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A volta do terrorismo do IRA

24 de abril de 2019

Grupo formado por dissidentes em 2012 reivindica assassinato de jornalista, reavivando o temor de uma retomada de tensões nacionalistas e conflitos sectários na Irlanda do Norte.

Nordirland, Londonderry: Mord an Journalistin Lyra McKee
Foto: Getty Images/AFP/P. Faith

O Novo IRA, grupo terrorista republicano que luta pela reunificação da Irlanda, admitiu nesta terça-feira (23/04) a responsabilidade pela morte da jornalista Lyra McKee, que foi baleada durante um confronto em Londonderry, a segunda maior cidade da Irlanda do Norte, na semana passada. A admissão foi feita em um comunicado citado pelo jornal The Irish News.

Essa foi a primeira morte atribuída ao grupo em três anos, segundo um levantamento da Universidade de Ulster. No comunicado, o Novo IRA apresentou "sinceras desculpas ao parceiro de Lyra McKee, família e amigos pela morte", segundo o The Irish News, que escreveu ter recebido uma mensagem que continha uma mensagem codificada do grupo.

McKee, de 29 anos, foi "tragicamente morta" após ser baleada na noite de quinta-feira, enquanto "se posicionava ao lado das forças inimigas", justificou o Novo IRA.

Em uma coletiva de imprensa na sexta-feira, o inspetor do Serviço de Polícia da Irlanda do Norte, Mark Hamilton, já havia afirmado que as autoridades acreditavam que o assassinato havia sido "um ato terrorista cometido por violentos dissidentes republicanos".

O episódio reavivou o temor da retomada de confrontos violentos regulares na Irlanda do Norte semelhantes ao que se estenderam entre os anos 1960 e 1990. A violência entre nacionalistas republicanos - católicos defensores da unificação das duas Irlandas - e unionistas - protestantes apoiadores do domínio britânico - fez então cerca de 3.500 mortos antes do acordo de paz de Belfast de 1998, que impôs uma retirada das forças britânicas e o desarmamento dos nacionalistas irlandeses. A situação na região também melhorou após a desativação de fronteiras físicas entre as duas Irlandas a partir dos anos 1990, conforme a integração dos países da União Europeia avançou.

Mas, apesar dos acordos, vários grupos republicanos dissidentes do Exército Republicano Irlandês Provisório (1969-1998) continuaram ativos. Ele se reuniram para formar o Novo IRA entre 2011 e 2012. À época, o novo grupo anunciou a sua criação em uma carta enviada ao jornal britânico The Guardian, afirmando que havia formado um "estrutura unificada sob uma única liderança". Entre os grupos que formaram o Novo IRA estavam membros do Ira Autêntico (que por sua vez já era uma dissidência do Ira Provisório); e da Ação Republicana contra as Drogas (RAAD), uma organização de justiceiros que combatia traficantes em Londonderry; além de facções republicanas independentes localizadas em Belfast e zonas rurais,

A morte de McKee ocorreu mais de duas décadas após a aprovação do Acordo de Belfast (também chamado Good Friday Agreement)

Mas não foi a primeira ação violenta do novo grupo. Segundo o jornal Irish Times, em sete anos, o grupo terrorista já acumulou bastante sangue em suas mãos, tendo sido responsável por várias explosões e outros assassinatos. Em 2012, o grupo reivindicou o assassinato de um agente prisional. Em 2016, instalou uma bomba no veículo de um policial em Belfast. O agente morreu 11 dias depois por causa dos ferimentos no ataque. No mesmo ano, o grupo também foi acusado de assassinar um taxista e de intimidar vários policiais, que foram obrigados a mudar de residência por causa de ameaças. Em janeiro de 2017, um policial também foi baleado em uma troca de tiros com membros do grupo.

Em janeiro de 2019, o Novo IRA ainda reivindicou a explosão de um veículo em Londonderry. Após o ataque foram descobertos explosivos junto dos aeroportos de Heathrow e da Cidade de Londres, em ações que também foram reivindicadas pelo grupo.

Mas nenhuma dessas ações gerou a repercussão interna e internacional do assassinato da jornalista McKee.

O funeral da jornalista, previsto para esta quarta-feira, vai contar com a presença da primeira-ministra britânica, Theresa May, e do presidente e do primeiro-ministro da Irlanda, Michael Higgins e Leo Varadkar. 

Na terça-feira, a Comissão Europeia mencionou a morte de McKee e disse que "as mortes de jornalistas nunca vão ser esquecidas" na União Europeia (UE).

"As mortes de jornalistas nunca vão ser esquecidas. A nossa União [Europeia] é regida pela liberdade democrática e pelo Estado de direito e os jornalistas, com o seu trabalho, são centrais para o respeito destes valores", frisou a porta-voz da comissão, Mina Andreeva.

No sábado, a polícia irlandesa anunciou a detenção de dois homens, com 18 e 19 anos, no âmbito da investigação à morte da jornalista, mas eles acabaram sendo liberados sem a apresentação de acusações. Na terça-feira, foi a vez de a polícia confirmar a prisão de uma mulher de 57 anos por suspeita de participação na morte da jornalista. Ela foi presa com base na legislação antiterrorismo.

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