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Alemanha planeja dobrar sua capacidade de data centers

Muna Turki
11 de outubro de 2026

Governo alemão quer flexibilizar normas para atrair investimentos em data centers de empresas de IA. Expansão, porém, esbarra nos moradores, que se preocupam com elevado consumo de água e eletricidade e calor gerado.

Centro de dados da Google
Moradores questionam os benefícios dos centros de dados para a comunidade de DietzenbachFoto: Arne Dedert/dpa/picture alliance

O futuro digital na Alemanhaestá tomando forma na cidade de Dietzenbach. Google, EdgeConnex e Maincubes – duas empresas de tecnologia americanas e uma alemã – reservaram terrenos para a construção de centros de dados (data centers) nessa pequena cidade próxima a Frankfurt.

Dietzenbach é um polo logístico nas proximidades do aeroporto da metrópole financeira e tem cerca de 35 mil habitantes. A região de Frankfurt é um dos locais mais atraentes do mundo para operadores de computação em nuvem.

À medida que a demanda por capacidade computacional continua crescendo, mais centros de dados estão sendo planejados no local.

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06:53

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Consumo de eletricidade e água

No entanto, a notícia sobre os planos para um quarto megacentro de dados encontrou resistência entre os moradores.

As dezenas de milhares de computadores instalados num data center precisam de um enorme fornecimento de energia para funcionar ininterruptamente.

Esses equipamentos geram grandes quantidades de calor e necessitam de sistemas de refrigeração, que, por sua vez, consomem enormes volumes de água.

As pessoas entrevistadas pela DW em Dietzenbach demonstraram preocupação com o aumento das contas de água e energia, além de possíveis elevações da temperatura local.

"Queremos saber duas coisas: quais são os benefícios para a comunidade local aqui em Dietzenbach? E quais são os impactos ambientais?", afirmou o morador Wilhelm Sauer, apontando para as quatro imponentes chaminés que se erguem do centro de dados da EdgeConnex.

Ele e outros ativistas locais acreditam que o impacto dos centros de dados sobre os recursos da região talvez não seja compensado pelo número relativamente baixo de novos empregos anunciados.

Já o prefeito de Dietzenbach, Dieter Lang, do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, mostra-se otimista. Segundo ele, cerca de cem empregos de alta qualificação deverão chegar à cidade por meio do centro de dados da Google. Ele também disse esperar benefícios para as finanças municipais por meio de impostos.

Mas a pesquisadora Tara Merk, do projeto Community Data Centers no Instituto Weizenbaum, é cética. Ela acredita que a Alemanha provavelmente arrecadará pouco com centros de dados operados por empresas americanas "porque os lucros podem ser tributados em outros lugares".

Em especial as grandes empresas de tecnologia, diz ela, não vão pagar seus impostos em Dietzenbach.

Falta de informação sobre data centers

Em agosto de 2026, o governo alemão lançou um cadastro nacional de centros de dados que lista consumo de energia e de água e medidas de eficiência energética dos centros já em operação.

No entanto, a lista inclui apenas cerca de 300 instalações, muito menos que os aproximadamente 2 mil centros de dados que, segundo o próprio governo, operam no país.

"Algumas empresas informam seus projetos menores, mas não os grandes", disse Werner Neumann, membro da diretoria da organização ambientalista Bund.

Também não existe uma informação oficial sobre quantos centros de dados estão sendo construídos nem onde eles estão localizados.

Para preencher essas lacunas, o projeto da sociedade civil Heisse Luft (Ar Quente) criou um mapa online dos centros de dados planejados em toda a Alemanha. O mapa é atualizado diariamente com informações obtidas por meio de contribuições das comunidades locais.

"Em tese, essas informações já deveriam estar disponíveis", disse Tiziana von Witzleben, cofundadora da iniciativa Heisse Luft. Ela pondera que talvez o governo alemão não tenha capacidade para reunir e divulgar esses dados, mas acredita que parte da falta de transparência seja deliberada, especialmente por parte de gigantes como Google e Amazon.

