Japão não quer mais se desculpar por crimes na 2ª Guerra
Martin Fritz de Tóquio
15 de agosto de 2025
No aniversário de 80 anos da rendição japonesa, governo descarta nova declaração de desculpas sobre crimes cometidos na Segunda Guerra Mundial, rompendo tradição iniciada por antecessores.
Shigeru Ishiba (dir.) durante cerimônia em memória do bombardeio atômico de Hiroshima em 6 de agosto. Político decidiu silenciar sobre rendição de 15 de agostoFoto: Kim Kyung-Hoon/REUTERS
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Apesar da efeméride simbólica de 80 anos, o governo do Japão vai abrir mão nesta sexta-feira (15/08) de emitir uma declaração oficial sobre o fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, quebrando uma tradição que remontava aos anos 1990.
Em 15 de agosto de 1945, o então imperador Hirohito anunciou pelo rádio a rendição do Japão frente aos Aliados.
Agora, oitenta anos depois, o atual primeiro-ministro Shigeru Ishiba decidiu permanecer em silêncio. Ao ignorar a data, o premiê rompe uma prática iniciada em 1995, que envolvia a publicação de uma declaração a cada décimo aniversário da rendição.
Em 1995, o então premiê Tomiichi Murayama tornou-se o primeiro chefe de governo japonês a "se desculpar de todo coração pela dominação colonial e agressão" e expressar seu "profundo arrependimento" pelos crimes cometidos pelo Império Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. À época, o Ministério das Relações Exteriores do Japão também publicou a declaração em chinês, coreano e inglês.
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Afastamento do pacifismo
A decisão de Ishiba surpreende também porque o Japão redefiniu recentemente sua política de segurança e defesa. Analistas apontam que o governo poderia ter usado o 80º aniversário para explicar essa mudança de rumo. Na prática, a nação insular já se despediu da política externa pacifista que vigorou nas décadas seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Os gastos japoneses com defesa devem chegar a 2% do PIB até 2027. Atrás apenas de EUA, China e Alemanha, o Japão é a quarta maior economia do mundo.
Tóquio também afrouxou uma proibição de exportar armas. No início de agosto, a Mitsubishi Heavy Industries obteve o primeiro grande contrato de defesa desde a guerra, superando a alemã Thyssenkrupp Marine Systems. A empresa construirá, por cerca de 5,6 bilhões de euros, 11 fragatas para a Marinha australiana.
Com seu silêncio, o premiê de 68 anos também parece estar levando em conta o peso da facção conservadora do governista Partido Liberal Democrata (PLD), e tentando não colocar em risco sua posição como chefe de governo e do partido após a derrota nas eleições para o Senado em julho. Os conservadores do PLD sustentam que, com a declaração do então premiê Shinzo Abe em 2015, tudo o que era necessário dizer sobre o fim da guerra já foi dito.
No 70º aniversário, Abe reafirmou os pedidos de desculpas de seus antecessores Tomiichi Murayama (1995) e Junichiro Koizumi (2005), mas ao mesmo tempo apontou que os japoneses já haviam feito o suficiente. "Não podemos permitir que nossos filhos, netos e até as futuras gerações, que nada tiveram a ver com essa guerra, sejam obrigados continuamente a pedir desculpas", disse Abe na ocasião.
Oficiais da Marinha japonesa em 2014. País voltou a expandir seus gastos com defesaFoto: Kazuhiro Nogi/AFP
Crimes
No início do século 20, o Império do Japão começou a entrar em uma rota imperialista na Ásia. A partir de 1910, passou a colonizar a Coreia, que foi submetida a uma racista política de assimilação. Em 1931, os japoneses também estabeleceram um estado-fantoche em parte da China e em 1937 iniciaram uma guerra aberta contra os chineses. Em 1941, a agressão japonesa se ampliou com ataques a colônias ou territórios dos EUA, Reino Unido e Holanda. À época, o país também era um aliado da Alemanha nazista.
Nesse período, o Pacífico foi palco de crimes japoneses como o "Estupro de Nanquim", na China; uso de escravas sexuais na Coreia; chacinas de civis nas Filipinas, Birmânia e na Malásia ocupadas; experimentos de armas biológicas na China; tratamento brutal e execuções de prisioneiros aliados; e trabalho forçado que envolveu milhões de habitantes da atual Indonésia. Historiadores estimam que somente na China as ações japonesas resultaram na morte de entre seis e oito milhões de civis.
