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A árvore vilã de incêndios florestais em todo o mundo

Janek Speight
8 de julho de 2026

Enquanto a Europa enfrenta mais um verão de calor extremo, uma árvore importada da Austrália está potencializando incêndios florestais no continente : o eucalipto, que já deixou marca em outras desastres no mundo.

Estrada ladeada de eucaliptos
Podem parecer convidativas, mas em períodos de seca, as densas florestas de eucalipto representam um risco extremo de incêndioFoto: Tolo/Zoonar/picture alliance

Todos os anos, mais de 400 mil peregrinos percorrem o Caminho de Santiago, na região espanhola da Galícia, atravessando colinas enevoadas e densas áreas de floresta. Mas grande parte da mata que cerca a rota de peregrinação espanhola já não é nativa.

Em vez de carvalhos e castanheiros típicos da região, amplas áreas do noroeste da Espanha passaram a ser dominadas por eucaliptos.

Essa transformação não é exclusiva da Galícia. Valorizadas pelas indústrias de celulose e madeira por seu rápido crescimento e alta rentabilidade, vastas monoculturas da árvore originária da Austrália foram implantadas em lugares como Brasil, Chile, Califórnia, Índia e África do Sul.

Globalmente, as plantações de eucalipto já cobrem 22 milhões de hectares em mais de 90 países e, em muitas regiões, tornaram-se um dos pilares das economias rurais. Mas, sob copas aparentemente tranquilas, escondem-se paisagens vulneráveis a incêndios florestais extremos, já que a espécie é altamente inflamável e chegou a ser apelidada por ativistas de "árvore de gasolina".

Nos últimos anos, incêndios devastadores potencializados por monoculturas de eucalipto foram registrados em lugares distantes, como o Chile em 2017 e 2023, Portugal em 2017 e 2024 e os estados americanos do Havaí em 2023 e Califórnia em 1991.

Onda de calor na Europa acende alerta

A Europa enfrenta um verão de temperaturas sufocantes, com ondas de calor excepcionalmente precoces ampliando os riscos de incêndios.

As plantações de eucalipto na Galícia expandiram-se muito além do que foi inicialmente planejadoFoto: Unai Huizi/imageBROKER/IMAGO

Partes do sul do continente europeu foram atingidas nos últimos dias. O ano passado foi o pior já registrado em termos de incêndios florestais, com mais de 1 milhão de hectares queimados — grande parte deles na Península Ibérica.

Pesquisadores afirmam que, embora os eucaliptos não sejam responsáveis por iniciar esses incêndios, eles podem intensificá-los consideravelmente.

"As florestas de eucalipto estão claramente entre as mais inflamáveis que existem no mundo", disse à DW Tim Curran, da Universidade Lincoln, na Nova Zelândia.

"Se você introduz um eucalipto em um novo ambiente, é muito provável que altere o que chamamos de regime de incêndios. Isso inclui aspectos como intensidade, frequência, temperatura alcançada pelo fogo e a frequência com que os incêndios ocorrem."

As folhas dessas árvores contêm óleos altamente inflamáveis, e pedaços de sua casca podem se transformar em brasas em chama. Em condições extremas, essas brasas podem percorrer grandes distâncias e provocar novos focos de incêndio, como ocorreu nos devastadores incêndios do chamado "sábado negro" na Austrália, em 2009.

"Havia evidências de que brasas foram carregadas pelo vento por mais de 30 quilômetros além da linha principal do incêndio, iniciando novos focos", afirmou Curran, acrescentando que não se tratou de um caso isolado.

Na Galícia, os plantios podem facilmente ultrapassar seus limites originais porque, enquanto carvalhos e castanheiros nativos podem levar mais de 80 anos para atingir a maturidade, o eucalipto precisa de apenas 15. Como resultado, a espécie se recupera rapidamente quando incêndios devastam uma paisagem, obtendo uma vantagem competitiva sobre as árvores nativas.

Isso cria um ciclo de autorreforço que acaba permitindo a expansão das monoculturas, aumentando o risco de incêndios florestais.

Eucalipto divide opiniões

As plantações de eucalipto na Galícia remontam à década de 1970, mas ganharam força duas décadas depois.

Em 1992, o governo regional divulgou um plano florestal que projetava que os eucaliptais alcançariam 250 mil hectares até 2030. Foram necessários 30 anos para atualizar o plano, período durante o qual a expansão do eucalipto avançou sem controle.