"Essas empresas são conhecidas por serem muito reservadas em relação ao que fazem. Porque sabem que, se contarem às pessoas, enfrentarão muitos protestos."

Ao contrário dos Estados Unidos, onde surgiu um movimento nacional de protesto contra centros de dados, na Alemanha as manifestações continuam sendo um fenômeno predominantemente local.

Em fevereiro, o conselho municipal de Gross-Gerau, na região de Frankfurt, votou contra um centro de dados de 2,5 bilhões de euros (R$ 14,7 bilhões) proposto por uma operadora americana. Segundo o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, a decisão foi influenciada, ao menos em parte, pelos intensos protestos dos moradores preocupados com o calor residual gerado pela instalação.

Canteiro de obras do centro de dados de hiperescala do Google em DietzenbachFoto: DW

Em Maintal, outra cidade da região, um megacentro de dados da EdgeConnex enfrentou forte oposição devido ao plano de construir sua própria usina termelétrica a gás. O projeto de 1 bilhão de euros agora procura alternativas de energia numa região cuja rede elétrica já está próxima de seus limites.

A corrida pelo poder computacional

A Alemanha é o maior mercado de centros de dados da Europa, tanto em capacidade quanto em número de instalações. A região de Frankfurt/Reno-Meno, da qual Dietzenbach faz parte, concentra mais de um terço da capacidade total de centros de dados do país.

A proximidade com o ponto de troca de tráfego de internet DE-CIX, em Frankfurt, torna a região especialmente atraente para operadores de computação em nuvem.

Para atingir sua meta estratégica de dobrar a capacidade dos centros de dados até 2030, o governo alemão, formado por uma coalizão entre a União Democrata Cristã (CDU), de centro-direita, e o SPD, propôs alterar a legislação que regula o consumo de energia e a proteção climática.

O Partido Verde questiona se essas metas realmente correspondem à demanda existente. Já o partido A Esquerda demonstra ceticismo em relação à expansão do setor como um todo. Ambos se opõem aos planos do governo de flexibilizar as regras para atrair mais centros de dados.

No extremo oposto do espectro político, a Alternativa para a Alemanha (AfD), apoia a expansão dos centros de dados, mas critica a legislação que incentiva o uso de energias renováveis para alimentá-los.

Mudanças na legislação são controversas

As alterações propostas adiariam o prazo para que os operadores atinjam metas relacionadas ao uso de energias renováveis e também flexibilizariam as exigências relativas ao reaproveitamento do calor residual.

Apesar disso, Merk considera que a política alemã de promoção de centros de dados energeticamente eficientes continua sendo um exemplo em comparação com outros países.

Moradores temem aumento da conta de energia, além de aquecimento da cidadeFoto: DW

Porém, ela critica os trechos da proposta que permitiriam que empresas classificassem como segredo comercial os dados sobre o volume de água e eletricidade consumidos. "Essa proposta altera profundamente o ambiente regulatório em favor dos operadores", afirmou.

"A falta de transparência provavelmente aumentará o antagonismo entre centros de dados e comunidades locais, tornando mais difícil tanto a expansão quanto a manutenção das instalações existentes."

A organização de monitoramento de IA Algorithm Watch argumentou, em nota pública, que as mudanças legais propostas pelo governo não buscam reduzir a burocracia, mas agradar gigantes tecnológicos como Microsoft, Google e Vantage.

"Os operadores alemães e europeus, em sua maioria, não têm problemas com as regras atuais", declarou a entidade. "As alterações vão contra o próprio objetivo do governo de fortalecer empresas alemãs e europeias."

Neste verão europeu, a organização lançou uma campanha contra as mudanças legislativas e reuniu 150 mil assinaturas em defesa da manutenção das obrigações de divulgação pública das informações dos centros de dados.

As mudanças foram apresentadas ao Bundestag (Parlamento alemão) em setembro. Se forem aprovadas, o governo espera que entrem em vigor em janeiro.

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