Com a maioria dos líderes iranianos mortos, novas figuras que assumiram no lugar parecem muito menos dispostas a fazer concessões. Analistas apontam que estratégia de ataques dos EUA está se mostrando contraproducente.
Embora enfraquecido, regime iraniano permanece de pé após semanas de bombardeios Foto: Alaa Al-Marjani/REUTERS
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Fumaça preta se eleva sobre vários pontos do Golfo Pérsico, sinal de que campos de gás, usinas de energia, infraestrutura civil e instalações militares em toda a região sofreram ataques do Irã. Enquanto isso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declara mais uma vez que o Irã foi derrotado militarmente.
À medida que a guerra se arrasta para a quarta semana, a pressão política sobre Washington aumenta. A escalada dos preços da energia está alimentando a inflação e a incerteza econômica em todo o mundo. No entanto, os EUA e Israel mantém à toda potência a pressão militar.
Essa dinâmica deixa algum espaço para negociações?
Marcus Schneider, chefe do Projeto Regional de Paz e Segurança no Oriente Médio da Fundação Friedrich Ebert, com sede em Beirute, acredita que não.
"Estou muito cético neste momento", disse à DW.
Interlocutores-chave eliminados
Com o assassinato seletivo de figuras-chave iranianas, importantes interlocutores foram eliminados, e os potenciais sucessores também estão sob ameaça.
"Essas pessoas não estão mais por perto", observou Schneider. "E aqueles que estão assumindo seus lugares são considerados muito menos dispostos a fazer concessões."
O próprio Donald Trump chegou a afirmar, na sexta-feira (20/03), que gostaria de "conversar com o Irã", mas que "não há ninguém com quem conversar", já que os líderes iranianos estão todos "fora de cena".
O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, foi morto nas primeiras horas da guerra, em 28 de fevereiro. Seu filho, Mojtaba Khamenei, foi nomeado novo líder supremo, mas não é visto em público desde o início da guerra, em meio a especulações de que ele teria ficado gravemente ferido no ataque.
Outros altos funcionários também foram mortos, incluindo, mais recentemente, o chefe de segurança Ali Larijani, tido como um dos principais formuladores de políticas do regime. Nesta sexta-feira (20/03), a Guarda Revolucionária do Irã informou que seu porta-voz foi morto em um ataque aéreo.
Déficit de confiança
Mesmo que Washington estivesse disposto, provavelmente haveria pouco interesse oficial do Irã em iniciar negociações, disse à DW Stefan Lukas, diretor do think tank Middle East Minds, com sede em Berlim.
A atual liderança do Irã aprendeu na prática que ataques podem ocorrer mesmo enquanto as negociações estão em andamento, acrescentou. Da perspectiva de Teerã, os danos causados pelos EUA são grandes demais para que qualquer nível de confiança seja estabelecido.
No entanto, não se pode descartar que exista contato entre as partes em conflito por meio de canais secretos, por exemplo, via Iraque ou Omã, disse Lukas.
"No entanto, não haverá mudanças significativas no nível diplomático por enquanto", afirmou.
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Regime iraniano resiliente, por enquanto
Para o Irã, está claro que qualquer pessoa em posição de negociação estaria em risco.
"Essa estratégia de ataques de decapitação agora está saindo pela culatra", disse Schneider.
A suposição de que a remoção de líderes-chave poderia provocar uma rápida mudança de regime provou ser um erro de cálculo, afirmou ele.
"Para o regime iraniano, o simples fato de sobreviver a um conflito armado com os EUA já constitui uma vitória", de acordo com uma análise do think tank americano Middle East Institute.
Essa avaliação bate com a impressão de que Teerã tem focado menos em avanços militares e mais em resultados políticos e estratégicos.
Lukas aponta para a resiliência estrutural do regime, às vezes chamada de "estratégia de defesa em mosaico", na qual unidades semiautônomas podem operar em diferentes áreas sem uma estrutura de comando centralizada.
"O regime sempre foi uma caixa preta", explicou.
Apesar dos ataques, a estratégia do regime de exercer pressão econômica sobre os mercados de energia parece estar dando certo.
Escalada econômica global
O bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques à infraestrutura energética tiveram um impacto direto nos mercados globais.
"Por que o Irã deveria parar agora?", disse Schneider.
"As guerras são decididas não apenas militarmente, mas também politicamente. Teerã espera que sua própria capacidade de suportar adversidades se revele maior do que a de seus adversários."
Embora o Irã possa não ser capaz de se igualar aos Estados Unidos militarmente, ele pode intensificar a guerra economicamente, de acordo com uma avaliação da Thomson Reuters. Isso muda o equilíbrio de poder, pelo menos em parte, para uma arena onde a superioridade militar é menos decisiva.
O mês de março em imagens
Veja alguns dos principais acontecimentos do mês.