"Agora são cerca de meio milhão de hectares, o que representa uma quantidade enorme de terra", afirmou o líder comunitário local Joam Evans Pim.

Embora o governo regional tenha posteriormente imposto uma moratória sobre novas plantações de eucalipto, ativistas afirmam que a fiscalização continua desigual e que os plantios ilegais persistem.

Por um lado, há dinheiro envolvido no eucalipto. As plantações da Galícia, que abastecem principalmente as indústrias de celulose e madeira, geraram 167 milhões de euros (cerca de R$ 985 milhões) em 2024.

Mas também há problemas de gestão. À medida que as novas gerações abandonam o estilo de vida rural rumo aos centros urbanos, deixam para trás plantações sem controle.

"[A expansão do eucalipto] ocorre tanto por causa das plantações, muitas delas ilegais, quanto pelo abandono das terras, pelos incêndios florestais e pelo caráter invasor da espécie. É a combinação de todos esses fatores que levou a esse resultado."

O que o governo fez e deixou de fazer

Críticos acusam as autoridades regionais de terem falhado por muito tempo em controlar a expansão. Luisa Piñeiro, diretora-geral de gestão florestal do governo da Galícia, disse à DW que houve falhas no passado.

"Naquela época [na década de 1990], provavelmente não havia uma gestão florestal adequada. Não havia tanto controle sobre as plantações nem sobre as espécies que estavam sendo plantadas", afirmou.

O eucalipto é originário principalmente da Austrália e é considerado uma espécie invasora em muitos outros lugares devido à sua rápida disseminaçãoFoto: Michael Kühl/PantherMedia/Imago

Apesar disso, o governo não classifica o eucalipto como espécie invasora, e Piñeiro rejeita pedidos de proibição total. Em vez disso, defende uma gestão mais eficiente e maior diversidade de espécies.

"Em vez de proibir coisas, devemos primeiro ter um plano de gestão florestal", disse. "Acreditamos que as florestas devem ter a diversidade de espécies que deveriam ter."

Galícia começa a lidar com o legado do eucalipto

Observando as terras de sua comunidade em Froxán, cerca de 40 quilômetros a oeste de Santiago de Compostela, Evans Pim relembra os incêndios que transformaram as colinas da região.

"Esta é uma área que foi afetada por um incêndio muito grande em 2006. Todas as áreas florestais ao redor da aldeia queimaram e, depois disso, foram invadidas pelo eucalipto", disse à DW.

Quando um novo incêndio atingiu a região dez anos depois, a comunidade decidiu agir.

Foi criado o grupo voluntário Brigadas Anti-Eucalipto, que trabalha para conscientizar a população sobre espécies como o eucalipto e removê-las de terras comunitárias. O que começou com uma equipe de 50 pessoas hoje reúne 1.500 integrantes em toda a Galícia.

As plantações de eucalipto tornam a Galícia ainda mais vulnerável, como indicam os incêndios florestais devastadores nos últimos anos Foto: Miguel Riopa/AFP

"Temos eliminado o eucalipto e permitido que árvores nativas ocupem esse espaço", afirmou Evans Pim. "Queremos criar um cinturão verde de proteção contra incêndios... e, no futuro, pretendemos ter uma área que se administra sozinha. Onde não precisemos intervir e que seja resiliente ao fogo, às mudanças climáticas e às secas prolongadas."

Os devastadores incêndios de Portugal em 2017, que vitimaram dezenas de pessoas que tentavam escapar das chamas, servem como alerta.

"Portugal viveu essa experiência há alguns anos; pessoas morreram queimadas dentro de seus carros", disse. "Esperamos sinceramente não precisar chegar a esse ponto para que haja mudanças reais na aplicação das leis existentes e para que todas as leis sejam aperfeiçoadas e levadas a sério."

Essa mensagem é cada vez mais ecoada por cientistas, entidades do setor florestal e ativistas, que afirmam que áreas sem manejo adequado estão se tornando um dos maiores perigos relacionados a incêndios, não apenas na Europa, mas em todo o mundo.

Pesquisadores afirmam que os benefícios econômicos do eucalipto precisam ser cada vez mais equilibrados com os riscos crescentes de incêndios florestais.

"Há espaço para o eucalipto, há espaço para a indústria de celulose, sem dúvida", afirmou Joaquim Sande Silva, da Universidade Politécnica de Coimbra. "Mas deve haver regras muito rigorosas sobre como essas plantações são feitas e quais ecossistemas estão sendo substituídos."

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