"Nuremberg do Pacífico". Tóquio, 1946: Julgamento de japoneses acusados de crimes de guerra. Alguns, como o general Hideki Tojo, foram executadosFoto: Keystone/Getty Images
"Fuga da responsabilidade"
Para o historiador alemão Torsten Weber, do Instituto Alemão de Estudos Japoneses em Tóquio, a declaração revelou uma "mentalidade de colocar um ponto final". "Da perspectiva alemã, parece uma fuga da responsabilidade ou até uma negação da culpa, mas no contexto do Leste Asiático, essa postura é compreensível", disse Weber à DW. Muitos japoneses se veem como vítimas de críticas exageradas da China e da Coreia do Sul, argumentando que esses países "instrumentalizam a história de forma nacionalista e anti-japonesa".
E um exame contínuo e mais profundo das causas do conflito e dos crimes de guerra do Japão também poderia levar a questionamentos críticos sobre o papel da família imperial durante o conflito – algo que, para o público japonês, seria um tabu, afirma Weber.
Memorial às vítimas do "Estupro de Nanquim", na China. Em 1937, soldados japoneses massacraram centenas de milhares de pessoas na cidadeFoto: China Photos/Getty Images
Disputa ideológica sobre livros escolares
Após o pedido de desculpas de Murayama em 1995, grupos nacionalistas como o Nippon Kaigi e a Japan Society for History Textbook Reform passaram a defender que a Segunda Guerra fosse apresentada aos jovens de forma revisionista. Como resultado, o Ministério da Educação em Tóquio aprovou mais livros didáticos que retratam enganosamente o Japão como vítima, que teria se defendido contra a agressão estrangeira, e que minimizam ou omitem os crimes de guerra cometidos pelo país.
Essas visões também chegam a crianças do ensino fundamental e médio por meio da disciplina de "educação moral", elevada a matéria obrigatória em 2018.
Há dois anos, alguns editores alteraram o conteúdo de seus livros sobre a Batalha de Okinawa. Em abril de 1945, tropas americanas desembarcaram na ilha, considerada uma das últimas linhas de defesa do Japão. Os livros descrevem que civis japoneses cometeram suicídios em massa por terem sido "encurralados pelos ataques militares dos EUA", mas não mencionam mais que as próprias forças japonesas coagiram civis ao suicídio e os usaram como escudos humanos. Apesar dessas influências conservadoras, a maioria dos livros didáticos efetivamente usados nas escolas japonesas ainda apresenta a guerra de forma relativamente neutra.
Representantes do Império do Japão durante a assinatura formal da rendição, em setembro de 1945Foto: picture-alliance/dpa/Everett Collection
Jornal liberal critica Ishiba
Inicialmente, o primeiro-ministro Ishiba considerava necessário relembrar o passado de guerra do Japão. Após assumir o cargo em 2024, ele disse a aliados que o 80º aniversário seria "o último grande marco enquanto ainda viverem pessoas que passaram pela guerra". Agora, ao decidir permanecer em silêncio, ele se tornou alvo de críticas. O jornal liberal Asahi, por exemplo, disse qie Ishiba decidiu ficar em silêncio na data histórica por medo de retaliação de facções rivais dentro do PLD.
"Com Murayama [em 1995], o Japão teve um premiê disposto a arriscar seu cargo para fazer tal declaração", escreveu o jornal. "Hoje, o Japão tem um premiê que abre mão de uma declaração para não ser derrubado do cargo."
Crianças de Singapura saudando soldados do Império Britânico após a libertação do território, que permaneceu sob ocupação japonesa entre 1942 e 1945Foto: picture-alliance/CPA Media Co. Ltd
Apesar da intensa cobertura da imprensa dos aniversários da fase final da guerra – chamada no Japão de "jornalismo de agosto" –, uma pesquisa revelou que mais de um quarto dos japoneses não sabe citar a data do fim da guerra. "Dada a influência das redes sociais no consumo de notícias, é provável que essa proporção continue aumentando", afirma o historiador Weber.
