Em tempos de #MeToo e "Time's Up", mulheres tentam ganhar espaço na indústria do cinema. Hollywood, no entanto, ainda está longe de alcançar igualdade de gênero: apenas 23% dos indicados ao Oscar neste ano são mulheres.
A 90ª edição do Oscar ocorre neste domingo, em HollywoodFoto: Getty Images/J. Merritt
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Os movimentos #MeToo (Eu também) e "Time's Up" (Acabou o tempo), contra o assédio sexual sofrido por mulheres, levantaram um debate urgentemente necessário sobre a igualdade de gênero na indústria do cinema, o que representou um golpe contra a fachada glamorosa de Hollywood.
Em 2018, pela primeira vez em 90 anos de premiação, uma mulher foi indicada ao Oscar na categoria de melhor fotografia: a americana Rachel Morrison, diretora de fotografia do drama Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi. A cerimônia de entrega dos prêmios ocorre neste domingo (04/03).
O filme da Netflix aborda a discriminação racial no sul dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. A diretora do longa, Dee Rees, é a primeira mulher negra a concorrer na categoria de melhor roteiro adaptado, ao lado do roteirista Virgil Williams.
Além disso, a americana Greta Gerwig tornou-se a quinta mulher na história da premiação a ser indicada como melhor diretora, por Lady Bird: É hora de voar, que, aliás, conta a história de amadurecimento de uma garota de personalidade forte em seu último ano de ensino médio.
Tais indicações podem passar a ideia de que, com os recentes debates sobre igualdade de gênero em Hollywood e sobre a pouca representação feminina em premiações de grande destaque, como o Oscar e o Globo de Ouro, algo de fato mudou na indústria cinematográfica.
No entanto, um olhar mais atento sobre a lista de indicados mostra como a situação ainda é preocupante. Enquanto a população dos Estados Unidos – país onde é produzida a maioria dos filmes do Oscar – é composta por 51% de mulheres, a participação feminina na premiação é de apenas 23%. Com exceção para as categorias de atuação, que sempre indicam 10 homens e 10 mulheres.
Rachel Morrison, de "Mudbound", é a primeira mulher da história do Oscar a concorrer ao prêmio de fotografiaFoto: picture-alliance/AP Photo/J. Strauss
Ao todo, entre os 199 indicados neste ano, apenas 46 mulheres concorrem ao prêmio. E elas não estão nem presentes em todas as categorias: não há indicações femininas aos prêmios de melhores efeitos visuais, melhor edição de som e melhor trilha sonora original, por exemplo.
A pouca representação feminina é, no entanto, um problema que aflige a indústria cinematográfica como um todo, e acaba se refletindo no Oscar, segundo mostrou uma pesquisa recente do Centro de Estudos sobre Mulheres na Televisão e no Cinema, com base em San Diego.
A proporção entre homens e mulheres nos bastidores das 250 maiores produções cinematográficas dos últimos 20 anos pouco mudou: cerca de 80% das pessoas atrás das câmeras são homens, uma porcentagem que se manteve constante ao longo desse período, afirmou o estudo.
Há movimentos que já estão chamando a atenção para esse desequilíbrio, como as campanhas #MeToo, nas redes sociais, e "Time's Up", iniciado por mulheres da indústria de Hollywood – entre as signatárias estão Meryl Streep, Emma Stone, Natalie Portman, Reese Witherspoon e Cate Blanchett, que também apoiam financeiramente a iniciativa.
Na Alemanha, um grupo chamado Pro Quote Film faz campanha pela igualdade de gênero na frente e atrás das câmeras, a fim de acabar com o abuso de poder na indústria e os estereótipos nos filmes. A iniciativa argumenta que apenas metade das mulheres que estudam cinema acabam trabalhando de fato na indústria.
Ao analisar mil filmes produzidos entre 2011 e 2015, o grupo concluiu que, em mais de 90% dos casos, o som ficou nas mãos de homens, assim como 85% das funções de câmera.
Em 90 anos de Oscar, Jordan Peele, diretor de "Corra!", é o quinto negro a ser indicado na categoria de direçãoFoto: picture-alliance/ZumaPress
Presença negra
Repensar a desigualdade racial e de gênero no cinema pode ser rentável não só para a sociedade, mas também para as bilheterias. A Universidade da Califórnia examinou os filmes produzidos nos EUA em 2016 e concluiu que as obras que tinham ao menos 30% de atores não brancos tiveram mais sucesso do que aquelas com um elenco etnicamente homogêneo.
O movimento #OscarsSoWhite (Oscars tão brancos) – hashtag que surgiu em protesto contra as indicações dominadas por brancos – teve seus primeiros resultados na premiação do Oscar em 2017, quando atores negros ganharam metade dos prêmios nas categorias de atuação, e Moonlight: Sob a luz do luar, longa sobre um afro-americano gay, foi eleito melhor filme.
Neste ano, apenas quatro dos 20 indicados nas categorias de melhor atuação são negros. Entre os candidatos a melhor diretor, Jordan Peele, de Corra!, se tornou o quinto negro da história do Oscar a concorrer na categoria.
Mas muito se deve também a uma mudança entre os 8.500 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que decidem os vencedores do Oscar, após intensos protestos contra a pouca representação feminina e negra. Grande parte dos 1.500 membros convidados a fazer parte da organização nos últimos dois anos é formada por mulheres e negros.
A possibilidade de Rachel Morrison se tornar, neste domingo, a primeira mulher a receber um dos troféus mais cobiçados pode ser também um resultado dessas mudanças. A própria diretora de fotografia aconselhou suas colegas a ter paciência, mas manter a persistência. "Assim, quando chegarmos ao próximo nível, veremos tantas mulheres nessa função quanto homens – e talvez um dia possamos parar de nos referir a elas como diretores de fotografia mulheres, mas apenas diretoras."
