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Campanha contra racismo ecoa em estádios alemães

25 de fevereiro de 2020

Após insultos contra jogadores, incluindo imitações de macacos, torcedores alemães se posicionam contra o racismo no esporte com cartazes e gritos de "Fora nazistas". Que futebolistas sigam o exemplo.

"Racismo mata. Todos e tudo contra o racismo", diz cartaz exibido por torcedores do Freiburg
"Racismo mata. Todos e tudo contra o racismo", diz cartaz exibido por torcedores do Freiburg Foto: picture-alliance/dpa/P. Seeger

No bucólico Estádio Floresta Negra, pouco antes do jogo contra o Fortuna Düsseldorf no último sábado (22/02), torcedores do Freiburg estenderam um gigantesco banner contra racismo e gritaram a plenos pulmões "Nazis raus" (Fora nazistas). Os dizeres da faixa não deixaram dúvidas sobre o teor da manifestação. Ali estava escrito com todas as letras: "Racismo mata. Todos e tudo contra o racismo."

Dois dias antes, por ocasião da partida entre Frankfurt e Salzburg pela Liga Europa, ao final do minuto de silêncio em homenagem às vítimas do atentado de Hanau, milhares de torcedores levantaram a voz e também clamaram por "Nazis raus". Esse grito se fez ouvir não apenas nos estádios, mas também em muitas cidades onde dezenas de milhares de cidadãos foram às ruas para se manifestar contra racismo e xenofobia.

O presidente da federação judaica de ginástica e esportes Makkabi, Alon Meyer, declarou em carta de agradecimento publicada parcial ou integralmente pela mídia, que as manifestações dos torcedores alemães nos estádios representam "um divisor de águas na luta contra o extremismo de direita".  

"Foi um momento grandioso e imponente, que chama à responsabilidade todo o mundo esportivo alemão. É nosso dever como sociedade civil assumir com determinação a luta contra o discurso de ódio. Os torcedores do Frankfurt demonstraram isso de forma notável", disse Meyer.

Em meados de fevereiro, num jogo da terceira divisão entre Preussen Münster e Würzburger Kickers, um homem de 29 anos resolveu insultar o jogador Leroy Kwadwow com palavras e gestos. Fez a imitação de um macaco enquanto exclamava: "Volte para o seu buraco." Torcedores que presenciaram o ato racista pediram a intervenção das forças de segurança e ecoaram pelo pequeno estádio as palavras de ordem "Nazis raus". O homem foi levado preso para fora do estádio e será processado por crime racial. Também está proibido de frequentar qualquer arena esportiva pelos próximos três anos.

Fritz Keller, presidente da Federação Alemã de Futebol, anunciou que a entidade lutará contra o racismo com todos os meios à disposição e justificou: "Vivenciamos novamente uma época na qual alguns segmentos da sociedade procuram um inimigo para que possam se livrar do ódio que carregam dentro de si. Para esses eu digo que no futebol, nos estádios e no esporte em geral não há lugar para ódio, xenofobia e racismo. Vamos cerrar fileiras contra toda e qualquer forma de descriminação – seja no estádio, na rua ou nas redes sociais."

Há quase um mês, numa partida válida pela Copa da Alemanha entre Schalke 04 e Hertha Berlin, Jordan Torunarigha da equipe berlinense, teve que ouvir insultos e urros racistas durante a partida. O juiz se fez de desentendido e deixou passar. Logo a seguir, Jordan sofreu uma falta violentíssima que o deixou estatelado no chão. Ao se levantar já fora de campo, descarregou sua raiva e chutou uma caixa com bebidas. Dessa vez, o árbitro não teve dúvidas. Deu o segundo cartão amarelo ao jogador e o expulsou de campo.  

O incidente ocorreu na Veltins Arena, casa do Schalke 04, cujo presidente, Clemens Tönnies, há poucos meses, durante um evento empresarial, pleiteou a construção de usinas elétricas no continente africano. Ele justificou sua proposta com o seguinte argumento: "Assim, os africanos param de derrubar árvores e de produzir crianças quando fica escuro."

"Fãs do Schalke contra o racismo", diz cartaz exibido em partida contra o PaderbornFoto: picture-alliance/dpa/R. Vennenbernd

Talvez seja exagero estabelecer uma ligação direta entre a fala de Tönnies e o ato racista de um desvairado. Por outro lado, pessoas no exercício de cargos executivos têm a responsabilidade de medir suas palavras, especialmente quando pronunciadas em público. Excessos verbais carregam dentro de si germes à procura de um terreno fértil, quiçá na mente dos que só necessitam de uma justificativa qualquer para extravasar sua índole violenta contra inimigos imaginários.

Leon Goretzka joga no Bayern de Munique há um ano e meio. Ele veio do Schalke 04 e tem 25 anos. Já vestiu a camisa da seleção alemã em 25 oportunidades. Em entrevista à revista alemã Der Spiegel conclamou seus colegas a um maior engajamento na luta contra o racismo.

"Infelizmente os temas do antissemitismo e racismo se tornaram muito atuais. Diante disso, tomei a decisão de me posicionar claramente a respeito. Já estava na hora mesmo", disse Goretzka.

"Na partida amistosa que jogamos contra a Sérvia no ano passado, dois dos meus colegas de seleção sofreram pesados insultos racistas. Até então eu achava que no nosso país racismo fosse coisa do passado. Recentemente visitei o campo de concentração de Dachau e decidi então fazer a minha parte para que o horror não se repita", concluiu.

É um caso alentador de um profissional do futebol se posicionando claramente sobre questões políticas. Que seus colegas se encham de coragem e sigam o exemplo.

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no TwitterFacebook e no site Bundesliga.com.br

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