Agência chinesa oferece tours para Coreia do Norte
Kate Hairsine
3 de fevereiro de 2025
Pacote turístico foi lançado para celebrar o aniversário póstumo de Kim Jong-il, pai do ditador Kim Jong-un. Mas ainda não está claro se o país está aberto a turistas e se as viagens serão possíveis.
A Coreia do Norte geralmente promove grandes celebrações públicas no dia 16 de fevereiro; data marca aniversário de Kim Jong-il (dir.), pai e precursor do ditador Kim Jong-unFoto: Jon Chol Jin/AP Photo/picture alliance
Anúncio
Um operador de turismo chinês está oferecendo reservas para viagens a uma cidade no nordeste da Coreia do Norte, entre fevereiro e abril. A oferta é feita em celebração do aniversário de Kim Jong-il (1941-2011), pai e precursor do ditador Kim Jong-un. Essa seria a primeira chance que turistas estrangeiros teriam de visitar a Coreia do Norte desde a pandemia de covid-19.
A Koryo Tours, com sede em Pequim, anuncia que os pacotes levarão visitantes a "atrações" em Rason, cidade na fronteira com a China que é parte de uma zona econômica especial.
"E mais: você viajará à Coreia do Norte para celebrar um dos maiores feriados nacionais, o aniversário de Kim Jong-il", consta do texto promocional no site da agência.
O aniversário do ex-ditador da Coreia do Norte é celebrado em 16 de fevereiro. A data é feriado nacional no país, que tem o costume de celebrar os aniversários de membros da dinastia regente Kim com grandes eventos públicos.
Como seu pai e seu avô antes dele (retratados neste mural em Pyongyang), Kim Jong-un tem governado a Coreia do Norte com punho de ferroFoto: Jon Chol Jin/AP/picture alliance
Abertura de fronteira não foi confirmada
Embora a agência esteja aceitando reservas para a Coreia do Norte, ela frisa que o tour "ainda não está confirmado", pois está "aguardando informações das autoridades chinesas sobre a abertura do lado chinês da fronteira". O pacote de fevereiro também inclui visitas a fábricas, mercados, a um banco e uma escola.
Segundo a agência de notícias sul-coreana Yonhap, outra empresa de viagens chinesa, a Young Pioneer Tours, também anunciou em janeiro que a Coreia do Norte estava se abrindo para turistas em Rason,
Outros tours chineses
A Koryo Tours e outra operadora chinesa de viagens já haviam anunciado em agosto 2024 que contavam com uma abertura da fronteira chinesa para turistas ainda em dezembro daquele ano.
Entretanto, apenas turistas russos puderam viajar à Coreia do Norte desde que o país fechou suas fronteiras no início de 2020 por causa da pandemia. Antes disso, turistas chineses eram a maioria dos que visitavam a Coreia do Norte. Em 2019, estima-se que eles perfaziam de 90% e 95% dos viajantes estrangeiros.
Coreia do Norte nas lentes de um instagrammer
Apesar do destaque no noticiário internacional, nação asiática continua sendo uma das mais isoladas do mundo. Em várias visitas ao país, o instagrammer Pierre Depont tentou capturar a vida cotidiana dos norte-coreanos.
Foto: DW/P.Depont
Traços de normalidade
Apesar da imagem de reclusa, a Coreia do Norte convida estrangeiros a descobrirem suas atrações. Mas viajar como turista não significa passear livremente pelo país, pois guias especiais devem acompanhar cada passo do visitante. As restrições não desencorajaram o instagrammer britânico Pierre Depont, que visitou o país sete vezes, capturando traços de normalidade no cotidiano dos norte-coreanos.
Foto: DW/P. Depont
Capitalismo rastejante
Depont visitou a Coreia do Norte pela primeira vez em 2013 e, desde então, ele estuda as transformações no país autoritário. Nos últimos dois ou três anos, ele observou que “em Pyongyang, tornou-se aceitável exibir a própria riqueza”. Com uma classe média cada vez maior e um boom das construções, a capital norte-coreana parece estar desafiando sanções econômicas internacionais.
Foto: Pierre Depont
Estilo em Pyongyang
Estabelecer contato com pessoas comuns não é fácil na Coreia do Norte, segundo Depont. "Tive algumas conversas aleatórias com estranhos, sempre ouvidas por um dos guias.” De acordo com as experiências do instagrammer, a maioria dos norte-coreanos não gosta de ser fotografado. “As mulheres norte-coreanas estão definitivamente ficando mais estilosas. Mas só é possível notar isso nas cidades.”
Foto: DW/P. Depont
Urbano X rural
Esta estação de metrô em Pyongyang deslumbra passageiros com o que parecem ser paredes de mármore e candelabros. Para Depont, a Coreia do Norte é um lugar ideal para a fotografia. “Você não encontra nenhuma publicidade, nenhuma distração”, diz. Mas enquanto a capital, onde vive a elite, parece estar prosperando, outras partes do país permanecem assoladas pela pobreza.
Foto: Pierre Depont
Dificuldades ocultas
A Coreia do Norte continua sendo uma sociedade altamente militarizada e predominantemente agrícola. Turistas, no entanto, não conseguem ver muito das condições de vida da população rural. “Cada pedacinho de terra é cultivado, cada metro quadrado é usado”, conta Depont.
Foto: Pierre Depont
Abundância encenada?
Turistas interessados na vida fora das cidades norte-coreanas são levados em visitas guiadas a cooperativas agrícolas. Quando Depont visitou uma fazenda do tipo, próxima a Hamhung, segunda maior cidade do país, ela exibia uma pequena venda, com uma variedade de mercadorias ordenadamente expostas. Depont disse ter tido a impressão de que se tratava de um comércio de fachada, só para ser mostrado.
Foto: DW/P.Depont
Escolas de elite
Uma parada numa escola modelo é um ponto importante de muitos tours na Coreia do Norte. A colônia de férias internacional Songdowon foi reaberta em 2014 e recebeu a visita do atual líder do país, Kim Jong-un. “Há algo de irreal no lugar”, conta Depont. “As crianças brincam na sala de jogos, usando fliperamas e cerca de 20 computadores modernos.”
Foto: DW/P.Depont
Militarismo onipresente
O setor militar é fundamental para a identidade do país e para o sustento de sua sociedade. Cerca de um quarto da população trabalha como funcionário militar. Pyongyang tem um dos maiores orçamentos militares do mundo em relação à sua economia. Desde pequenos, os norte-coreanos crescem em meio a um imaginário militar. Depont se deparou com esse tanque em miniatura num playground perto de Hamhung.
Foto: Pierre Depont
Adoração ritualizada
Além do militarismo, o alto nível de controle político e o culto à personalidade de Kim Jong-un e seus predecessores são onipresentes. A adoração cotidiana ao líder supremo impressionou Depont. “Você vê a quantidade de dinheiro e esforço dedicados a sustentar a história dos grandes líderes e suas grandes estátuas.”