoriais.
Segundo especialistas, a resposta ao surto que afeta o leste da República Democrática do Congo (RDC) e o Uganda poderá estar a ser dificultada pela violência armada na região e pela redução da ajuda internacional.
Violência armada limita ação sanitária
No leste da República Democrática do Congo, a resposta ao surto de Ébola enfrenta uma insegurança persistente devido aos ataques de vários grupos armados, o que tem atrasado o combate à epidemia.
Nas províncias de Kivu do Sul e Kivu do Norte, prosseguem os confrontos entre as forças governamentais, apoiadas pela milícia Wazalendo, e os rebeldes do AFC/M23, apoiados pelo Exército ruandês. Nos últimos dias, foram registados confrontos em Walikale e Masisi, no Kivu do Norte, e em Mwenga, no Kivu do Sul.
Ao mesmo tempo, na província vizinha de Ituri, os rebeldes das Forças Democráticas Aliadas (ADF) reivindicaram um ataque que provocou cerca de dez mortos no território de Mambasa.
A sociedade civil teme que o clima de terror imposto pelos rebeldes e a fuga das populações para diferentes zonas agrave a propagação do Ébola. "Com a situação provocada pelos ADF, o controlo desta doença será complicado porque toda a gente foge em qualquer direção quando há incursões de grupos armados", alertou Dieudonné Lossa Dekhana, coordenador provincial da sociedade civil.
Também os profissionais de saúde relatam dificuldades no terreno. O médico Abdul Yunga Abedi, responsável pela zona de saúde de Mambasa, explicou que a insegurança impede o acesso a várias aldeias da região.
"Numa situação destas, seria necessário ter acesso a todas as aldeias, mas agora não conseguimos chegar a todas as localidades da nossa zona de saúde. É isso que nos preocupa”, afirmou.
Menor apoio internacional atrasa resposta
Além da insegurança, especialistas questionam se os cortes na ajuda internacional terão contribuído para o atraso na resposta à epidemia.
O epidemiologista norte-americano Eric Feigl-Ding considera que a redução de meios no terreno comprometeu a rapidez da deteção e contenção do surto. "O problema é a rapidez da resposta", explica Feigl-Ding, acrescentando que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) tinha anteriormente equipas no terreno a distribuir medicamentos e a apoiar clínicas locais.
"Agora a USAID desapareceu. Este é um exemplo claro do que acontece quando se destrói a infraestrutura de saúde de muitos destes países", afirma.
Desde o regresso de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, a administração norte-americana reduziu significativamente o financiamento da USAID e de outras estruturas ligadas à saúde global.
O Presidente norte-americano iniciou também o processo de saída dos Estados Unidos da OMS, formalizado um ano depois. Até então, os EUA eram um dos principais financiadores da organização, com mais de 1,2 mil milhões de dólares em 2023 e 2024.
O especialista Eric Feigl-Ding considera que os números atuais representam apenas "a ponta do icebergue", sublinhando que a epidemia já atingiu várias regiões e está a afetar profissionais de saúde.
A OMS já disponibilizou cerca de 3,9 milhões de dólares para apoiar os sistemas de saúde da RDC e do Uganda, mas os especialistas alertam que serão necessários mais recursos para travar a propagação do vírus numa região marcada pela instabilidade e fragilidade das infraestruturas de saúde.