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A mensagem indireta de Trump à Coreia do Norte

Fabian Kretschmer
11 de maio de 2018

A decisão do presidente de se retirar do acordo nuclear, que estava sendo cumprido, envia um sinal problemático a Pyongyang. Em pleno degelo, Kim Jong-un tem agora todos os motivos para duvidar da sinceridade americana.

Donald Trump, Moon Jae-in e Kim Jong-un na TV sul-coreana
Donald Trump, Moon Jae-in e Kim Jong-un na TV sul-coreanaFoto: picture-alliance/AP/A. Young-joon

As atitudes tomadas pelo atual governo dos Estados Unidos poderiam ser um excelente objeto de estudo na área de dissonância cognitiva para os estudantes de psicologia. Apenas algumas horas após Donald Trump anunciar que se retirava do acordo nuclear com o Irã, o secretário de Estado Mike Pompeo chegava a Pyongyang para tratar do futuro encontro de seu presidente com o ditador Kim Jong-un.

Leia também: Irã gera raro gesto de unidade entre Berlim e Moscou

Pompeo levava consigo a seguinte mensagem: se vocês abandonarem as armas nucleares, aliviaremos as sanções e não os atacaremos. Mas, para o regime norte-coreano, cuja desconfiança em relação a Washington já é bastante aprofundada, o rompimento americano com o acordo nuclear não chegou a surpreender.

A decisão americana sobre acordo com Teerã aumenta também a pressão sobre o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que, recentemente, fez todo o possível para reanimar o frágil processo de paz na Península da Coreia. Seul optou por se manter em silêncio em relação às ações unilaterais de Trump sobre o Irã.

Especialistas em política americana também criticaram a decisão de Trump. Anthony Blinken, que trabalhou como vice-secretário de Estado no governo Barack Obama, questionou se Kim vai ou não confiar nos negociadores americanos, após Trump "rasgar arbitrariamente um acordo" que estava sendo cumprido

"É um forte aviso para todo o mundo: acordos são reversíveis e podem ter data de validade, enquanto as armas nucleares podem oferecer garantias mais duradouras", diz Vipin Narang, professor de ciência política no Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT).

O fracasso do "modelo da Líbia"

No final de abril, o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, afirmou desejar a aplicação do "modelo da Líbia" para o desarmamento nuclear na Coreia do Norte. No início dos anos 2000, o ditador Muammar Kadafi abandonou seu programa nuclear após a pressão diplomática do Ocidente.

Kim diz que encontro é "apenas o começo"

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Bolton, porém, não mencionou que o governo líbio foi derrubado em 2011 com a ajuda de ataques aéreos ocidentais. Kadafi acabaria sendo brutalmente assassinado por seu próprio povo.

Situações como a da Líbia estão entre a as razões principais para que os membros da linha dura do regime norte-coreano se atenham a todo custo ao seu programa nuclear, que veem como uma forma de garantia de vida.

Do ponto de vista da política externa, a confiabilidade de Washington nas conversações diretas com Pyongyang passou a ser considerada duvidosa. Até o momento, a Coreia do Norte deu indicações de que seu desarmamento nuclear deve caminhar lado a lado com um tratado de paz com os EUA.

Uma gafe recente de Pompeo, recém-empossado no Departamento de Estado, levantou algumas dúvidas sobre sua capacidade de levar os EUA à mesa de negociações. Quando estava a caminho de Pyongyang, ele se referiu ao ditador norte-coreano como "presidente Un", obviamente desconhecendo que seu sobrenome é, de fato, Kim. Um típico erro de principiante. 

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