Foto: Vahid Online/UGC
Ataques matam lideranças da Guarda Revolucionária do Irã
A Guarda Revolucionária do Irã confirmou que seu porta‑voz, Ali Mohammad Naini, foi morto em ataques dos Estados Unidos e de Israel, marcando mais uma baixa de alto escalão no conflito. O regime iraniano classificou a morte como "um ato terrorista traidor às vésperas do último dia do Ramadã", de acordo com um comunicado divulgado pela mídia local. (20/03)
Foto: Tasnim
Belarus liberta presos políticos em troca de fim de sanções
O governo de Belarus libertou 250 prisioneiros políticos como parte de um acordo com os EUA, que tem como contrapartida a suspensão de sanções por parte de Washington. A medida ocorreu após um encontro do presidente belarusso, Alexander Lukashenko, que governa o país desde 1994, com um enviado de Trump. Segundo ONGs, há ainda cerca de mil presos políticos em Belarus. (19/03)
Foto: BNS/IMAGO
EUA aliviam sanções à Venezuela em meio à crise do petróleo
Departamento do Tesouro dos EUA flexibiliza sanções para permitir que empresas americanas realizem negócios com a estatal venezuelana PDVSA. Governo de Donald Trump tenta aumentar o fornecimento mundial de petróleo após os danos provocados ao comércio global pela guerra com o Irã. (18/03)
Foto: Matias Delacroix/AP Photo/picture alliance
Irã confirma morte de Ali Larijani, figura central do regime
O Irã confirmou a morte de Ali Larijani, chefe do Conselho Superior de Segurança do país, que havia sido anunciada pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz. Ele era considerado a principal figura por trás da violenta repressão do governo iraniano aos protestos no país. A morte de Larijani é mais importante desde o assassinato do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. (17/03)
Foto: Marwan Naamani/ZUMA/IMAGO
"Uma Batalha Após a Outra" vence Oscar, e Brasil sai sem prêmio
"Uma Batalha Após a Outra", de Paul Thomas Anderson, foi o grande vencedor do Oscar de 2026, levando prêmio de melhor longa-metragem e mais cinco estatuetas no fim do domingo. Na categoria de Melhor Filme Internacional, o brasileiro O Agente Secreto não conseguiu repetir o sucesso do ano passado, quando venceu Ainda Estou Aqui. O Brasil saiu sem prêmios, apesar do recorde de indicações. (16/03)
Foto: Patrick T. Fallon/AFP
Comícios de Orbán e de opositor reúnem multidões na Hungria
Milhares participaram de marchas rivais organizadas pelo premiê húngaro Viktor Orbán e seu principal opositor, Peter Magyar, em Budapeste. Ambos impulsionam acusações de interferência estrangeira a um mês das eleições parlamentares do país. Orbán retrata o líder da oposição como um "fantoche" de Bruxelas, enquanto Magyar acusa o premiê de depender de Moscou para permanecer no poder. (15/03)
Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas, aos 96 anos
Um dos mais influentes pensadores do século 20, Habermas morreu em Starnberg, onde vivia desde 1971. Fiel ao seu ideal cosmopolita de uma democracia aberta, ele permaneceu ativo até os últimos anos, intervindo regularmente no debate público alemão. Defendeu o direito ao asilo durante a crise migratória de 2015 e uma UE unificada diante do avanço do populismo de direita e do nacionalismo. (14/03)
Foto: Louisa Gouliamaki/AFP/Getty Images
Assessor de Trump que visitaria Bolsonaro tem visto revogado
Itamaraty justificou medida afirmando que diplomata mentiu sobre agenda no Brasil, e alertou STF sobre risco de "indevida ingerência" em assuntos internos. Darren Beattie supostamente visitaria ex-presidente na prisão e encontraria Flávio, pré-candidato ao Planalto em 2026. (13/03)
Foto: Luis Nova/AP Photo/dpa/picture alliance
Lula zera impostos sobre diesel em reação à guerra no Irã
Medida será acompanhada do aumento de subsídios a produtores e importadores do combustível e de maior taxação do petróleo nacional que é vendido ao exterior. Com isso, expectativa é baratear o diesel em R$ 0,64 por litro. Objetivo é conter uma escalada generalizada da inflação em meio à disparada do petróleo. (12/03)
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Bomba da 2ª Guerra força evacuação recorde em cidade alemã
Autoridades de Dresden evacuaram 18 mil pessoas após a descoberta de uma bomba não detonada da Segunda Guerra Mundial, a maior operação desse tipo já realizada na cidade. O explosivo de fabricação britânica foi desativado após duas horas de trabalho das equipes de segurança. Foi o quinto artefato encontrado durante obras de reconstrução de uma ponte. (11/03)
Foto: Robert Michael/dpa/picture alliance
Chefe da UE anuncia plano para ressuscitar energia nuclear
