Arte para manter viva a memória do colonialismo alemão
Christine Harjes
18 de março de 2024
Em mostra em Bonn, jamaicana Cheryl McIntosh aborda a ação colonialista da Alemanha na África, de 1885 a 1919, e suas consequências sociais e econômicas. No centro, o racismo e o genocídio dos povos herero e nama.
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Espectadores se concentram em torno das obras de Cheryl McIntosh na Casa Ernst Moritz Arndt, uma sucursal do Museu Municipal de Bonn. Quem quer ver todas as instalações e colagens tem que ser paciente: sua exposição Counter thoughts. Counter images (Pensamentos contrários. Imagens contrárias) tem atraído grande atenção.
O evento faz parte do projeto da cidade alemã Aktive Erinnerungskultur (Cultura Ativa da Memória), que enfoca aspectos do colonialismo, racismo, resistência e reconhecimento. Natural da Jamaica, McIntosh justamente usa sua arte para abordar a história colonialista.
Numa instalação à entrada da vila, o público é logo confrontado com palavras do primeiro chanceler federal da Alemanha, Konrad Adenauer, que comandou o país entre 1949 e 1963: "O Reich Alemão tem que se empenhar de todo modo pela aquisição de colônias. No próprio Reich não há espaço suficiente para a grande população."
Essa citação de 1927, antes de o político conservador assumir a chefia de governo, é provavelmente desconhecida pela maioria dos alemães. Segundo a artista jamaicana, estes, aliás, sabem muito pouco sobre a história colonialista de seu país: "Devia haver mais discussões sobre o assunto. As escolas deveriam tratar mais dele, para que as crianças tenham ciência do que aconteceu 100 anos atrás."
Passado colonial quase obliterado
De 1885 a 1919, a Alemanha foi a terceira maior potência colonial da África. Suas possessões incluíam os atuais Namíbia, Burundi, Ruanda e Tanzânia (sem Zanzibar), além do Togo, Camarões e áreas de Gana. Durante a conquista dos territórios, os ocupadores esmagaram brutalmente toda resistência.
Resquícios desse período ainda se encontram na Alemanha. O comandante militar Lothar von Trotha, que desempenhou um papel crucial em reprimir a resistência e as revoltas, está, por exemplo, enterrado em Bonn. Na qualidade de chefe das tropas coloniais da África Sudoeste Alemã, hoje Namíbia, em 1904 ele expediu uma "ordem de extermínio", resultando na supressão sangrenta da rebelião do povo herero, com o assassinato de milhares de civis.
Calcula-se que até 100 mil representantes dos herero e nama tenham sido vítimas dos crimes colonialistas alemães. Mas o túmulo de Von Trotha não traz nenhuma menção ao passado assassino do militar.
Um frequentador de Counter thoughts. Counter images comentou a atualidade do tema: "A história colonial ainda nos marca hoje em dia, por isso acho que é muito importante educar e informar a respeito." Outro explicou onde ainda vê acima de tudo a influência da era colonial.
"Todo o nosso mundo do consumo é baseado em ter sido possível nos locupletarmos com os recursos de outras regiões do mundo ao longo de certos períodos, ou nos beneficiarmos na troca de mercadorias, e vivenciamos isso ainda hoje em dia."
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"É preciso iniciar uma narrativa e uma reflexão"
Para McIntosh, os efeitos da era colonial vão muito além de estruturas econômicas, devido à desigualdade das relações de poder. Portanto esse passado está também indissoluvelmente ligado à discriminação racial na Alemanha: "Enquanto pessoa negra, já fui verbalmente atacada. Para mim, isso é colonialismo." Talvez por isso, desde o início racismo e colonialismo foram a força motriz por trás de seus trabalhos.
Uma visitante que se ocupa intensamente do racismo frisa a importância desse tópico: "É mais do que claro que o racismo desempenha um papel grande na nossa sociedade, o modo como crescemos e como o passado é. É importante tomar consciência de quando se pensa ou age de modo racista."
Após quase dez anos elaborando esses temas de forma artística, McIntosh torce para que suas obras agucem a percepção que os espectadores têm do passado colonialista e gere maior conscientização sobre suas consequências: "Eu gostaria que a gente passasse a falar e trocar ideias sobre o que aconteceu no passado. Acho que precisamos iniciar uma narrativa e uma reflexão."
Counter thoughts. Counter images vai até 28 de março de 2024 na Casa Ernst Moritz Arndt, em Bonn.
Dez fatos sobre a Alemanha colonialista
Os dolorosos legados do passado colonial alemão.
