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Angela Merkel é reeleita como chanceler federal da Alemanha

14 de março de 2018

Com 364 votos, deputados do Bundestag confirmam quarto mandato da líder da CDU e encerram longo período de incerteza no governo. Desafio para Merkel agora é convencer os alemães de que tem algo novo a oferecer.

Angela Merkel no Bundestag em 14 de março de 2018
A chanceler federal alemã Angela Merkel lidera o país pela quarta vezFoto: Getty Images/AFP/O. Andersen

Quase seis meses após a vitória na eleição parlamentar de 23 de setembro, Angela Merkel foi reeleita chanceler federal nesta quarta-feira (14/03) pelo Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão, para mais quatro anos de governo. Ela obteve a maioria absoluta necessária dos votos logo no primeiro escrutínio.

Entre os 709 deputados foram contabilizados 688 votos válidos, dos quais 364 a favor de Merkel, apenas nove votos a mais do que o necessário. Ao todo 315 deputados votaram contra e nove se abstiveram.

A grande coalizão com os social-democratas, alcançada por Merkel após meses de difíceis negociações, contava ao todo com 399 votos, o que significa que pelo menos 35 deputados de sua própria coalizão não votaram nela. O fato, porém, não é inédito: há quatro anos ela recebeu 42 votos a menos do que o número de deputados da grande coalizão. Também em 2009 e 2005 não foram todos os membros da coalizão que votaram nela.

Esta é a quarta vez que Merkel é eleita chanceler e promete ser seu mais difícil mandato.

"Temos muito trabalho pela frente", disse Merkel diante da imprensa em Berlim na segunda-feira, quando apresentou o novo acordo de coalizão de governo ao lado dos líderes das outras duas legendas que integram a aliança, o seu novo ministro do Interior, Horst Seehofer (CSU), e o seu novo ministro das Finanças, Olaf Scholz (SPD).

Renovação será um tema importante para o quarto governo liderado por Merkel – porque, para a maior parte dos especialistas em política na capital alemã, a premiê está mais tropeçando do que deslizando rumo à nova legislatura.

Leia também: Propostas curiosas do novo governo alemão

A serena intocabilidade que, até agora, a tornou tão bem-sucedida erodiu durante os últimos meses. Sua União Democrata-Cristã (CDU) alcançou o pior resultado eleitoral do pós-Guerra nas eleições legislativas de setembro – os 33% foram muito mais do que a parcela de votos obtida por qualquer outro partido, mas aparentaram uma derrota para uma legenda acostumada a convencer mais de 40% dos eleitores alemães.

Depois, veio a ruptura das negociações para a formação da chamada coalizão "Jamaica", entre os liberais-democratas do FDP e um Partido Verde relativamente conservador.

O que há de novo?

A "Jamaica" teria sido inédita no plano federal na Alemanha e teria tido ares de um plano de governo fresco para um eleitorado cansado dos dois grandes partidos centristas que governaram a Alemanha durante oito dos últimos 12 anos.

Mas, no final, o FDP abandonou as negociações e declarou, de forma condenatória para a chanceler, que apenas integraria uma coalizão com a CDU sem Merkel à frente do governo.

Merkel abordou o assunto "renovação" diante de dezenas de repórteres na segunda-feira, destacando todas as mudanças que ela já fez e os novos projetos que tem pela frente: a reestruturação do governo federal com a inclusão de pastas de construção e de Heimat("terra natal") ao Ministério do Interior, e a transformação de "assuntos digitais", educação e formação profissional em novos focos de trabalho.

Doze anos depois, como Merkel se mantém no poder?

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A chanceler federal também fez questão de apontar que, excetuando o seu próprio e o da ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, todos os cargos de seu gabinete serão assumidos por novos ministros. "Isso vai mudar as discussões", sugeriu Merkel, sugerindo que o governo pode até parecer o mesmo, mas na verdade é diferente do anterior.

Josef Janning, analista político do Conselho Europeu de Relações Exteriores, vê o fato de Merkel conseguir fazer muito para reconquistar eleitores perdidos com ceticismo. "Ela introduziu algumas caras novas, e são eles que vão precisar fazê-lo", disse Janning à DW. "Ela vai ter que ser aquela pessoa que os deixa brilhar, que os deixa trazer inovações de uma forma que não seja egocêntrica, mas sim com espírito de equipe. Se ela conseguir fazer isso, ela pode dar a impressão de que algo novo está acontecendo", avaliou.

