Aficionados da música do alemão foram surpreendidos com a descoberta de uma obra perdida, de 1931. Canção tematiza a cegueira e teria sido escrita para a atriz e esposa do compositor, Lotte Lenya.
Kurt Weil e a esposa, Lotte Lenya, em foto de 1942Foto: picture-alliance/AP Photo/R. Kradin
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Quando caminho pelo bairro de Berlin-Charlottenburg, há um lugarzinho escondido pelo qual sempre gosto de passar, entre a Kantstrasse e a Fasanenstrasse: o Lotte-Lenya-Bogen, um arco de trilhos de trem ao qual deram o nome da cantora e atriz alemã Lotte Lenya.
Os aficionados do trabalho musical de Kurt Weill reconhecem o nome imediatamente: Lenya foi casada com ele, e, mais importante, doou sua voz a algumas das canções mais conhecidas do compositor alemão, como Seeräuber Jenny e outras da peça Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928), escrita com Bertolt Brecht.
Esses três nomes: Lenya, Weill e Brecht evocam imediatamente a Berlim da República de Weimar retratada em tantos trabalhos alemães e estrangeiros. Não é sob um desses arcos de trilhos que a personagem Sally Bowles, interpretada por Liza Minnelli, solta um grito na filmagem de 1972 de Cabaret, dirigido por Bob Fosse?
Trecho do manuscrito da recém-descoberta "Canção do Queijo Branco"Foto: Freie Universität Berlin/Institute for Theater Studies/Gerda Schaefer Papers
Os aficionados da música de Weill tiveram uma boa surpresa esta semana. Como noticiado pela Fundação Kurt Weill para Música, de Nova York, e em jornais alemães e americanos, o acaso levou um estudioso da obra do alemão a descobrir a partitura de uma nova canção do compositor na biblioteca da Freie Universität de Berlim. Intitulada Lied vom weissen Käse (Canção do Queijo Branco), teria sido escrita para Lenya, que chegaria a cantá-la em um evento no teatro Volksbühne.
A atriz havia tentado reencontrar informações sobre a canção, sem sucesso. Com a fuga de Weill em 1933, assim como tantos outros artistas judeus, acreditava-se que a canção nunca fosse recuperada. Lenya teria declarado: "Estará perdida em algum porão, como tantas outras coisas."
É entusiasmante pensar que novos trabalhos de artistas do entreguerras ainda possam ser encontrados em pleno século 21. A última grande descoberta de obras de Weill aconteceu em 1983, quando a cunhada do compositor descobriu várias peças do começo de sua carreira em um baú.
A canção refere-se a um curandeiro muito famoso na República de Weimar, Joseph Weissenberg (1855-1941), que usava, entre outras coisas, queijos para curar as pessoas e teve um grande número de seguidores. Em seu consultório na Gleimstrasse, em Prenzlauer Berg, chegou a tratar 50 pacientes por dia.
Na canção, uma jovem cega, interpretada por Lenya, é tratada pelo curandeiro mas não volta a enxergar. Ao fim da canção, ela medita se não seria melhor que todos fossem cegos, para não ver as atrocidades que acontecem no mundo. A canção é de 1931. Não foi justamente cegueira que acometeu a população alemã apenas um par de anos depois? Ou a cegueira se refere a toda a parcela da população que afirmou mais tarde não ter visto as atrocidades nazistas?
Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.
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As revoluções e suas músicas
Quer americana, francesa, russa ou árabe, por convicção ou obrigação, há séculos os compositores criam obras destinadas a apoiar ou comentar as revoluções. Mas também há espaço para vozes críticas.
Foto: picture-alliance/akg-images
Melodias e ritmos revolucionários
Compositores de diversos países e épocas têm feito música inspirada por ideias e eventos revolucionários. A Revolução Francesa de 1789, em especial, deixou forte marca em numerosas peças musicais. Porém outros levantes também tiveram sua trilha sonora.
Foto: picture-alliance/Luisa Ricciarini/Leemage
Canto da independência americana
Até hoje, "Yankee Doodle" é uma das melodias populares mais conhecidas dos Estados Unidos. Ela era a canção dos revolucionários que almejavam se libertar da dominação britânica – coisa que alcançariam em 1776. Thomas Jefferson elaborou a Declaração de Independência, enfatizando a liberdade e igualdade de todos os seres humanos. E a Revolução Francesa abraçou essas ideias.
Músico de Napoleão
Etienne-Nicolas Méhul foi o compositor revolucionário por excelência. A ele Napoleão Bonaparte encomendou um hino famoso na virada do século 18 para o 19, "Le chant du départ" (O canto da partida). Porém o líder esnobou a "Missa solene" de Méhul para sua coroação como imperador. Ao compositor francês fica o mérito de ter inspirado Beethoven na "Quinta sinfonia", apelidada "Do Destino".
Foto: picture-alliance/Gep/Citypress24
Ópera de salvação
Também o italiano Luigi Cherubini foi contagiado pelo espírito da revolução. Em 1800 sua "ópera de salvação" "Os dois dias, ou O aguadeiro" fez sucesso estrondoso. Esse gênero operístico trata do resgate de uma personagem injustamente perseguida. Aqui, o vendedor de água salva um conde de pagar com a vida por suas ideias progressistas. O obra foi fonte de inspiração para "Fidelio" de Beethoven.
Foto: picture-alliance/Fine Art Images
Fascínio da "Eroica"
Em 1803 a "Sinfonia nº 3" de Beethoven, apelidada por ele "Eroica", rompia com todas as convenções do gênero. Mais longa e dramática do que qualquer obra até então, ela nasceu como verdadeira "música da revolução", em honra a Napoleão. No entanto Beethoven retirou a dedicatória quando o líder francês se fez coroar imperador – traindo, assim, os ideais de liberdade, igualdade, fraternidade.
Foto: picture-alliance/Leemage
Homenagem à Revolução Russa
Sergei Prokofiev compôs em 1937 sua "Cantata pelo 20º aniversário da Revolução de Outubro". Além de um total de 500 instrumentistas e coristas, ela inclui tiros de canhão, metralhadora e sino de alarme. A bombástica obra sobre textos de Marx, Engels e Lenin caiu, no entanto, em desagrado com o ditador Stalin, só sendo estreada em 1966, em versão reduzida.
Foto: picture-alliance/akg
Déspota humilhado
O poeta e libertário Lord Byron escreveu em 1814 uma "Ode" à abdicação de Napoleão, em que zombava do imperador. Em 1942, sob a impressão do domínio nazista, Arnold Schoenberg musicou o poema para recitante, piano e quarteto de cordas. Um crítico musical contemporâneo apontou paralelos entre Bonaparte e Hitler – que o compositor politicamente engajado não contradisse.
Foto: picture-alliance/dpa/APA Publications Arnold Schönberg Center
Beatles, 1968 e "Revolution"
A primeira canção que os Beatles gravaram para o "álbum branco" foi "Revolution". John Lennon a compôs em 1968, durante uma estada na Índia, inspirado nos protestos estudantis de Paris, na Guerra do Vietnã e no atentado contra Martin Luther King. A "Revolução" dos Beatles, porém, é pacífica, sem tiros nem extremistas violentos.