Há 80 anos, tempos prósperos pareciam estar por vir na então capital do Terceiro Reich. Alguns fatos, porém, já indicavam que o futuro não seria tão brilhante quanto o regime nazista pintava, mostra exposição em Berlim.
Letreiro de centro de exposições berlinense em 1937, exposto no Märkisches Museum
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Em 1937, Berlim prosperava cultural e economicamente. Tudo parecia ia ir muito bem na capital do Terceiro Reich. No entanto, já apareciam os primeiros sinais de que uma guerra se aproximava e dos horrores que seriam cometidos.
A cidade, que foi o centro do aparato militar e político do regime nazista, havia superado completamente a crise de 1929. Sobravam vagas de empregos, abrindo espaço para as mulheres preenchê-las. O regime estimulava o consumo, embora grande parte da população não tivesse acesso a muitos produtos.
Berlim transpirava cultura, com diversos teatros e seus 407 cinemas, onde mais de 64 milhões de ingressos para filmes, alemães e americanos, foram vendidos naquele ano – um recorde de público.
Mas nem tudo era tranquilo como parecia. Um ar pesado, ignorado por muitos berlinenses, pairava sob a cidade. A censura reinava e era imposta por centenas de seguidores do regime que circulavam uniformizados por todos os cantos. Não somente a imprensa foi silenciada, mas também opositores.
O horror do Holocausto dava seus primeiros sinais. O antissemitismo ganhava força na cidade. A inscrição "proibido judeus" foi pintada em bancos de parques no bairro Prenzlauer Berg. Em vez de chocar, a discriminação não foi nem um pouco criticada e chegou a ser um exemplo para outros bairros. Judeus foram ainda proibidos de possuírem estabelecimentos comerciais.
Cartaz de 1935 do semanário antissemita "Der Stürmer" exposto no Märkisches Museum: "Quem compra de judeus rouba da riqueza nacional"
Naquele ano, alguns indícios também mostravam que uma guerra estava por vir. Em 20 de setembro, sirenes alertavam a população para a aproximação de aviões. Os berlinenses largavam tudo o que faziam para correr para abrigos antiaéreos. Bombas foram lançadas, e esquadrões de limpeza entraram em ação. Todo esse espetáculo fazia parte do maior exercício de proteção aérea realizado na cidade. O evento foi documentado em vídeo. Além de testes de guerra, a indústria bélica funcionava a todo vapor.
Aquele 1937 também foi o ano de mudança na política de construção do regime. Ao arquiteto Albert Speer coube a missão de reformar Berlim, para transformar a cidade numa capital à "altura da grandeza" do Terceiro Reich. Era o início da tentativa de tirar do papel a Germânia, a megalomaníaca ideia de Adolf Hitler de uma capital do mundo.
Vídeos – inclusive o do exercício de proteção aérea –, fotografias e objetos desta época foram reunidos na exposição Berlim 1937 – Na sombra do amanhã, no Märkisches Museum. A exposição mostra como o cotidiano da capital alemã num ano que parecia calmo, mas que já dava sinais do que estava por vir.
Além de refletir sobre esse passado, o museu pretende ainda sensibilizar os visitantes para compreender sinais do presente e evitar que os horrores cometidos pelo regime nazista sejam esquecidos e repetidos.
Quem quiser saber mais sobre a Berlim de 1937 tem até 14 de janeiro de 2018 para visitar a exposição no Märkisches Museum, que fica na rua Am Köllnischen Park 5. A visita vale a pena: a quantidade de fotografias e vídeos da época reunidas no local impressiona e mostra como Berlim era antes de ser destruída na Segunda Guerra.
Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.
Oito séculos da história berlinense podem ser vistos no mundo em miniatura na torre de televisão da praça Alexanderplatz em Berlim.
Foto: picture-alliance/dpa/B. von Jutrczenka
A quadriga de perto
Cenários na proporção de 1:24 reproduzem fatos históricos e anedotas em torno da capital alemã, desde a Idade Média até os dias atuais. Uma das atrações da cidade em miniatura Little Big City, que fica junto à torre de televisão na praça Alexanderplatz, é a quadriga do Portão de Brandemburgo.
Foto: picture-alliance/dpa/J. Kalaene
Marlene, Albert e o "velho Fritz"
O mundo em miniatura se ocupa não só de grandes momentos da história de Berlim, mas também de suas personalidades famosas. Exemplos são o rei da Prússia Frederico, o Grande, a atriz e cantora Marlene Dietrich, que nasceu e foi enterrada na cidade, e o Nobel de Física Albert Einstein, que viveu por 18 anos em Berlim, até a ascensão dos nazistas ao poder.
Foto: picture-alliance/dpa/B. von Jutrczenka
Anos dourados
Os dourados anos 1920 foram uma época deslumbrante em Berlim. Se de um lado, havia depressão e desemprego; de outro, luxo e glamour da classe rica chamavam a atenção. Já naquela época, os repórteres fotográficos tinham bastante trabalho.
Foto: DW/A. Kirchhoff
Incêndio do Reichstag
No minimundo sobre Berlim não poderia faltar o emblemático incêndio do Reichstag, em 1933. O incêndio é considerado um fato crucial para o estabelecimento da Alemanha nazista.
Foto: DW/A. Kirchhoff
Cidade dividida
Há muitas representações do pós-guerra, como o famoso pronunciamento do então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em 1963, diante da prefeitura do bairro Schöneberg. Em plena Guerra Fria e em vista da Berlim dividida, ele disse, em alemão: "Ich bin ein Berliner" (Eu sou um berlinense!).
Foto: picture-alliance/dpa/B. Pedersen
Lanchonete famosa
Também não poderia faltar uma representação da famosa lanchonete Konnopke’s Imbiss, na confluência das ruas Schönhauser Allee e Eberswalder Straße. Ela é considerada a primeira na então ainda Berlim Oriental a servir, em 1960, a famosa salsicha currywurst. A lanchonete ainda existe, no mesmo local.
Foto: picture-alliance/dpa/B. Pedersen
As noites em Kreuzberg
Um bairro lendário no oeste de Berlim é Kreuzberg. Em volta da praça Heinrichplatz reuniam-se boêmios nos anos 1980. Entre os muitos clubes e bares deste bairro, está o SO 36, à esquerda na foto. Na realidade, no entanto, ele não fica ali, e sim virando a esquina, na rua Oranienstraße.
Foto: picture-alliance/dpa/B. Pedersen
Margot e Erich Honecker
Até sua renúncia em 1989, Erich Honecker foi um dos mais poderosos políticos da então Alemanha Oriental. Na foto, o boneco dele e da esposa, Margot. Ao fundo, a réplica do Palácio da República, local onde funcionava a Câmara do Povo. Por causa dos exageros na iluminação, também era chamado "loja dos lustres de Honecker". O prédio foi destruído em 2008.
Foto: picture-alliance/dpa/J. Kalaene
Quase como na vida real
Uma peculiaridade das miniaturas sobre a história de Berlim é que muitos berlinenses emprestaram suas histórias e a própria fisionomia para as réplicas. É o caso de Sunny Müller, que no dia 9 de novembro de 1989 foi com a mãe até o Portão de Brandemburgo, onde alguém as ajudou a subir no Muro.
Foto: picture-alliance/dpa/B. Pedersen
Berlim em uma hora
A exposição Little Big City (pequena cidade grande) foi concebida de forma a que o visitante leve, em média, uma hora para ver tudo. Os prédios e as figuras feitos em uma impressora 3D são complementados por documentações sonoras e vídeos. A mostra é um bom programa para turistas, mas também para os moradores de Berlim.