Onda de cervejas artesanais chegou a Berlim, que já tem por volta de 30 marcas locais. Numa das microcervejarias que mais cresce na capital alemã, a bebida é produzida por uma mestre cervejeira do Brasil.
A brasileira Veronica Menzel é mestre cervejeira da BRLOFoto: DW/C. Neher
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A Alemanha possui ótimas cervejas comerciais, mas nem por isso ignora as tendências mundiais. A onda de cervejas artesanais, cada vez mais populares no Brasil, também chegou a Berlim. Recentemente, várias marcas e microcervejarias surgiram na cidade. E numa das que mais tem crescido nos últimos anos, a bebida tipicamente alemã tem um gostinho brasileiro.
Desde maio de 2016, a brasileira Veronica Menzel é uma das mestre cervejeiras na BRLO, cuja "fábrica-bar", construída em contêineres, fica no parque berlinense Gleisdreieck. Pale Ale, German IPA e Berliner Weisse estão entre os mais de dez tipos de cerveja produzidos pela cervejaria, fundada em 2014.
A cerveja entrou na vida de Veronica bem antes de seu ingresso na BRLO. Ainda no Brasil, a então comissária de bordo de Campinas começou a estudar sozinha sobre o tema e, nas horas vagas, experimentava produzindo a bebida em casa. Em 2010, Veronica se mudou para Berlim e aproveitou para tomar um novo rumo profissional. Na capital alemã, fez um curso de mestre cervejeira no Instituto para Pesquisa e Educação em Cervejaria de Berlin (VLB).
Clarissa Neher vive em Berlim desde 2008Foto: DW/G. Fischer
O curso lhe abriu as portas para sua inserção na cena cervejeira alemã. Depois de fazer um estágio no laboratório do VLB, ela foi contratada pelo instituto, que além de oferecer cursos e formar mestres cervejeiros, faz análises e presta assessoria técnica na área. Na cervejaria piloto do local, Veronica conheceu os donos da BRLO.
No país da cerveja, ela me contou que o fato de ser brasileira foi um diferencial em seu currículo. No meu encontro com a mestre cervejeira, também conversamos sobre as diferenças entre o mercado para cervejas artesanais na Alemanha e no Brasil.
Enquanto do outro lado do oceano há uma cena já estabelecida e um amplo público, por aqui, esse fenômeno ainda é recente, e Berlim está no centro dessa pequena revolução. De acordo com Veronica, a cena da cerveja artesanal começou a ganhar força na Alemanha há cerca de cinco anos.
Neste pouco tempo, Berlim já ganhou aproximadamente 30 marcas locais. Apesar de a Alemanha ser a terra da cerveja, o ingresso nesse mercado é mais difícil do que no Brasil, segundo a avaliação da mestre cervejeira.
"Os alemães estão acostumados com cervejas comerciais, que são boas e baratas. Além disso, praticamente cada cidade tem uma cervejaria, por isso, é mais difícil que eles experimentem cervejas novas, estando contentes com a local", explicou.
Veronica, porém, acredita que, apesar desta dificuldade e do preço – um pouco mais alto que o das cervejas comerciais –, o mercado alemão tem espaço para as artesanais. "As cervejas artesanais têm mais caráter e sabor", acrescentou a especialista.
E, mesmo respeitando a Lei da Pureza da Cerveja (Reinheitsgebot) – a regra alemã máxima para a produção da bebida, que vigoradesde 1516 e determina o uso de somente quatro ingredientes – o espaço para a experimentação é enorme. "Somente com malte, lúpulo, levedura e água é possível criar mais de 5 mil cervejas diferentes", destacou Veronica.
O mundo das cervejas artesanais também abre espaço para dar uma burlada nessa lei, ou seja, possibilita a introdução de outros ingredientes na receita tradicional. Veronica, por exemplo, criou para o cardápio da BRLO a Brazilian Blowout – uma cerveja com pimenta-malagueta, trazida diretamente de sua terra natal.
Clarissa Neheré jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.
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Como é feita a legítima cerveja alemã
Em 1516, o ducado da Baviera estabeleceu a chamada lei da pureza, que determinou que a cerveja só pode conter três ingredientes: malte de cevada, lúpulo e água. Veja como funciona a fabricação.
