VM quer novos heróis e FRELIMO "valorização das conquistas"
3 de fevereiro de 2025
O partido no poder defendeu hoje a "valorização das conquistas" da independência, quando se assinala o Dia dos Heróis. Antes, Venâncio Mondlane sugeriu nova lista de heróis e alteração da data para 18 de março.
Venâncio Mondlane defendeu adoção de "novos heróis", incluindo o primeiro Presidente de Moçambique, Samora MachelFoto: Amos Fernando/DW
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"A FRELIMO, porque se revê na vida e obra deste distinto filho da pátria amada, exorta a todos os compatriotas a cultivarem o amor à pátria e a valorização das conquistas que constituem o legado destes nobres combatentes", refere o partido no poder desde a independência em Moçambique (1975), numa nota que assinala a efeméride.
O feriado do Dia dos Heróis é comemorado num contexto em que o país atravessa a pior crise pós-eleitoral desde as primeiras eleições, em 1994, um período marcado por protestos, manifestações e paralisações, convocadas pelo ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, que rejeita os resultados, com confrontos violentos entre a polícia e os manifestantes, além de saques e destruição de equipamentos públicos e privados.
Para o partido no poder em Moçambique, a efeméride deve constituir um momento para o "aprofundamento dos nobres valores cristalizados no espírito dos heróis nacionais", entre os quais a unidade nacional e a paz.
"A FRELIMO advoga que é fundamental que cada moçambicano assuma que a sua dignidade e a condição de moçambicanidade dependem da sua participação no processo de desenvolvimento económico e social do país", lê-se ainda na nota.
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Mondlane quer novos heróis
No domingo (02.02), o ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane havia defendido uma nova lista de heróis nacionais e a definição de 18 de março, que classifica como "início da nova República", como o "novo Dia dos Heróis em Moçambique".
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"Estipulamos o dia 18 de março como o novo dia dos heróis, porque foi neste dia, em 2023, que começou o grande movimento para a nova República", declarou Venâncio Mondlane, a partir de um direto na rede social Facebook, lendo um documento que classificou como "o segundo decreto presidencial".
Na manhã de 18 de março de 2023, um sábado, agentes da polícia moçambicana alegaram ter "ordens superiores", nunca esclarecidas, para dispersar, com balas de borracha e gás lacrimogéneo, grupos de jovens que pretendiam realizar marchas pacíficas, anunciadas às autoridades municipais, em vários pontos do país, em homenagem ao 'rapper' de intervenção social Azagaia, que morreu por doença uma semana antes, consternando milhares de fãs, sobretudo jovens, em Moçambique e em toda a lusofonia.
A repressão policial, que ocorreu sobretudo em Maputo, deixou detidos e vários feridos, tendo posteriormente os organizadores das marchas submetido recursos às autoridades nacionais e estrangeiras para responsabilização face ao que classificaram como força desproporcionada exercida por aquela corporação.
O episódio de 18 de março levou à criação da designada "Geração 18 de Março", um movimento voluntário de jovens que se destacou nos últimos meses na assistência hospitalar, judicial e social às vítimas dos confrontos entre a polícia e manifestantes que rejeitam os resultados das eleições de 09 de outubro do ano passado.
"Este foi o dia da comemoração e da celebração da vida e da obra de Azagaia (...) Foi ali onde tudo começou e, depois, vieram as manifestações que ocorreram ao nível das eleições autárquicas e agora as manifestações ao nível das eleições gerais. Isto tem história", declarou Mondlane.
Venâncio Mondlane defendeu ainda a adoção de "novos heróis", destacando-se políticos, incluindo o primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, o fundador da FRELIMO (partido no poder), Eduardo Mondlane, e o histórico líder da RENAMO Afonso Dhlakama, além do próprio Azagaia.
"Estes são os heróis nacionais resultantes da pesquisa e da consulta popular feita ao povo moçambicano da atualidade para aquilo que nós consideramos a nova era: a era da terceira República", acrescentou, na leitura de um documento que classificou como "decreto presidencial NR. 002/2025".
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Dia dos Heróis
O Estado moçambicano consagrou o dia 03 de fevereiro como Dia dos Heróis em homenagem ao fundador da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido no poder, Eduardo Mondlane, assassinado nesta data em 1969.
Eduardo Mondlane morreu quando uma bomba escondida num livro que tinha nas mãos explodiu, num atentado atribuído à extinta Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), entidade do regime colonial português.
A crise pós-eleitoral que o país hoje atravessa resulta da contestação aos resultados proclamados das eleições gerais de 09 de outubro, que deram a vitória a Daniel Chapo, apoiado pelo partido no poder e já empossado como quinto Presidente de Moçambique.
De acordo com a plataforma eleitoral Decide, organização não-governamental que acompanha os processos eleitorais em Moçambique, nestes protestos, nos últimos três meses, há registo de pelo menos 315 mortos, incluindo cerca de duas dezenas de menores, e pelo menos 750 pessoas baleadas.