Cronologia da Segunda Guerra Mundial
Em 1° de setembro de 1939, as Forças Armadas alemãs atacaram a Polônia, sob ordens de Hitler. A guerra que então começava duraria até 8 de maio de 1945, deixando um saldo até hoje sem paralelo de morte e destruição.
Foto: U.S. Army Air Forces/AP/picture alliance
1939
No dia 1° de setembro de 1939, as Forças Armadas alemãs atacaram a Polônia sob ordens de Adolf Hitler – supostamente em represália a atentados poloneses, embora isso tenha sido uma mentira de guerra. No dia 3 de setembro, França e Reino Unido, que eram aliadas da Polônia, declararam guerra à Alemanha, mas não intervieram logo no conflito.
1939
A Polônia mal pôde oferecer resistência às bem equipadas tropas alemãs – em cinco semanas, os soldados poloneses foram derrotados. No dia 17 de setembro, o Exército Vermelho ocupou o leste da Polônia – em conformidade com um acordo secreto fechado entre o Império Alemão e a União Soviética apenas uma semana antes da invasão.
Foto: AP
1940
Em abril de 1940, a Alemanha invadiu a Dinamarca e usou o país como base até a Noruega. De lá vinham as matérias-primas vitais para a indústria bélica alemã. No intuito de interromper o fornecimento desses produtos, o Reino Unido enviou soldados ao território norueguês. Porém, em junho, os aliados capitularam na Noruega. Nesse meio tempo, a Campanha Ocidental já havia começado.
1940
Durante oito meses, soldados alemães e franceses se enfrentaram no oeste, protegidos por trincheiras. Até que, em 10 de maio, a Alemanha atacou Holanda, Luxemburgo e Bélgica, que estavam neutros. Esses territórios foram ocupados em poucos dias e, assim, os alemães contornaram a defesa francesa.
Foto: picture alliance/akg-images
1940
Os alemães pegaram as tropas francesas de surpresa e avançaram rapidamente até Paris, que foi ocupada em meados de junho. No dia 22, a França se rendeu e foi dividida: uma parte ocupada pela Alemanha de Hitler e a outra, a "França de Vichy", administrada por um governo fantoche de influência nazista e sob a liderança do general Pétain.
Foto: ullstein bild/SZ Photo
1940
Hitler decide voltar suas ambições para o Reino Unido. Seus bombardeios transformaram cidades como Coventry em cinzas e ruínas. Ao mesmo tempo, aviões de caça travavam uma batalha aérea sobre o Canal da Mancha, entre o norte da França e o sul da Inglaterra. Os britânicos venceram e, na primavera europeia de 1941, a ofensiva alemã estava consideravelmente enfraquecida.
Foto: Getty Images
1941
Após a derrota na "Batalha aérea pela Inglaterra", Hitler se voltou para o sul e posteriormente para o leste. Ele mandou invadir o norte da África, os Bálcãs e a União Soviética. Enquanto isso, outros Estados entravam na liga das Potências do Eixo, formada por Alemanha, Itália e Japão.
1941
Na primavera europeia, depois de ter abandonado novamente o Pacto Tripartite, Hitler mandou invadir a Iugoslávia. Nem a Grécia, onde unidades inglesas estavam estacionadas, foi poupada pelas Forças Armadas alemãs. Até então, uma das maiores operações aeroterrestres tinha sido o ataque de paraquedistas alemães a Creta em maio de 1941.
Foto: picture-alliance/akg-images
1941
O ataque dos alemães à União Soviética no dia 22 de junho de 1941 ficou conhecido como Operação Barbarossa. Nas palavras da propaganda alemã, o objetivo da campanha de invasão da União Soviética era uma "ampliação do espaço vital no Oriente". Na verdade, tratava-se de uma campanha de extermínio, na qual os soldados alemães cometeram uma série de crimes de guerra.
Foto: Getty Images
1942
No começo, o Exército Vermelho apresentou pouca resistência. Aos poucos, no entanto, o avanço das tropas alemãs chegou a um impasse na Rússia. Fortes perdas e rotas inseguras de abastecimento enfraqueceram o ataque alemão. Hitler dominava quase toda a Europa, parte do norte da África e da União Soviética. Mas no ano de 1942 houve uma virada.
