Ao vivo

Bolsonaro é retratado como "assassino do clima" no Carnaval alemão

Alemanha | 24.02.2020

Famosa pela sátira política, festa na Alemanha é marcada por críticas à extrema direita. Em Düsseldorf, boneco do presidente tem serra elétrica no lugar dos braços e suástica nazista no peito – removida após polêmica.

O presidente Jair Bolsonaro foi tema de carros alegóricos durante os tradicionais desfiles carnavalescos na Alemanha nesta segunda-feira (24/02). A Rosenmontag, "segunda-feira das rosas", é o ponto alto do Carnaval de rua do oeste alemão, famoso por suas sátiras políticas.

Em Düsseldorf, um carro alegórico trouxe um boneco do presidente brasileiro na posição de Cristo Redentor, mas com serras elétricas no lugar dos braços abertos. Nelas, lia-se "assassino do clima" e "Bolsonaro". Em volta do boneco, havia tocos de árvores decepadas e ensaguentadas.

Mas um detalhe da representação causou polêmica nesta segunda-feira. Uma bandeira brasileira estampada no peito de Bolsonaro trazia uma suástica nazista em seu centro.

Carnavalescos responsáveis pelo carro alegórico tiveram que remover o símbolo nessa segunda-feira, após recomendação das autoridades.

Policiais avistaram a suástica e consultaram promotores públicos, que concluíram que a representação representaria um crime – na Alemanha, emblemas e símbolos de organizações anticonstitucionais não são permitidos por lei. Assim, os organizadores foram aconselhados a cobrir ou remover a suástica.

Jacques Tilly, responsável pelo carro, confirmou o caso à agência de notícias DPA. "Isso é um absurdo, porque impede que haja liberdade de sátira, mas nós seguimos. Bolsonaro agora tem um buraco no peito", afirmou o carnavalesco.

Mais tarde, o ministério público expressou dúvidas sobre sua própria avaliação. "Uma análise mais aprofundada mostrou que a suástica nesse contexto deveria ser respaldada pela liberdade artística", disse uma porta-voz do órgão.

Em Colônia, outro carro alegórico representou o presidente brasileiro, dessa vez segurando a bandeira do Brasil atada a um palito de fósforo tamanho família e exibindo um largo sorriso, diante de árvores carbonizadas e sambistas seminuas e chamuscadas.

Alegoria com árvores e passistas carbonizadas é crítica às queimadas na Amazônia

"Esse é meu carro preferido", afirmou Holger Kirsch, diretor do desfile, em entrevista ao jornal local Kölner Stadt-Anzeiger. A alegoria, outra crítica às queimadas na Amazônia, produziu fumaça literalmente. "Nós trabalhamos com verdadeiras sacas de café e ainda instalamos um sistema de tubulação para que fumegue bastante", acrescentou.

Essa não foi a primeira vez que Bolsonaro é alvo do humor alemão. Em agosto, ele foi ridicularizado em horário nobre num programa humorístico transmitido pela principal rede de televisão pública da Alemanha, que criticou as políticas ambientais e agrícolas do presidente brasileiro e o chamou de o "boçal de Ipanema", entre outros apelidos.

A sátira política sempre foi um dos pratos principais dos desfiles carnavalescos no oeste alemão, em cidades como Colônia, Mainz ou Düsseldorf.

"Nosso mundo está mais político do que nunca – então, nossos carros alegóricos também o são", afirmou Kirsch ao jornal Bild. O tabloide informa que os 26 carros alegóricos do desfile deste ano em Colônia trouxeram, ao todo, representações de 14 políticos.

O presidente russo, Vladimir Putin, seu colega chinês, Xi Jinping, o premiê britânico, Boris Johnson, o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram outras atrações na Rosenmontag de Colônia neste ano.

As figuras da política alemã, logicamente, também não faltaram. Uma das alegorias exibiu a chanceler federal alemã, Angela Merkel, junto à sua colega da União Democrata Cristã (CDU), Annegret Kramp-Karrenbauer, que comunicou recentemente sua renúncia como chefe do partido.

Outro carro mostrou uma múmia representando o Partido Social-Democrata (SPD), que tenta ressuscitar dos mortos. A legenda, que integra a coalizão do governo alemão, enfrenta há anos forte tendência de queda nas pesquisas de intenção de voto.

"Palavras se tornam ações", diz frase no rosto de boneco, em alegoria que rechaça o terrorismo de extrema direita

Além da sátira política usual, um posicionamento forte contra a extrema direita foi particularmente evidente em 2020. Enquanto Colônia representou sua famosa Catedral em lágrimas pelas vítimas do recente atentado terrorista em Hanau, Düsseldorf mostrou o racismo como uma arma mortal.