Foto: Jürgen Bätz/dpa/picture alliance
"Nosso futuro está na água"
Sob o chanceler Otto von Bismarck, o Império Alemão estabeleceu colônias nos atuais territórios da Namíbia, Camarões, Togo, partes da Tanzânia e do Quênia. O imperador Guilherme 2°, coroado em 1888, procurou expandir ainda mais as possessões coloniais através da criação de novas frotas de navios. O império queria seu "lugar ao Sol", declarou Bernhard von Bülow, um chanceler posterior, em 1897.
Foto: picture alliance/dpa/K-D.Gabbert
Colônias alemãs
Foram adquiridos territórios no Pacífico (Nova Guiné do Norte, Arquipélago de Bismarck, Ilhas Marshall e Ilhas Salomão, Samoa) e na China (Qingdao). Em 1890, uma conferência em Bruxelas determinou que o Império Alemão obtivesse os reinos de Ruanda e Burundi, unindo-os à África Oriental Alemã. Até o final do século 19, as conquistas coloniais da Alemanha estavam praticamente concluídas.
Foto: picture-alliance / akg-images
Um sistema de desigualdade
Nas colônias, a população branca formava uma minoria pequena e altamente privilegiada – raramente mais de 1% da população. Em 1914, por volta de 25 mil alemães moravam nas colônias. Desses, pouco menos da metade vivia no Sudeste Africano Alemão. Os 13 milhões de nativos nas colônias germânicas eram vistos como subordinados, sem acesso a nenhum recurso da lei.
Foto: picture-alliance/dpa/arkivi
O primeiro genocídio do século 20
O genocídio praticado contra os hereros e os namas no Sudeste Africano Alemão, hoje Namíbia, foi o crime mais grave da história colonial da Alemanha. Durante a Batalha de Waterberg, em 1904, a maioria dos rebeldes hereros fugiu para o deserto, com as tropas alemãs bloqueando sistematicamente seu acesso à água. Estima-se que mais de 60 mil hereros morreram na ocasião.
Foto: public domain
Crime alemão
Somente 16 mil hereros sobreviveram à campanha de extermínio. Eles foram aprisionados em campos de concentração, onde muitos morreram. O número exato de vítimas nunca foi constatado e continua a ser um ponto de controvérsia. Quanto tempo esses hereros debilitados sobreviveram no deserto? De qualquer forma, eles perderam todos os seus bens, seu estilo de vida e suas perspectivas futuras.
Foto: public domain
Guerra colonial de longo alcance
De 1905 a 1907, uma ampla aliança de grupos étnicos se rebelou contra o domínio colonialista na África Oriental Alemã. Por volta de 100 mil locais morreram na revolta de Maji-Maji. Embora tenha sido, posteriormente, um tema pouco discutido na Alemanha, este capítulo permanece importante na história da Tanzânia.
Foto: Downluke
Reformas em 1907
Na sequência das guerras coloniais, a administração nos territórios alemães foi reestruturada com o objetivo de melhorar as condições de vida ali. Bernhard Dernburg, um empresário bem-sucedido (na foto sendo carregado na África Oriental Alemã), foi nomeado secretário de Estado para Assuntos Coloniais em 1907 e introduziu reformas nas políticas do Império Alemão para seus protetorados.
Foto: picture alliance/akg-images
Ciência e as colônias
Junto às reformas de Dernburg, foram estabelecidas instituições técnicas e científicas para lidar com questões coloniais, criando-se faculdades nas atuais universidades de Hamburgo e Kassel. Em 1906, Robert Koch dirigiu uma longa expedição à África para investigar a transmissão da doença do sono. Na foto, veem-se espécimes microscópicas colhidas ali.
Foto: Deutsches Historisches Museum/T. Bruns
Colônias perdidas
Derrotada na Primeira Guerra Mundial, em 1919, a Alemanha assinou o tratado de paz em Versalhes, especificando que o país renunciaria à soberania sobre suas colônias. Cartazes como o da foto ilustram o medo dos alemães de perder seu poder econômico, como também o temor da pobreza e miséria no país.
Foto: DW/J. Hitz
Ambições do Terceiro Reich
Aspirações coloniais ressurgiram sob Hitler – e não somente aquelas definidas no Plano Geral de Metas para o Leste, que delineou a colonização da Europa Central e Oriental através do genocídio e limpeza étnica. Os nazistas também almejavam recuperar as colônias perdidas na África, como evidencia este mapa escolar de 1938. Elas deveriam fornecer matérias-primas para a Alemanha.