1942
A Itália havia entrado na guerra em junho de 1940, como aliada da Alemanha, e atacado tropas britânicas no norte da África. Na primavera de 1941, Hitler enviou o Afrikakorps como reforço. Por muito tempo, os britânicos recuaram – até a segunda Batalha de El Alamein, no outono de 1942. Ali a situação mudou, e os alemães bateram em retirada. O Afrikakorps se rendeu no dia 13 de maio de 1943.
Foto: Getty Images
1942
Atrás do fronte leste, o regime de Hitler construiu campos de extermínio, como Auschwitz-Birkenau. Mais de seis milhões de pessoas foram vítimas do fanatismo racial dos nazistas. Elas foram fuziladas, mortas com gás, morreram de fome ou de doenças. Milhares de soldados alemães e da SS estiveram envolvidos nestes crimes contra a humanidade.
Foto: Yad Vashem Photo Archives
1943
Já em seu quarto ano, a guerra sofreu uma virada. No leste, o Exército Vermelho partiu para o contra-ataque. Vindos do sul, os aliados desembarcaram na Itália. A Alemanha e seus parceiros do Eixo começaram a perder terreno.
1943
Stalingrado virou o símbolo da virada. Desde julho de 1942, o Sexto Exército alemão tentava capturar a cidade russa. Em fevereiro, quando os comandantes desistiram da luta inútil, cerca de 700 mil pessoas já haviam morrido nesta única batalha – na maioria soldados do Exército Vermelho. Essa derrota abalou a moral de muitos alemães.
Foto: picture-alliance/dpa
1943
Após a rendição das tropas alemãs e italianas na África, o caminho ficou livre para que os Aliados lutassem contra as potências do Eixo no continente europeu. No dia 10 de julho, aconteceu o desembarque na Sicília. No grupo dos Aliados estavam também os Estados Unidos, a quem Hitler havia declarado guerra em 1941.
Foto: picture alliance/akg
1943
Em setembro, os Aliados desembarcaram na Península Itálica. O governo em Roma acertou um armistício com os Aliados, o que levou Hitler a ocupar a Itália. Enquanto os Aliados travavam uma lenta batalha no sul, as tropas de Hitler espalhavam medo pelo resto do país.
No leste, o Exército Vermelho expulsou os invasores cada vez mais para longe da Alemanha. Iugoslávia, Romênia, Bulgária, Polônia... uma nação após a outra caía nas mãos dos soviéticos. Os Aliados ocidentais intensificaram a ofensiva e desembarcaram na França, primeiramente no norte e logo em seguida no sul.
1944
Nas primeiras horas da manhã do dia 6 de junho, as tropas de Estados Unidos,Reino Unido, Canadá e outros países desembarcaram nas praias da Normandia, no norte da França. A liderança militar alemã tinha previsto que haveria um desembarque – mas um pouco mais a leste. Os Aliados ocidentais puderam expandir a penetração nas fileiras inimigas e forçar a rendição de Hitler a partir do oeste.
Foto: Getty Images
1944
No dia 15 de agosto, os Aliados deram início a mais um contra-ataque no sul da França e desembarcaram na Provença. As tropas no norte e no sul avançaram rapidamente e, no dia 25 de agosto, Paris foi libertada da ocupação alemã. No final de outubro, Aachen se tornou a primeira grande cidade alemã a ser ocupada pelos Aliados.
Foto: Getty Images
1944
No inverno europeu de 1944/45, as Forças Armadas alemãs reuniram suas tropas no oeste e passaram para a contra-ofensiva em Ardenne. Mas, após contratempos no oeste, os Aliados puderam vencer a resistência e avançar inexoravelmente até o "Grande Império Alemão" – a partir do leste e do oeste.
Foto: imago/United Archives
1945
No dia 8 de maio de 1945, os nazistas se renderam incondicionalmente. Para escapar da captura, Hitler se suicidou com um tiro no dia 30 de abril. Após seis anos de guerra, grande parte da Europa estava sob entulhos. Quase 50 milhões de pessoas morreram no continente durante a Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1945, o marechal de campo Wilhelm Keitel assinava a ratificação da rendição em Berlim.