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A luta vã contra a va(n)idade

Simone de Mello18 de agosto de 2005

Não adianta lutar contra o tempo: a não ser através da arte. Mas será que funciona? O artista britânico Douglas Gordon apresenta-se no Guggenheim de Berlim em companhia de Duchamp, Warhol e Jeff Koons.

Vaidade das vaidades: Douglas Gordon na vernissage de 'The Vanity of Allegory'Foto: AP
Douglas Gordon: 'Staying Home, 2005'Foto: Deutsche Guggenheim/David Heald

O artista se fotografa com uma peruca preta e uma peruca loira e intitula os dois retratos, respectivamente, staying home e going out. Esta encenação irônica de um alter ego do artista não se limita ao disfarce feminino: as duas polaróides de Douglas Gordon (1966) se remetem à série Self Portrait (in Drag) (1980–82), de Andy Warhol, uma seqüência de retratos instantâneos tirados enquanto o artista pop se maquiava para uma performance como drag queen.

Ambas as séries têm precedente: as fotos de Marcel Duchamp como Rose Sélavy através das lentes de Man Ray. E as duas referências nem são tão distantes: estão penduradas logo ao lado, integrando a exposição The Vanity of Allegory, de Douglas Gordon, concebida especialmente para o Guggenheim de Berlim.

Morte: c'est la vie

Nesta instalação, o artista escocês residente em Glasgow e Nova York assumiu o papel de curador e montou uma mostra com obras suas e de 12 outros artistas, variando com material próprio e alheio o tema da auto-encenação do artista como obra de arte. Duchamp e Warhol são referências centrais de Douglas, que usa os ícones da arte conceitual e da pop art como ready-mades em sua exposição.

Mas a obra que constitui o eixo da mostra é o famosa pintura de São Sebastião (1493–94) por Pietro Perugino, na qual o renascentista italiano inscreve sua assinatura na flecha que perfura o pescoço do mártir: "Petrus Perusinus pinxit". Como o Museu Eremitage, em São Petersburgo, não emprestou a obra para a instalação, Douglas Gordon simplesmente expôs uma cópia digital sobre tela, devidamente emoldurada. Afinal, quem se importa com originais na era da infinita reprodutibilidade?

Retorne ao pó

A necessidade do artista em se perpetuar como imagem é abordada como vaidade egocêntrica e como luta (vã) contra a vanidade e a efemeridade. O fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe está representado na mostra com uma foto de crânio – o símbolo da vanitas por excelência – e seu retrato segurando uma bengala com uma caveira na extremidade.

Na parede que separa ambas as imagens, voltadas uma para a outra, lê-se o aforismo do artista conceitual norte-americano Lawrence Weiner: "earth to earth, ashes to ashes, dust to dust" (da terra à terra, da cinza à cinza, do pó ao pó). A morte invade o espaço que o artista reservou para se eternizar.

'The Legend of Leigh Bowery', 2002Foto: Deutsche Guggenheim/Fergus Greer

Em diversas obras expostas – seja na foto de Duchamp com peruca loira por Man Ray ou no busto prateado de Luís 16 (também com peruca) pelo nova-iorquino Jeff Koons –, Gordon destaca a prótese, a maquiagem, a peruca como artifícios para mascarar a ação do tempo. Mas no hall de entrada o visitante já se depara com o mais nítido memento mori: uma mão de cera com um dedo decepado (um trabalho de Gordon), mostrando uma parte do próprio corpo como prótese.

Ready cinema

A instalação de Douglas Gordon também inclui um cinema com programação de 24 filmes, de Hitchcock e Pasolini a Kubrick e Godard, passando por Peter Pan e Branca de Neve. Para Gordon, a única forma de se perpetuar parece ser através do processo de reciclagem da tradição: somente ao serem incorporados por artistas posteriores, os mortos garantem seu eterno presente.

Douglas Gordon: 'Proposal for a Posthumous Portrait', 2004Foto: Deutsche Guggenheim/David Heald

Mas, para um artista tão irônico como Douglas Gordon, esta fórmula já é revertida num segundo momento. A célebre foto de Man Ray Marcel Duchamp tonsurado por Zayas, com a cabeça de Duchamp tonsurada em forma de estrela, é transformada por Gordon num crânio de plástico com uma perfuração em forma de estrela.

Mesmo na continuidade da tradição, nada se conserva: ao que parece, tudo se transforma em conserva. O gesto destrutivo de Gordon já se lê na inversão do título desta mostra, que transforma o topos alegórico da vanitas na "vanidade da alegoria".

Douglas Gordon: 'Play Dead', videoinstalação, Museu de Arte Moderna de Frankfurt (2005)Foto: dpa

A reflexão sobre temporalidade é um fio condutor na obra do escocês Douglas Gordon, ao qual o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) vai dedicar um retrospectiva. Gordon se tornou amplamente conhecido com suas instalações de desaceleração da imagem cinematográfica.

Num de seus projetos mais propagados, Gordon esticou o clássico de Hitchcock Psicose numa seção de 24 horas, na qual a célebre cena de Janet Leigh sendo esfaqueada debaixo do chuveiro dura 15 minutos. Ninguém escapa ao tempo.

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