Num aceno à expansão do uso da energia nuclear, a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um fundo de 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) para estimular o setor. Ela chamou a redução da indústria de "erro estratégico". Ativistas do Greenpeace interromperam a cúpula sobre o tema, criticando a importação de urânio enriquecido russo pela França e outros países europeus. (10/03)
Foto: Dimitar Dilkoff/AFP
Barril de petróleo ultrapassa os 100 dólares pela 1ª vez desde 2022
Crise no Oriente Médio fez o preço do petróleo ultrapassar a barreira dos US$ 100 pela 1ª vez desde o início da guerra na Ucrânia. O valor do Brent atingiu os 114 dólares por barril (159 litros) no início do pregão. Os preços recuaram após a notícia de que alguns Estados-membros do G7 estariam considerando a liberação de reservas estratégicas para aliviar a pressão sobre os mercados. (09/03)
Foto: Scott Olson/Getty Images/AFP
Apoiadores dos Verdes comemoram resultado em Baden-Württemberg
Sede da indústria automobilística da Alemanha, o estado de Baden-Württemberg viveu uma corrida eletrizante na eleição para o governo local. Após o partido conservador CDU liderar as pesquisas de opinião por várias semanas, as primeiras projeções após o fechamento das urnas deram a vitória aos Verdes. A confirmação do resultado seguiu acirrada até os últimos momentos. (08/03)
Foto: Wolfgang Rattay/REUTERS
Tornados deixam rastro de destruição nos Estados Unidos
O estado de Michigan foi atingido por uma onda de tempestades que deixou mortos, feridos e destruiu cidades. Quatro pessoas morreram na região, que decretou estado de emergência. Mais quatro morreram em Oklahoma. Tempestades da primavera ocorrem normalmente durante aquilo que é conhecido como "época dos tornados", que geralmente começa em diferentes alturas e em diferentes partes dos EUA. (07/03)
EUA e Venezuela concordam em restabelecer laços diplomáticos
Os Estados Unidos e Venezuela concordaram formalmente em restabelecer laços os diplomáticos que estavam rompidos desde o início de 2019. A decisão representa um novo e contundente passo no processo de cooperação entre os dois países iniciado após o governo de Donald Trump capturar Nicolás Maduro. (06/03)
Foto: Julio Urribarri/Anadolu/picture alliance
Países europeus reforçam missão militar no Chipre
Após Grécia, França e Reino Unido anunciarem o envio de militares ao Chipre na esteira de um ataque de drone iraniano a uma base aérea britânica no país insular, Itália, Espanha e Holanda juntaram-se ao grupo. Também nesta quinta-feira, Paris confirmou ter autorizado a presença "temporária" de aeronaves americanas em bases francesas no Oriente Médio. (05/03)
Foto: Johan Nilsson/TT NEWS AGENCY/picture alliance
EUA afundam navio de guerra iraniano perto do Sri Lanka
Ambulância com marinheiros resgatados entra em hospital no Sri Lanka, após submarino americano afundar navio de guerra iraniano no Oceano Índico. O país registrou o resgate de 32 tripulantes da fragata Iris Dena, mas outros 148 estavam desaparecidos, com poucas esperanças de serem encontrados. O vice-ministro do Exterior do Sri Lanka afirmou que ao menos 80 morreram no incidente. (04/03)
Foto: AFP/Getty Images
Trump agradece a Merz por "ajuda" da Alemanha com o Irã
O presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, na Casa Branca. Trump agradeceu à Alemanha por permitir o acesso de forças americanas a bases no país e
Merz, por sua vez, afirmou que a Alemanha e os EUA compartilham o desejo de se livrar do atual regime iraniano. "Estamos em sintonia em termos de acabar com este regime terrível no Irã", disse. (03/03)
Foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP
Ataques de Israel no Líbano ampliam conflito no Oriente Médio
Em resposta aos lançamento de foguetes contra Israel pelo grupo xiita libanês Hezbollah, militares israelenses atacaram alvos no Líbano. Na madrugada anterior, três caças americanos foram abatidos por engano pelas defesas aéreas do Kuwait (foto), país aliado da Casa Branca, e um drone iraniano caiu na pista de pouso de uma base militar britânica no Chipre. (02/03)
Foto: Social Media/REUTERS
Retaliação iraniana atinge países do Golfo em 2º dia de conflito
Israel lançou uma nova onda de ataques contra Teerã e o Irã retaliou com barragens de mísseis contra o território israelense, além de alvejar petroleiros e tentar atingir o porta‑aviões americano USS Abraham Lincoln. Ao menos seis países do Golfo também foram atingidos. Três pessoas morreram nos Emirados Árabes Unidos e uma no Kuwait. (1º/03)