Para o estudioso, a área política mais importante para Merkel é a Europa. "Ela vai precisar demonstrar que pode revigorar a Europa como uma ideia", explicou. "E acredito que ela está determinada em tentar seriamente", observou.

Janning também acha que os últimos meses serviram para corrigir perspectivas europeias sobre a Alemanha. "Antes da eleição, a Alemanha parecia ser a exceção a todas as regras da política europeia, sem nenhum grande partido anti-UE e com uma campanha eleitoral entediante", descreveu. "Essa visão foi destruída. Agora, voltamos a ser um país mais ou menos normal, encabeçado por uma líder mais ou menos normal", afirmou.

Concessões incômodas

Essa ênfase na renovação teve origem nas duas tarefas incômodas que Merkel enfrentou após a implosão da possibilidade da coalizão "Jamaica". Primeiro, ela teve de convencer seus antigos parceiros do Partido Social-Democrata (SPD) a se unirem a ela em mais uma edição da chamada "grande" coalizão (formada pelos dois maiores partidos do país) – e isso depois que o ex-líder do SPD, Martin Schulz, havia descartado a possibilidade.

Em segundo lugar, ela precisou vender o contrato de coalizão que resultou das negociações para a formação de um novo governo – um contrato que incluiu algumas concessões significativas tanto para o SPD quanto para os aliados do partido bávaro União Social-Cristã (CSU) – para a sua própria e desiludida legenda.

Merkel (c.) assina contrato de coalizão ao lado de Horst Seehofer (d.) e Olaf Scholz (e.): pouca diversidade no gabineteFoto: picture-alliance/dpa/AA/E. Basay

É possível notar o alto preço que custou iniciar um quarto mandato no interior da CDU. Merkel precisou indicar um rival da ala direita do partido, Jens Spahn, para ocupar o posto de ministro da Saúde em seu novo gabinete, mesmo que ele tenha uma visão bastante diferente sobre os rumos que o partido conservador deveria seguir.

Não que Merkel seja exatamente progressista nos temas sociais. Apesar de falar muito sobre como ela arrastou o seu partido para a esquerda, Merkel votou contra o casamento gay no Bundestag (Câmara Baixa do Parlamento alemão) no final de seu período legislativo, em junho do ano passado. Alguns meses antes, em abril, ela recusou se definir como feminista quando participava de um painel ao lado de algumas das mulheres mais poderosas do mundo. O título do debate: "Mulheres inspiradoras".

A chanceler alemã também não parece apostar muito na diversidade no interior do governo federal. Apenas seis dos 15 ministros de seu novo gabinete são mulheres. Ninguém pertence a uma minoria étnica e apenas uma vem da antiga Alemanha Oriental.

Mudança de estilo?

Frequentemente, a longevidade de Merkel à frente do governo alemão foi atribuída ao seu estilo de liderança cuidadoso e passivo. Costuma chamar a atenção que ela evite grandes discursos visionários. Em vez disso, busca o consenso impondo sua autoridade nos bastidores.

"Seu estilo de liderança sempre é comparado às mesmas políticas velhas, musculosas e de estilo masculino", define Johanna Mair, professora de Organização, Estratégia e Liderança da Hertie School of Governance, uma escola superior privada em Berlim. "Se não tivermos líderes dominados pela testosterona, ou políticos de estilo masculino, estamos condenados. Tenho certeza de que vamos avaliar sua liderança de forma bem diferente do que hoje daqui a alguns anos", prevê.

Mas o declínio da CDU e do SPD sugere que, atualmente, o centrismo silencioso e o compromisso estão ficando fora de moda para a população.

Por outro lado, o cientista político Josef Janning não acha que isso vai impressionar a chanceler federal. "Nada vai mudar Angela Merkel", acredita. "Contanto que o resultado seja satisfatório – o que é o caso aos olhos de muitas pessoas nesse país, assim como no exterior –, então o método é satisfatório [também]", constata. Apesar de sua passividade nas negociações para formar o atual governo ter sido criticada, "no final, o que contou na sua abordagem da política é que ela entregou uma coalizão", resume Janning.

Por esse motivo, o analista não acha que Merkel vai adotar uma atitude mais liberal que frequentemente é observada em presidentes dos EUA reeleitos a um segundo mandato. "Haverá um sucesso relativo se ela conseguir manter a coalizão unida durante esse período eleitoral, e também se ela preparar o terreno para outra pessoa que possa conquistar um bom resultado para os cristãos-democratas na próxima eleição", prognostica Janning. "Se ela conseguir fazer isso, vai ser considerado um sucesso notável".