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Brasil e China ampliam cooperação e criam fundo comercial bilionário

Roselaine Wandscheer26 de junho de 2012

A China é o principal parceiro comercial do Brasil, responsável por 17% do comércio nacional. Parcerias firmadas entre os dois países prometem alavancar ainda mais as relações bilaterais.

Foto: Reuters

Em reunião durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), na semana passada, Brasil e China fecharam acordo que permite o swap (ou troca) de moedas entre os dois países, caso haja necessidade. O protocolo prevê que os dois países possam acessar o fundo – com limite de US$ 30 bilhões – conforme critérios técnicos a serem definidos pelos bancos centrais dos dois países.

Acordos semelhantes também serão firmados entre os outros países que formam os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). "É uma medida que reforça a situação financeira de ambos os países. É como se nós tivéssemos uma reserva adicional de recursos no momento em que a economia internacional está estressada", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, após o anúncio da parceria.

Na coletiva de imprensa, Mantega disse ainda que as economias emergentes serão responsáveis por manter o dinamismo da economia mundial, em tempos de crises enfrentadas por economias mais avançadas. "São as economias dos BRICs que têm que compartilhar o seu dinamismo. O Brasil e a China manterão o crescimento e vamos continuar oferecendo oportunidades recíprocas", comentou.

Em entrevista à DW Brasil, o professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autor do livro Brasil e China: Cooperação Sul-Sul e parceria estratégica, Henrique Altemani de Oliveira, avaliou que "os emergentes estão numa situação econômico-financeira mais estável e melhor que os países desenvolvidos". Apesar disso, segundo ele, "ainda não são economias que teriam a capacidade de resolver o problema do mundo. Têm capacidade de absorver produção dos desenvolvidos, e de dar continuidade a um funcionamento estável da economia".

Em tempos de crise, BRICs aquecem economia mundial

Cooperação para os próximos 10 anos

A criação do fundo está no rol de acordos firmados durante o encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao. Os dois líderes assinaram o chamado Plano Decenal de Cooperação (2012-2021), que, segundo o comunicado conjunto divulgado pelos dois países após o encontro, "orientará ações de cooperação, nos próximos dez anos, nas áreas de ciência, tecnologia, inovação e cooperação espacial; energia, mineração, infraestrutura e transportes; investimentos, parcerias industriais e cooperação financeira; cooperação econômico-comercial; cooperação cultural, educacional e intercâmbio entre sociedades civis".

O professor Henrique Altemani lembrou, também, que a parceria dos dois países teve papel fundamental no desempenho brasileiro nos últimos anos. "A recuperação rápida do Brasil em 2008 deveu-se muito ao relacionamento com a China. Se a China não tivesse complementando o que estamos perdendo com os EUA e a União Europeia, nossa situação estaria muito pior", disse.

Durante o encontro entre os dois líderes também foi anunciada a instalação do Centro Conjunto Brasil-China de Satélites Meteorológicos e do Centro Brasil-China de Biotecnologia, que abrigarão pesquisas em áreas como informação meteorológica, alerta sobre desastres naturais, biomedicina, bioinformática e biomateriais. Além disso, os líderes anunciaram o breve início das operações da joint venture Harbin Embraer Aircraft Industry (HEAI) na produção de jatos executivos na China.

Assimetria nos investimentos

Apesar das novidades, há uma forte assimetria de investimentos entre os dois países. Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o estoque de investimentos brasileiros na China está abaixo de US$ 1 bilhão, enquanto os investimentos chineses no Brasil são crescentes e estimados em mais de US$ 12,6 bilhões no ano de 2010.

O Conselho lançou, na última semana, um estudo sobre a atuação de empresas brasileiras na China. O documento resultou de dados coletados junto a empresas associadas, embaixadas, fóruns de empresas e profissionais brasileiros, além da experiência de empresas de diversos setores, como prestadoras de serviço, produtoras de manufaturas e transformadoras de recursos naturais. Atualmente, as empresas brasileiras têm participação em 26 diferentes seguimentos do mercado chinês, principalmente trading (15,8%), mineração (8,8%) e automotivo (7%).

Em 2011, os líderes dos BRICs se encontraram na ChinaFoto: AP

Como principal resultado, a pesquisa apresenta um dado de estagnação de investimentos brasileiros na China, nos últimos 10 anos. Segundo dados do Ministério do Comércio da China (MOFCOM), no período de 2000 a 2010, empresas brasileiras investiram US$ 572,5 milhões, o que representa 0,04% do estoque de investimentos estrangeiros no país asiático. Enquanto isso, o estoque dos investimentos chineses no Brasil gira em torno dos US$ 20 bilhões, com rápido crescimento nos últimos anos, segundo dados do CEBC.

O numero de empresas brasileiras cresceu expressivamente, diz o CEBC. A maior concentração é no setor de serviços. As empresas chinesas têm estado mais concentradas no setor de produtos para o mercado interno, principalmente automóveis.

Busca de isonomia

O estudo do CEBC investigou os principais obstáculos enfrentados por empresas ao ingressarem na China. Entre os principais estão: distância física e cultural entre o Brasil e o país asiático; falta de informação e conhecimento acumulados sobre como ingressar na China e lidar com as diversas instâncias do governo local; desalinhamento entre os objetivos estratégicos das empresas brasileiras e de seus parceiros chineses; e o não reconhecimento de práticas adotadas internacionalmente pelo sistema judiciário – principalmente em relação à propriedade intelectual.

As empresas que participaram da pesquisa opinaram sobre o que consideram ser estratégias importantes para o aumento dos investimentos na China. Entre as respostas estão a necessidade de o governo brasileiro considerar a China como prioridade, a busca por isonomia nas regras e práticas que enquadram o investimento – uma vez que os entrevistados entendem que as empresas chinesas têm maior liberdade para investir no Brasil que o contrário – e a construção de um diálogo eficaz para aumentar o alinhamento entre setores público e privado.

Autora: Ericka de Sá
Revisão: Carlos Albuquerque

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