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Esporte

A minha Copa preferida e o último herói do milagre de Berna

5 de fevereiro de 2019

O título de 1954 ajudou a reintegrar a Alemanha Ocidental no mundo, além de fortalecer o moral de um povo em ruínas. Acompanhei tudo a partir de Berlim Oriental - forçosamente às escondidas, escreve Gerd Wenzel.

Com a taça: Fritz Walter, capitão do título mundial alemão, e Horst Eckel, último campeão ainda vivo
Com a taça, Fritz Walter, capitão do título mundial alemão; e Horst Eckel, último campeão ainda vivoFoto: picture-alliance/dpa

Vira e mexe me perguntam: qual foi a sua Copa do Mundo preferida? Desde 1954, acompanhei todas. A maioria como torcedor privilegiado das duas maiores forças do futebol mundial – Brasil e Alemanha. E me dei bem. Já festejei cinco títulos mundiais com o Brasil e quatro com a Alemanha.

Nenhuma Copa, entretanto, foi tão marcante para mim como a de 1954. Aquela que entrou na história com o "milagre de Berna". Puxando pela memória, consultei meus arquivos virtuais que insistiam em me informar que daquela seleção alemã campeã mundial ainda havia um último herói vivo.

Fui checar...e bingo!

Horst Eckel, meia-atacante do time germânico, vai completar 87 anos em 8 de fevereiro.  Ao lado do lendário capitão Fritz Walter, seu companheiro de clube no Kaiserslautern, jogou as seis partidas do Mundial de 1954, inclusive a final contra a Hungria, quando anulou completamente Nandor Hidegkuti.

Hidegkuti era o cérebro e organizador no esquema tático de jogo da equipe magiar. Sepp Herberger, o astuto técnico alemão, deu instruções específicas ao jovem Horst Eckel, de apenas 22 anos: "Acompanhe Hidegkuti por todo o campo e neutralize o seu jogo. Ele é o arquiteto dos húngaros. Sem ele, a Hungria perde seu poder de fogo".

O "Milagre de Berna": torcedores comemoram a vitória alemã em 1954Foto: picture-alliance/dpa

Dito e feito. Hidegkuti cansou e a Hungria, invicta desde 1950, perdeu o único jogo que não podia perder graças em boa parte ao trabalho incansável de Horst Eckel.  

O Mundial de 54 foi marcante para mim não só pela conquista do título da Alemanha Ocidental, mas também por causa da minha experiência pessoal vivenciada como adolescente torcedor e das circunstâncias políticas que me cercavam na época.    

Em 1954 a Alemanha estava dividida em zonas de ocupação pelas forças aliadas vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Eu morava com minha família em Berlim Oriental – o setor da cidade ocupada pelos russos. Tinha 11 anos na época e acompanhava a Copa realizada na Suíça pelo rádio.

À medida que a seleção da Alemanha Ocidental avançava, éramos instruídos na escola pelo nosso professor de classe que deveríamos nos informar sobe a Copa apenas pela mídia da Alemanha Oriental – comunista.

Na prática éramos proibidos de ouvir a emissora de rádio de Berlim Ocidental capitalista sob pena de sermos denunciados à Stasi, a polícia política de segurança do Estado.

Quando Alemanha Ocidental e Hungria passaram pelos seus adversários no mata-mata (quartas de final e semifinais) aumentava a pressão na escola para que nós torcêssemos contra a Alemanha capitalista e a favor dos "irmãos" comunistas da Hungria.

Helmut Rahn, faltando sete minutos para o fim, marca o terceiro gol, que seria o gol do título alemãoFoto: picture-alliance/dpa

Na véspera da final, mais uma vez o professor nos advertia que era proibido ouvir a transmissão do jogo pela emissora de Berlim Ocidental e se manifestar euforicamente por uma eventual vitória alemã. 

Então, eu e mais dois amigos, combinamos de dar um jeito de ouvir a transmissão da emissora capitalista às escondidas debaixo de uma mesa na cozinha do pequeno apartamento. Cobrimos a mesa com cobertores para abafar o som do rádio e ficamos acompanhando a partida com narração inesquecível de Herbert Zimmermann.

Quando Helmut Rahn, faltando sete minutos para terminar o confronto, marcou o terceiro gol, que seria o gol do título, por pouco não explodimos de alegria. Às duras penas nos contivemos e comemoramos em silêncio embaixo da mesa. 

Para a Alemanha foi uma conquista que extrapolou o futebol. Fazia apenas nove anos que o país jazia destruído no chão. Foi só em 1951, após ter sido readmitida como membro da Fifa, que a Alemanha Ocidental disputou seu primeiro jogo internacional, contra a Suíça, num amistoso em Stuttgart.

O título de campeão mundial ajudou a reintegrar o país na comunidade das nações, além de fortalecer o moral do povo alemão que se viu motivado mais do que nunca a reconstruir a nação.

Foi minha primeira Copa do Mundo e logo de cara, aos 11 anos de idade, pude comemorar um título e participar como torcedor, ainda que em silêncio, ouvindo escondido a transmissão do jogo debaixo de uma mesa da cozinha. 

Outras Copas vieram, festejei cinco títulos pelo Brasil e mais quatro pela Alemanha, mas minha Copa preferida, por tudo que ela representou para mim e para o povo alemão, é a de 1954 com "O milagre de Berna".

Tenho certeza que Horst Eckel, o último herói sobrevivente daquele milagre e que completa 87 anos no dia 8 de fevereiro, vai concordar comigo.

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no TwitterFacebook e no site Bundesliga.com.br

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