Foto: Bernd Weissbrod/dpa/picture alliance
Malte de cevada
O malte se forma a partir da germinação artificial do grão. Para germinar, a cevada é imersa em água por quatro a sete dias. Ao germinar, são liberadas enzimas que ajudarão a formar a maltose (açúcar de malte) no processo de maceração. Depois disso o malte é submetido à secagem. Para a cerveja de trigo, é produzido ainda o malte de trigo.
Foto: picture-alliance/dpa
Lúpulo
O lúpulo é da família das canabáceas, à qual também pertence a canabis. Ele foi adicionado à cerveja devido ao seu efeito bactericida. Assim ela se conserva por mais tempo. O lúpulo é responsável pelo amargor da cerveja. O mestre cervejeiro pode controlar o sabor por meio do tipo de lúpulo que usa e o momento em que acrescenta este ingrediente ao produto.
Foto: picture-alliance/dpa/J. Woitas
Água
A qualidade da água não pode ser subestimada quando se faz cerveja. Ela é muito importante para a fermentação. Na foto, o mestre cervejeiro usa um aparelho de osmose inversa. Ao colocar água "dura" de um lado, sai tanto água "macia" quanto "superdura" do outro. Somente a água macia é apropriada para a fabricação de cerveja.
Foto: DW/F. Schmidt
Temperatura e tempo
São necessárias cerca de cinco horas até que o mosto de malte, lúpulo e água esteja pronto. Hoje em dia, todos os processos na cervejaria são controlados por computador.
Foto: DW/F. Schmidt
Microorganismos
O capital biológico mais importante de qualquer cervejaria são os microorganismos da levedura. Eles têm de ser bem cuidados e mantidos limpos e saudáveis. O levedo de cerveja é um fermento que resulta do processo de fermentação da cevada durante a produção de cerveja. Esta levedura é regularmente controlada em laboratório.
Foto: picture-alliance/dpa/U. Bernhart
Três semanas
Estes tanques de fermentação têm mais de cinco metros de altura. Aqui a levedura transforma a maltose em dióxido de carbono e álcool etílico. Após esse processo, que dura quatro dias, a cerveja é resfriada por dois dias e descansa por mais duas semanas.
Foto: DW/F. Schmidt
Quase pronta
Assim é a cerveja logo após a fermentação. Nesta fase ela já tem seu sabor característico. Algumas marcas alemãs até vendem esta cerveja turva, chamada "naturtrüb".
Foto: DW/F. Schmidt
Filtragem
Primeiro acontece uma filtragem grosseira: este filtro contém minúsculos esqueletos fossilizados de algas pré-históricas, chamadas diatomáceas. Pequenas partículas são isoladas ali. Na filtragem fina, é retirado o resto de levedura na cerveja.
Foto: DW/F. Schmidt
Vários tipos
Entre os muitos tipos de cerveja alemã está a kölsch, típica de Colônia. Ela tem de ser clara. Isso está prescrito na definição de origem geográfica.
Foto: DW/F. Schmidt
Espuma é fundamental
Antes de ser engarrafada, a cerveja recebe dióxido de carbono, que havia sido previamente removido dos tanques de fermentação e liquefeito. Cervejas vendidas em garrafas recebem mais gás carbônico ( 5,2 gramas por litro) do que as em barril ( 4,6 gramas por litro) para que estas não espumem tanto na hora de servir.
Foto: DW/F. Schmidt
E a cerveja sem álcool?
A cerveja sem álcool é aquecida a 42 ºC num vácuo de um sexto da pressão ambiente. Esta temperatura não prejudica a cerveja, e a redução da pressão reduz também o ponto de ebulição do álcool, que evapora. É um fenômeno semelhante ao que acontece quando se cozinha água em grandes altitudes. Na cordilheira do Himalaia, por exemplo, a água já ferve bem abaixo dos 100 ºC.
Foto: DW/F. Schmidt
Vale a pena guardar?
As adegas das cervejarias geralmente guardam exemplares de cada produção. Isso serve para o controle de qualidade. A qualquer momento uma garrafa pode ser controlada em laboratório. A cerveja para beber deve ser armazenada em local frio e escuro e deve ser consumida em seis meses.