Berlim e Paris combinam atuar juntos no processo pós-talibã
25 de outubro de 2001
A Alemanha e a França acertaram um ação conjunta para depois da queda do regime talibã no Afeganistão. O acerto foi anunciado pelo chanceler federal alemão, Gerhard Schröder, depois do seu encontro informal de cúpula com o presidente da França, Jacques Chirac, e o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, ontem à noite, em Paris. Os dois países, que representam o motor da União Européia (UE), estão decididos a desempenhar um papel importante nas novas estruturas políticas do Afeganistão.
Schröder e Chirac mostraram-se preocupados com a situação humanitária no Afeganistão, mas rejeitaram as exigências crescentes em seus países de uma suspensão dos bombardeios para possibilitar fornecimento de ajuda a milhões de afegãos famintos.
Um cessar-fogo só prolongaria o conflito e o sofrimento da população, disse o chefe de governo alemão, acrescentando: "Nós desempenharemos um papel destacado no processo pós-talibã, o qual queremos o mais rápido possível". Schröder e Chirac confirmaram a disposição dos seus governos de contribuir com os planos da União Européia para o Afeganistão, sob o patrocínio Organização das Nações Unidas (ONU), com a participação das diversas etnias afegãs e do ex-rei exilado em Roma, Sahir Shah, como figura de integração na fase transitória.
Os líderes alemão e francês admitiram uma participação militar direta de seus países nos ataques dos EUA ao Afeganistão. "Mas a decisão sobre uma ação ainda não foi tomada", esclareceu Chirac. "Este é também o caso da Alemanha," acrescentou Schröder. Ambos ofereceram ajuda irrestrita várias vezes e continuam aguardando a solicitação do presidente americano George W. Bush para colocar suas Forças Armadas em ação. Dos 18 aliados dos EUA na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), só a Grã-Bretanha teve participação direta até agora nos ataques.
Relatório - Participaram também do encontro de cúpula teuto-francês os ministros do Exterior da França, Hubert Védrine, e da Alemanha, Joschka Fischer. Este fez uma pausa no seu giro pela Ásia Central e o Oriente Médio, voando de Teerã para Paris, a fim de relatar as conversas difíceis que teve na Arábia Saudita e no Irã sobre os conflitos israelense-palestino e afegão. Fischer seguiu hoje para Israel.
Críticas - Os ataques aéreos dos EUA no Afeganistão deparam-se com críticas cada vez maiores na Alemanha e na França. Em Berlim, não só parte do Partido Verde, governista, exige um cessar-fogo para possibilitar o envio de ajuda humanitária aos milhões de afegãos famintos. O mal-estar é cada vez maior no Partido Social Democrático (SPD), presidido pelo chefe de governo, disse o deputado social-democrata esquerdista Ottmar Schreiner.
Políticos proeminentes da França também exigiram uma suspensão imediata dos bombardeios, como o ex-ministro e amigo do ex-presidente Giscard D’Estaing, Jean-François Daniau, um profundo conhecedor do Afeganistão. "A chuva de bombas americanas sobre o país dos islâmicos da idade da pedra tornou-se surrealista", disse ele. Schröder revidou a crítica: "A Alemanha, a França e os EUA não quiseram o conflito, mas foram obrigados pelos terroristas e agora nós temos que ganhar a guerra".