Afonso Dhlakama, homem de causas
O percurso de Afonso Dhlakama enquanto político e militar quase se confunde com a história de Moçambique independente. Em nome da democracia não hesitou em entrar numa guerra. Herói para uns, vilão para outros.
Foto: picture-alliance/dpa
Dhlakama, um começo na FRELIMO que não vingou
Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 em Mangunde, povíncia central de Sofala, Moçambique. Entra para a FRELIMO perto da época da independência em 1975, mas não fica muito tempo. Em 1976 sai do partido que governa o país para co-fundar a RNM (Resistência Nacional de Moçambique), um movimento armado, com o apoio da Rodésia do Zimbabué. O objetivo: por fim a ditadura.
Foto: Imago/photothek
Dhlakama: Desde cedo líder da RENAMO
A guerra civil entre a RNM, depois denominada RENAMO, Resistência Nacional de Moçambique, e o Governo começou em 1976. Dhlakama assume a liderança da RNM depois da morte de André Matsangaíssa em combate em 1979. Já era líder quando o primeiro acordo que visava por fim a guerra foi assinado entre o Governo e o regime do apartheid na África do Sul em 1984. Mas o Acordo de Inkomati fracassou.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
AGP: Democracia entra no vocabulário com Dhlakama
Depois de 16 anos de guerra Dhlakama assina com o Governo o Acordo Geral de Paz de Roma em 1992 no contexto do fim da guerra fria e do apartheid na África do Sul. Começa uma nova era para o país, depois de uma guerra que fez perto de um milhão de mortos e milhões de refugiados. A democracia passa então a fazer parte do vocabulário dos moçambicanos, com Dhlakama a auto-intitular-se o seu pai.
Foto: picture-alliance/dpa
O começo das derrotas de Dhlakama nas eleições
Moçambique entra para a era do multipartidarismo e realiza as suas primeiras eleições em 1994. Dhlakama e o seu partido perdem as eleições. As segundas eleições acontecem em 1999 e Dhlakama volta a perder, mas rejeita a derrota. E desde então não parou de perder, facto que provocou descontentamento ao partido de Dhlakama. Reclamava de fraudes e injustiças. E nasceram assim as crises com o Governo.
Foto: Reuters/Grant Lee Neuenburg
Dhlakama: O regresso às matas como estratégia de pressão
O regresso do líder da RENAMO à Serra da Gorongosa em 2013, um dos seus bastiões militares, foi uma mensagem inequívoca ao Governo da FRELIMO. Dhlakama queria mudanças reais, que passavam pelo respeito integral do AGP, principalmente a integração dos militares da RENAMO no exército nacional, e mudança da legislação eleitoral. Assim o país voltou a guerra depois de mais de vinte anos.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Armando Guebuza e Dhlakama em braço de ferro permanente
A 5 de agosto de 2014 o então Presidente Armando Guebuza e Afonso Dhlakama assinaram um cessar-fogo. Estavam criadas as condições para o líder da RENAMO participar nas eleições gerais de outubro de 2014. Dhlakama e o seu partido participam nas eleições e voltam a perder. As crise volta ao rubro e Dhlakama regressa às matas da Gorongosa.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Emboscada contra Afonso Dhlakama
A 12 de setembro de 2015 a caravana em que seguia Afonso Dhlakama foi atacada na província de Manica. Ate hoje não se sabe quem foram os atacantes. A RENAMO considerou a emboscada como uma tentativa de assassinato do seu líder. A comunidade internacional condenou o uso da violência.
Foto: DW/A. Sebastião
Aperto ao cerco contra Afonso Dhlakama
No dia 9 de outubro de 2015, a polícia cercou e invadiu a casa de Afonso Dhlakama na cidade da Beira. As forças governamentais pretendiam desarmar a força a guarda do líder da RENAMO. Os homens da RENAMO que se encontravam no local foram detidos. A população da Beira, bastião da RENAMO, juntou-se diante da casa de Dhlakama manifestando o seu apoio ao líder.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Catueira
Dhlakama e Nyusi: Menos mãos melhores resultados
O líder da RENAMO e o Presidente da República decidiram prescindir de mediadores e passaram a negociar o acordo pessoalmente. Desde então consensos têm sido alcançados, um deles relativo à revisão pontual da Constituição, no âmbito do processo de descentralização em fevereiro de 2018. A aprovação da proposta pelo Parlamento é urgente, pois as próximas eleições de 2018 e 2019 dependem dele.
Foto: Presidencia da Republica de Mocambique
Dhlakama: Não foi a bala que ditou o seu fim
Na manhã de 3 de maio o maior líder da oposição em Moçambique perdeu a vida vítima de doença. Deixa aos seus correlegionários a tarefa de negociar outro ponto controverso na crise com o Governo: a desmilitarização ou integração dos homens armados da RENAMO no exército nacional. Há quase 40 anos à frente da liderança da RENAMO teve de negociar com todos os Presidentes de Moçambique independente.