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HistóriaAlemanha

Alemanha receberá primeira sede do Yad Vashem fora de Israel

28 de maio de 2026

Cidades de Munique e Leipzig serão os primeiros lugares fora de Israel a receber centro oficial de memória do Holocausto. Iniciativa visa fortalecer a perspectiva judaica na memória alemã sobre o assassinato de judeus.

Imagens de vítimas do Holocausto em exposição no Yad Vashem em Jerusalém
Imagens de vítimas do Holocausto em exposição no Yad Vashem em JerusalémFoto: Fabian Sommer/dpa

As cidades de Munique e Leipzig, na Alemanha, foram escolhidas para receber as primeiras sedes fora de Israel do Yad Vashem, memorial oficial dedicado às vítimas do Holocausto localizado em Jerusalém.

Segundo anúncio do Yad Vashem feito nesta quinta-feira (28/05), o objetivo é expandir o trabalho do memorial israelense para a Alemanha e países vizinhos "num momento crítico em que a relativização, instrumentalização ou negação do Holocausto, bem como o antissemitismo, estão em alta".

A ideia, informou a entidade, é usar a "expertise [do Yad Vashem] em memória, documentação e educação [...] para obter o maior alcance e impacto pedagógico possível". 

A previsão é de que eles sejam inaugurados daqui a três anos, com apoio do governo federal.

Também conhecido como Centro Mundial da Memória do Holocausto, o Yad Vashem foi fundado em 1953 por decisão do Parlamento israelense.  

Ele funciona como memorial central, abriga exposições e atua também como instituto de pesquisa.  

Pesou na escolha de Munique como sede principal o fato de a cidade ter sido berço do partido nazista, mas também o "alto padrão de segurança", o apoio financeiro do governo bávaro, a presença de um consulado israelense e a existência de um grande centro de documentação do nazismo.

Antigo endereço nazista, a praça Karolinenplatz (dir.) abrigará o futuro centro do Yad Vashem em MuniqueFoto: Felix Hörhager/dpa/picture alliance

Já Leipzig abrigará um centro menor, voltado para a formação de professores e jovens. A cidade fica no leste alemão, região onde discursos que apregoam o fim da cultura da memória sobre o Holocausto — entoados, em parte, por políticos da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) — têm mais apelo popular.

O anúncio do Yad Vashem vem em um momento de ascensão da AfD. I partido aparece como favorito empesquisas eleitorais nacionais recentes, e se prepara para assumir o governo da Saxônia Anhalt. Ali, o programa eleitoral do partido propõe a realização de cerimônias em memória aos soldados alemães mortos na Primeira e Segunda Guerra como "primeiro sinal da mudança patriótica".

Os novos centros de memória surgem também em um momento de alta nos casos de antissemitismo na Alemanha.

"À medida que nos afastamos cada vez mais da época dos testemunhos dos sobreviventes, uma educação sobre o Holocausto baseada em dados históricos é mais importante do que nunca. Por meio desse centro educacional, o Yad Vashem levará sua abordagem pedagógica específica à Alemanha, e isso em um momento crítico, no qual aumentam a relativização, a instrumentalização ou a negação do Holocausto, assim como o antissemitismo", declarou o presidente do Yad Vashem, Dani Dayan.

Fortalecer a perspectiva judaica na memória alemã sobre o Holocausto

O novo centro educacional deverá fortalecer a perspectiva judaica na cultura de memória alemã, onde predomina a perspectiva dos nazistas, em detrimento da dos próprios judeus.

"Queremos, com o centro educacional, trazer para o diálogo da cultura de memória na Alemanha um quadro mais amplo do que até agora. Isso incluirá principalmente as vozes das vítimas e menos as dos perpetradores", explicou Yael Richler-Friedman, diretora pedagógica do Instituto Internacional de Educação sobre o Holocausto do Yad Vashem, no fim do ano passado. 

Os visitantes serão incentivados a se confrontar com as complexas questões humanas por trás das experiências das vítimas, a fim de estimular uma reflexão sobre a própria identidade e criar empatia.

"A experiência pedagógica do Yad Vashem oferece uma oportunidade única de transmitir de forma ainda mais eficaz a perspectiva das vítimas por meio de formatos educacionais inovadores", declarou a ministra federal da Educação, Karin Prien (CDU). "Saber o que aconteceu é importante para evitar o mal no futuro." 

Pesquisa de 2025 conduzida pela organização Jewish Claims Conference (Conferência de Reivindicações Judaicas, em tradução livre) em oito países europeus mostrou que a ignorância sobre o Holocausto é maior entre os jovens.

Processo em andamento desde 2023

Segundo o Yad Vashem, a ideia de abrir memoriais na Alemanha nasceu durante um encontro em 2023 entre o presidente da entidade, Dani Dayan, e o então chanceler federal Olaf Scholz.

A Alemanha tem uma aliança de longa data com Israel, forjada como reparação pelo assassinato de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra.

Líderes alemães, inclusive o atual chanceler Friedrich Merz, mantiveram seu apoio inabalável a Israel mesmo apesar das críticas internacionais crescentes ao país pela condução da guerra em Gaza.

Anúncio comemorado

O anúncio foi comemorado pelos chefes de governo dos estados da Baviera, Markus Söder, da União Social Cristã (CSU), e da Saxônia, Michael Kretschmer, da União Democrata Cristã (CDU). 

Além de Munique e Leipzig, as cidades de Colônia e Düsseldorf, ambas no estado da Renânia do Norte-Vestfália, também estavam no páreo.

Para Söder, a abertura de um centro do Yad Vashem em Munique é "um claro compromisso com a democracia e contra o antissemitismo". 

"Assumimos nossa responsabilidade histórica: os horrores do nazismo jamais devem se repetir. Para isso, são necessários locais de memória e educação como o Yad Vashem, para que nunca se esqueça o que aconteceu", escreveu ele no X. "Justamente em tempos em que o antissemitismo volta a aumentar, é necessária uma posição clara, uma cultura viva da memória e espaços de formação."

Kretschmer, por sua vez, afirmou que "para a Saxônia, fazer parte do novo centro educacional sobre o Holocausto na Alemanha é uma grande honra e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade".

Ele também se mostrou convencido de que Leipzig pode servir de ponte para a Europa Oriental, inclusive na cooperação com a Polônia e a República Tcheca no campo da educação e da memória.

"De fato, a educação e o encontro são fundamentais para manter viva a lembrança e tornar a história compreensível. A educação e os novos espaços educacionais são necessários e importantes para enfrentar de forma decidida e clara o antissemitismo, os preconceitos, a desinformação e qualquer forma de relativização do Holocausto", ressaltou.

O presidente federal da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, e o presidente de Israel, Isaac Herzog, saudaram o anúncio do memorial. "Ambos os presidentes apoiam esse projeto, que ocorre em um momento de crescente antissemitismo, xenofobia e ódio em todo o mundo", afirmaram em declaração conjunta. "Esse novo centro educacional sobre o Holocausto será um complemento importante ao trabalho significativo do Yad Vashem de documentar as atrocidades do Holocausto, preservar a memória de todos os assassinados e fortalecer a humanidade."

ra (EFE, AFP, dpa, kna, epd)

Visita ao Yad Vashem, memorial do Holocausto em Jerusalém

02:57

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