"Neste momento, não há nada mais sério do que o terrorismo de extrema direita", afirmou o carnavalesco Tilly, de Düsseldorf. Um dos carros alegóricos na cidade representou a cabeça de um homem enraivecido, com uma arma saindo de sua boca, em que se lia "racismo". Na bochecha do boneco, a seguinte frase: "Palavras se tornam ações."

A alegoria também chamava a atenção para os ataques a tiros em Hanau na última quarta-feira, que deixaram nove pessoas de origem estrangeira mortas. Após o massacre, o terrorista voltou para casa, onde matou a mãe, de 72 anos, e cometeu suicídio. Numa carta de confissão e em vídeos, o atirador expõe pensamentos racistas, defendendo ideologias de extrema direita.

"Não há apenas um perpetrador. Não é apenas aquele que atirou. Aqueles que prepararam mentalmente a ação também são responsáveis", afirmou Tilly, referindo-se às pessoas que proferem discursos racistas, xenófobos e de extrema direita.

EK/dpa/ots/dw

____________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube 
App | Instagram | Newsletter

O Carnaval alemão
O dia delas

Na Alemanha, no primeiro dia dos festejos de Carnaval quem manda são elas. É a chamada "quinta-feira das mulheres" (Weiberfastnacht). Nesse dia, elas recebem a chave da prefeitura e saem pelas ruas fazendo festa. A tradição remonta à primeira metade do século 19, quando um grupo de mulheres da cidade de Beuel (hoje um bairro de Bonn) resolveu se divertir da mesma forma como faziam seus maridos.

O Carnaval alemão
A abertura oficial

Apesar da maior expressão do Carnaval acontecer a partir de quinta-feira, a abertura oficial da festa é realizada muito antes, no ano anterior: em 11 de novembro, às 11h11. Nas cidades próximas ao Reno, o período de festas é regado a cervejas, especialmente a cerveja regional, Kölsch, músicas típicas, fantasias e doces desde o primeiro dia.

O Carnaval alemão
Beijos por todo lado

Durantes as festas carnavalescas na Alemanha, os beijinhos (Bützchen) estão em toda parte, especialmente nas quinta-feiras. Além dos casais, as mulheres distribuem beijinhos nas bochechas ou na boca de desconhecidos. O ato é considerado uma expressão de alegria e não deve ser confundido com desejo.

O Carnaval alemão
O maior Carnaval de rua

Colônia, cidade que sedia o maior Carnaval de rua da Alemanha, espera receber cerca de um milhão de pessoas para a Rosenmontag, a "segunda-feira das rosas", além de movimentar milhões de euros. O primeiro desfile de Carnaval da cidade aconteceu já no início do século 19, em 1823.

O Carnaval alemão
Cor e irreverência

Cor e criatividade nas fantasias e nos adereços também são marcas dos festejos alemães durante todo o período, mesmo no inverno. Temperaturas baixas não espantam os foliões da festa ao ar livre, e grupos de amigos de todas as idades se divertem ao combinar fantasias para celebrarem juntos.

O Carnaval alemão
Dialeto próprio

Apesar das similaridades, os carnavais de cada cidade da região têm suas peculiaridades - e não pega nada bem confundir os termos. "Jecken" é o nome dado a foliões de Colônia. Também na cidade, a saudação de Carnaval é "Kölle Alaaf", enquanto em Düsseldorf o correto é "Helau". Desde "aleluia" até "abriu-se o inferno", há várias explicações para o significado desse grito.

O Carnaval alemão
A doçura do Carnaval

Durante os desfiles, a diversão não está apenas em observar os carros alegóricos. Quando os foliões gritam “Kamelle” (caramelo), balas e todo tipo de guloseimas são arremessadas dos carros alegóricos para dar energia aos foliões. Não somente as crianças, mas também os marmanjos disputam um brinde em meio à "chuva de doces".

O Carnaval alemão
Muito além dos adereços

Além das fantasias, outra parte essencial do Carnaval alemão é a música. Além de acompanhar os grupos de músicos nas ruas, os foliões devem, conforme manda a tradição, conhecer as letras pelo menos das "clássicas" para poder cantar e dançar juntos. Uma das formas de festejar nas ruas é dançar de braços dados, de um lado para o outro.

O Carnaval alemão
Alfinetadas políticas

Outra tradição do Carnaval alemão são as sátiras políticas que ganham forma nos carros alegóricos que desfilam na segunda-feira. Com bom humor e criatividade, os carnavalescos não poupam críticas a líderes de diferentes países e outras figuras públicas.

1
| 9