Com a moeda "sur", governos Lula e Fernández pretendem alcançar o quase impossível: a integração econômica de uma região na qual os países nem sequer formam uma zona de livre comércio. Economistas manifestam ceticismo.
Lula e Alberto Fernández em encontro em Buenos Aires em 23 de janeiro de 2023Foto: Agustin Marcarian/REUTERS
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Argentina e Brasil querem criar uma moeda comum. Isso poderia resultar na segunda maior união monetária do mundo, atrás somente da União Europeia (UE). A América Latina responde por 5% do Produto Interno Bruto (PIB) global, e a UE, por 13%. Não é à toa que o projeto sul-americano dominou as manchetes dos jornais econômicos na Europa no fim de semana.
Na América do Sul, por outro lado, as declarações dos líderes de Brasil e Argentina quase passaram despercebidas. Desde os primeiros projetos de integração sul-americana, há 50 anos, a ideia de uma moeda comum volta e meia alimenta as fantasias dos políticos – mas tais anseios produziram nada mais do que material para trabalhos acadêmicos.
O economista brasileiro-argentino Fabio Giambiagi criticou a retomada da discussão como "perda de tempo". Segundo Giambiagi, a falta de planejamento econômico estatal por parte dos governos e as diferentes conjunturas econômicas impedem o desenvolvimento de um projeto monetário sério.
Cenários econômicos distintos
De fato, os dois Estados não poderiam ser mais distintos em suas políticas monetária e fiscal. O Brasil tem uma taxa de câmbio livre e um banco central independente. Já o banco central argentino atendeu a uma ordem do presidente Alberto Fernández e está imprimindo dinheiro para compensar o déficit orçamentário. Como resultado, a inflação na Argentina é de 95% ao ano. No Brasil, a inflação ficou levemente abaixo dos 6% em 2022.
O Brasil possui mais de 300 bilhões de dólares em reservas cambiais, o que faz do país um credor do sistema financeiro global. A Argentina, por sua vez, deve mais de 40 bilhões de dólares ao Fundo Monetário Internacional (FMI), de quem o país é dependente – e se não o fosse, já estaria insolvente há muito tempo.
As reservas internacionais da Argentina estão quase zeradas. O governo adotou rígidos controles de capital para impedir que os argentinos comprem dólares. Existem cerca de duas dúzias de taxas de câmbios diferentes para o dólar. No mercado negro, a moeda americana vale o dobro da cotação oficial.
E também não existe um mercado comum entre Brasil e Argentina, nem mesmo uma zona de livre comércio. No Mercosul – a comunidade econômica formada por Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai –, as importações de inúmeros produtos estão sujeitas a altas tarifas. Várias isenções também se aplicam à tarifa externa comum. Acrescentar uma moeda comum a essa frágil "comunidade econômica" seria como colocar a carroça à frente dos bois.
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Discurso político, e não econômico
Só há um motivo para o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, reviver o projeto da moeda única: trata-se de um discurso político, e não econômico: Lula quer promover a integração da América Latina.
O Brasil tem mais da metade do poder econômico e da população da América do Sul. Se o Brasil apostar numa maior integração, os Estados sul-americanos poderiam segui-lo rapidamente. Com a unidade na região, Lula quer aumentar o peso geopolítico da América Latina – assim como fez em seus dois primeiros mandatos.
Em abril do ano passado, o agora ministro da Fazenda, Fernando Haddad, escreveu que a moeda comum deve funcionar como um acelerador do processo de integração regional na América do Sul.
Em contrapartida, o governo argentino está feliz com qualquer migalha que possa ajudar o país em sua grave crise. Uma conexão com o vizinho gigante poderia conter o isolamento da Argentina. Haverá eleições em outubro, portanto qualquer notícia com teor positivo é bem-vinda em Buenos Aires.
Certamente, uma integração econômica mais coesa na América do Sul seria muito desejável – mas em vez de promover politicamente projetos de infraestrutura e acordos de livre comércio, os sul-americanos visam dar o terceiro passo antes do primeiro.
O renomado economista Mohamed Aly El-Erian também expressou seu ceticismo. "Nenhum dos dois países tem condições iniciais que possam levar a iniciativa a ser bem-sucedida e atrair outros países", disse. "O melhor que se pode esperar dessa iniciativa é que as conversações forneçam alguma cobertura política para reformas econômicas bastante necessárias."
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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.
Ex-presidentes latino-americanos que já foram presos
A prisão domiciliar de Bolsonaro não é um caso isolado na América Latina. Mais de uma dúzia de líderes de outros países da região, como Argentina, Honduras, Peru e Panamá também enfrentaram problemas com a Justiça.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Jair Bolsonaro (Brasil)
Acusado de liderar uma trama golpista após a eleição de 2022 e réu em diferentes ações na Justiça, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares impostas pelo Supremo, como a proibição de usar redes sociais.
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.