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Após levar a primeira estatueta de melhor filme internacional por "Ainda Estou Aqui", país volta à premiação com "O Agente Secreto" na disputa por quatro categorias. Veja a trajetória de brasileiros na premiação.
Foto: Capital Pictures/IMAGO
"Orfeu negro"
Em 1960, "Orfeu negro", uma coprodução entre Brasil, França e Itália, ganhou a estatueta de melhor filme estrangeiro. Por representar a França, os louros ficaram com os europeus. Mas durante 65 anos foi o único filme de língua portuguesa a ganhar um Oscar.
Candidatos a melhor filme estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "O pagador de promessas", de Anselmo Duarte, garantiu a primeira indicação para o Brasil, em 1962. Em 1995, a história de dois casais de imigrantes italianos vivendo sob o mesmo teto rendeu uma indicação a "O quatrilho", de Fabio Barreto. Dois anos depois, seu irmão, Bruno Barreto (foto), foi indicado na mesma categoria, por "O que é isso companheiro?".
Foto: picture-alliance/dpa
Melhor filme
Esnobado na categoria de filme estrangeiro, "O beijo da mulher aranha" (1985), coprodução com os EUA, foi o primeiro longa latino-americano indicado como melhor filme. A amizade entre um preso político (Raul Julia) e um homem homossexual (Will Hurt) em um presídio brasileiro também rendeu indicações de melhor roteiro adaptado e diretor (Hector Babenco). Hurt venceu como melhor ator.
Foto: 2015 ICRA LLC
"Central do Brasil"
Depois de levar o Urso de Ouro na Berlinale, "Central do Brasil", de Walter Salles, partiu para uma triunfante carreira internacional. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999, o drama sobre a amizade de um menino abandonado e uma mulher desiludida de meia-idade levou também a indicação inédita de melhor atriz para Fernanda Montenegro. Mas nenhum dos dois prêmios foi para o Brasil.
Foto: picture-alliance/dpa/Buena_vista
Melhor curta-metragem
Brasileiros ainda emplacaram duas indicações em melhor curta-metragem. Diretor de sucessos como "A era do gelo 2", o carioca Carlos Saldanha (foto) foi indicado, em 2002, pela animação americana "Gone nutty". "Uma história de futebol" também levou Paulo Machline aos finalistas do prêmio, em 2001. O curta recria passagens da infância de Pelé e de Zuza, seu companheiro de pelada na cidade de Bauru.
Foto: Charley Gallay/Getty Images
Melhor direção
Apesar do sucesso comercial no exterior, "Cidade de Deus" foi esnobado ao prêmio de filme estrangeiro em 2004. Mas o frenético retrato do crescimento do crime organizado na favela carioca teve indicações a melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Fernando Meirelles também foi indicado como melhor diretor, mas quem levou a estatueta foi Peter Jackson, por "O Senhor dos Anéis".
Foto: imago/United Archives
Melhor canção original
O primeiro brasileiro indicado ao Oscar foi o compositor Ary Barroso (foto), autor de "Aquarela do Brasil". Ele foi um dos finalistas ao prêmio pela canção "Rio de Janeiro", do filme "Brasil", em 1945 — uma produção americana. Mais de meio século depois, em 2012, Carlinhos Brown e Sergio Mendes voltaram a representar o país na categoria com "Real in Rio", parte da trilha sonora da animação "Rio".
Foto: Brasilianisches Nationalarchiv - Arquivo Nacional
Os pré-selecionados
Por anos, a seleção de inscritos na disputa pelo Oscar coube a uma comissão do Ministério da Cultura. Desde 1954, com "O cangaceiro", de Lima Barreto, foram mais de 45 títulos, mas só quatro ficaram entre os finalistas. Em 2014, "Hoje eu quero voltar sozinho" (foto), de Daniel Ribeiro, não conseguiu uma indicação. Desde 2021, a seleção passou a ser feita pela Academia Brasileira de Cinema.
Foto: D. Ribeiro
Melhor documentário
"O Sal da Terra", de Wim Wenders e Juliano Salgado, disputou o Oscar de melhor documentário em 2015. O filme retrata a história do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, pai de Juliano. O Brasil havia concorrido antes na categoria, em 2011, por "Lixo Extraordinário", que conta a história de um projeto social no aterro do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Os filmes não foram premiados.
Foto: Wim Wenders/NFP*
Candidato em 2020
"Democracia em vertigem", da diretora Petra Costa, concorreu à estatueta de melhor documentário em 2020, mas perdeu o prêmio para "Indústria americana". O filme brasileiro, incluído na lista dos melhores do ano do "New York Times", aborda a ascensão e queda do PT e a polarização entre esquerda e direita no país. Foi a última produção brasileira a ser finalista do Oscar antes de 2025.
Foto: Netlix/Divulgação
"Ainda Estou Aqui" conquista Oscar de melhor filme internacional
"Ainda Estou Aqui" já tinha feito história ao ser indicado para três categorias do Oscar. Em 2025, conquistou a estatueta de melhor filme internacional. O filme de Walter Salles, sobre a ditadura, foi é a primeira produção totalmente brasileira a disputar o prêmio de melhor filme. Anora, de Sean Baker, venceu nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz, pelas quais o Brasil também concorria.
Foto: Capital Pictures/IMAGO
"O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, disputa 4 categorias do Oscar 2026
Após abocanhar os prêmios de melhor filme internacional e melhor ator em Cannes e no Globo de Ouro, "O Agente Secreto" foi indicado a quatro categorias do Oscar, a principal premiação de Hollywood: melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e direção de elenco. A obra estrelada por Wagner Moura (ao centro) retrata um Brasil embrutecido pela ditadura militar.