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"Vive-se um clima de terror na Guiné-Bissau"

Iancuba Dansó (Bissau)
2 de fevereiro de 2021

Aumentam as denúncias de violação dos direitos humanos em pleno estado de calamidade no âmbito da Covid-19. A Liga Guineense dos Direitos Humanos diz que a pandemia não pode servir de desculpa para repressão.

Polícia guineense numa rua de Bissau. Foto ilustrativaFoto: DW/Braima Darame

Na Guiné-Bissau, "vive-se um clima de terror". É a conclusão a que chega Vladimir Gomes, presidente da Associação Juvenil para Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (AJPDH).

A avaliação é feita um dia depois de a polícia ter reprimido uma vigília que exigia justiça na sequência da morte do ativista Bernardo Catchura, por alegada negligência médica, no Hospital Nacional Simão Mendes.

"É preciso que o Estado assuma as suas responsabilidades de servir o país. É preciso respeito pelos direitos humanos", exige Vladimir Gomes.

Cidadãos que estiveram na vigília, na segunda-feira (01.02), contam que foram espancados pela Polícia de Intervenção Rápida (PIR). 

"Mal a vigília começou, chegaram as forças de segurança com orientações claras para nos dispersar do local. Mas houve resistência da nossa parte e entenderam que a única coisa que podiam fazer é usar carga policial contra nós, e começaram a espancar as pessoas", conta Junísio Moreira, um dos rostos da manifestação.

Há abertura do Governo para o diálogo?

Com o encerramento das escolas em Bissau e a entrada em vigor, há dez dias, de um novo período de estado de calamidade, para combater a pandemia da Covid-19, há cada vez mais denúncias de agressões por parte das forças de segurança.

Vladimir Gomes, presidente da AJPDHFoto: DW/I. Danso

O líder da AJPDH, Vladimir Gomes, recorda o caso dos protestos contra a suspensão das aulas, na semana passada.

"O Governo suspendeu as aulas e, tendo em conta a forma como foram suspensas, sem uma medida proporcional ao contexto do país, os alunos sentiram-se no direito de reclamar", justifica. 

O jovem lembra que "queriam fazê-lo e o Governo reprimiu, através da utilização da força física do Estado, dispersando e detendo os alunos. Isto é grave e, por cima de tudo, agredindo um jornalista".

Sobre as denúncias, a DW África contactou o Ministério do Interior, mas não obteve reação.

Sensibilização

Para o vice-presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), Vitorino Indeque, o combate à pandemia da Covid-19 não deve servir de pretexto para usar violência contra cidadãos.

"Há que haver formas de passar mensagens, sensibilizar as pessoas, ao invés de enveredar pelas medidas que violam os seus direitos", sugere.

Manifestação de estudantes em Bissau, 8 de janeiro de 2021Foto: Braima Darame/DW

E propõe: "A solução é que todos nós nos devemos empenhar na passagem de informações, falar com as pessoas e demonstrar que todos nós devemos trabalhar para travar a pandemia."

"Temos que continuar a luta"

A socióloga Cadija Mané considera normais as reivindicações dos cidadãos, lembrando que, "para além da pandemia, os alunos não têm conseguido ter aulas de forma normal e estável, para poderem concluir o ano letivo, sem falar de outras situações do país, a situação económica e financeira."

Os economistas preveem um ano difícil para os guineenses com o aumento dos impostos, previsto no Orçamento Geral do Estado de 2021, já promulgado pelo Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló.

"É uma série de acontecimentos que ultimamente têm afetado o psicológico do cidadão guineense e é normal que haja reivindicações", comenta Cadija Mané. 

Mas a socióloga defende que "as pessoas não se devem deixar levar pelo cansaço e amedrontamento que [as autoridades] têm feito à população. Temos que continuar a luta, porque só assim é que pode haver mudanças."

Covid-19: Retrato da Guiné-Bissau em estado de emergência

01:20

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