Pelo menos onze pessoas morreram e uma ficou ferida numa chacina na tarde deste domingo (19/05) em um bar de Belém, capital do Pará. A informação foi confirmada pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (Segup). As vítimas são seis mulheres (entre elas, a dona do bar) e cinco homens. A polícia afirma que tem várias linhas de investigação, incluindo o tráfico de drogas. Até o começo da manhã desta segunda-feira, ninguém havia sido preso.
Um vídeo gravado pouco depois dos disparos mostra várias vítimas baleadas e caídas no chão do estabelecimento e uma deitada em cima do balcão do bar. De acordo com o secretário de segurança pública do Pará, Ualame Machado, a maioria foi baleada na cabeça. Ele também acrescentou que havia mais pessoas no bar, mas elas conseguiram fugir pelos fundos.
O portal de notícias G1 informou que uma festa ocorria no local quando sete homens encapuzados chegaram em uma moto e três carros e dispararam contra as vítimas.
O Pará é o oitavo estado mais violento do país, com uma taxa de 53,4 homicídios a cada 100 mil habitantes, acima da taxa nacional, de 30,8, segundo dados de 2017 da ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Belém é a terceira capital mais violenta do Brasil, com 67,5 homicídios a cada 100 mil habitantes, atrás apenas de Rio Branco (Acre, 83,7) e Fortaleza (Ceará, 77,3).
Nos últimos anos, o estado do Pará registrou várias chacinas. A maior onda de assassinatos foi em janeiro de 2017, quando 28 pessoas foram assassinadas num intervalo de 24 horas após a morte de um policial.
No final de março deste ano, o governo federal enviou mais de 200 homens da Guarda Nacional a Belém para reforçar a segurança na cidade por 90 dias.
A escalada da violência parece estar atingindo cidades em todo o Brasil. O grupo Fogo Cruzado, que monitora tiroteios no Rio de Janeiro e região metropolitana, disse que houve 2.300 casos apenas nos primeiros 100 dias deste ano. No sábado (18/05), cinco pessoas, entre elas uma criança de 12 anos e um adolescente de 15, foram mortas a tiros, em São Paulo, por quatro homens que ainda não foram identificados. No mesmo dia, na cidade de Lauro de Freitas (região metropolitana de Salvador), seis pessoas, incluindo dois adolescentes, foram mortos com disparos de armas de fogo.
O crime em Belém teve ampla repercussão na imprensa internacional. O diário britânico The Guardian, por exemplo, explicou que "muita da violência no Brasil tem relação com gangues. Em janeiro, grupos realizaram ataques em Fortaleza, paralisando o comércio e o transporte público da cidade". O jornal também mencionou a intenção do presidente Jair Bolsonaro de "afrouxar as rígidas leis armamentistas brasileiras" e os decretos assinados pelo presidente para facilitar a posse e o porte de armas.
LE/afp/ap/dpa/lusa/ots
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Em ato na Avenida Paulista, mulheres de todas as idades lembram coragem da vereadora assassinada e protestam por causas que ela defendia, dos direitos das mulheres à inclusão social.
Foto: DW/N. Pontes"Marielle virou símbolo para todas nós", diz Priscila, que participou de ato na Avenida Paulista para marcar um ano do assassinato da vereadora. Formada em Serviço Social, Priscila descobriu que poderia ir além do ensino médio ao frequentar um cursinho popular para estudantes negros. "Como Marielle, eu também saí da periferia e consegui estudar. Ela mostrou que todas nós poderíamos ir mais longe."
Foto: DW/N. PontesAmigas há pouco tempo, Herta (esq.) e Malu têm um passado comum: ambas foram perseguidas durante a Ditadura Militar. Membro do movimento estudantil, Herta foi presa em 1968, e estava grávida à época. Malu buscou refúgio na França e no Chile, entre outros países. "Marielle teve coragem para denunciar, mesmo sabendo do risco que estava correndo", aponta Malu a semelhança com a própria experiência.
Foto: DW/N. Pontes"A gente também batalha para levar oportunidade para quem não tem. Era o que a Marielle fazia", diz Maria Isabele, 18 anos, sobre o motivo que a levou ao protesto na Avenida Paulista. Na periferia da Zona Leste, a família de Maria Isabel oferece aulas de dança e grafismo para crianças e jovens carentes. Maria dá aulas de hip hop.
Foto: DW/N. Pontes"Eu vim pedir justiça, que nunca chega para nós. A morte da Marielle é como a morte de muitas de nós, mulheres negras, pobres e da periferia", diz Sheila. Faz mais de dez anos que a família espera por respostas depois da morte de um primo dela, atingido por uma bala perdida em São Miguel Paulista. O garoto tinha 9 anos. "O caso nunca foi desvendado", contou.
Foto: DW/N. PontesNa companhia dos netos, Alice protestou contra todos os crimes bárbaros que matam mulheres no país. "Nunca estive sozinha nessa luta", diz ela, que já acompanhou diversas mulheres da vizinhança onde mora para prestar queixa na delegacia depois de sofrerem violência doméstica. Ela também já precisou de apoio. "Se eu não tivesse lutado, nem viva estaria hoje", resumiu.
Foto: DW/N. PontesCom o filho de dois anos no colo, Luciana saiu de Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo, para participar do protesto. "Sou mãe e pai dos meus filhos. Como Marielle defendia, eu também quero que eles vivam num país sem discriminação, que tenham moradia digna, educação e transporte público de qualidade, atendimento de saúde. Quero que eles vivam num Brasil socialmente justo", afirmou.
Foto: DW/N. Pontes"Eu estou aqui movida pela indignação", afirma Carina (à direita, com cartaz). "Não adiantou matar Marielle. Nós agora estamos juntas e somos uma voz que não se cala." Júlia diz não querer mais ficar em casa chorando as mortes que vê na televisão: "Marielle, Mariana, Brumadinho, Suzano. Não quero mais velar corpos. Quero uma cultura de paz. Precisamos nos unir."
Foto: DW/N. PontesEstudante de sociologia, Ruth encontrou na pesquisa acadêmica de Marielle uma voz parecida com a de sua mãe adotiva. "Minha mãe sempre falou sobre as dificuldades das mulheres negras e pobres", resumiu. Ao ser adotada, aos quatro anos, Ruth diz ter saído da pobreza para a classe média. A mãe biológica, dependente química e moradora de rua, morreu vítima do tráfico de drogas.
Foto: DW/N. Pontes