Casa de ópera mais antiga da capital reabriu parcialmente suas portas após restauração, marcada por adiamentos e explosão de custos. Obra é mais um daqueles casos que a eficiente engenharia alemã gostaria de esquecer.
Teatro está quase pronto para abrir definitivamente suas portasFoto: Imago/Schöning
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Depois de sete anos de obras e de um atraso de quatro anos, foram reabertas as portas do mais antigo teatro de Berlim: a Staatsoper, na famosa avenida Unter den Linden.
A reabertura, porém, no dia da Reunificação Alemã (3 de outubro), foi apenas uma encenação. A obra, inicialmente prevista para durar apenas três anos, ainda não foi totalmente concluída, faltam os últimos detalhes. Somente no início de dezembro espetáculos voltarão aos palcos na casa.
Essa reforma é mais uma daquelas obras que desfazem o mito sobre a eficiência do Made in Germany. Além do atraso, o orçamento inicial praticamente dobrou, devido a erros no planejamento e imprevistos que não entraram nos cálculos do projeto. Uma das surpresas foi o estado de conservação do local, pior do que o estimado.
Inicialmente orçada em 239 milhões de euros, a reforma custou no fim mais de 400 milhões. O projeto incluía não somente a restauração do prédio histórico no centro da capital alemã, mas também a modernização da estrutura de seu palco, que receberia equipamentos de última geração e um túnel que ligaria o palco ao prédio de ensaios. Tudo para colocar a casa entre uma das mais modernas do mundo e melhorar sua acústica.
A jornalista Clarissa Neher vive em Berlim desde 2008Foto: DW/G. Fischer
A reinauguração, seguida de fechamento, parece repetir a história do imponente prédio. Inaugurado em 1742, ele abriu suas portas ainda em obras e no início funcionou no improviso. Sua primeira reforma, para ampliar o palco, ocorreu em 1786. No século 19, um incêndio destruiu o local. Pouco menos de um ano após o desastre de 1843, a ópera estava de pé novamente.
Na Segunda Guerra Mundial, o teatro sofreu danos em bombardeios. Com a divisão de Berlim, o prédio histórico ficou no lado da Alemanha Oriental. A Staatsoper tornou-se então a companhia de ópera oficial da República Democrática da Alemanha (RDA).
Restaurada, a casa abriu novamente suas portas dez anos depois do fim da guerra, em 1955. Em meados da década de 1980, o prédio passou por sua última reforma do período socialista. Já a saga de sua primeira restauração depois da Reunificação teve início em 2010. Na época, ficou claro que o local precisava desesperadamente da obra, afinal, falhas de segurança colocavam em risco funcionários, artistas e público. Os coordenadores do projeto, porém, garantiram que, em três anos, o teatro estaria novo em folha.
A história da obra não é única, e essa sina parece estar se tornando uma tradição na eficiente engenharia alemã. Explosão de custos e atrasos são cada vez mais observados em vários projetos: o mais emblemático atualmente é o novo aeroporto de Berlim, que deveria estar funcionando desde 2012, mas até agora não há nenhuma previsão de quando o local ficará realmente pronto.
Clarissa Neheré jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.
Um estacionamento sem carros, uma rua sem autorização e celas sem sanitários são apenas três investimentos apontados pela União Alemã de Contribuintes como "desperdício de dinheiro público".
Foto: Bund der Steuerzahler NRW/Bärbel Hildebrandt
Acessório fundamental
A nova sala de audiências de alta segurança da prisão de Munique-Stadelheim foi inaugurada em setembro de 2016 como um projeto modelo. Já no primeiro dia, no entanto, um juiz teve de declará-la imprópria porque não havia vasos sanitários suficientes. Apenas seis celas individuais tinham vaso, mas havia dez réus.
Foto: Bund der Steuerzahler
Pouca vista por muito dinheiro
Brakel, um lugarejo no oeste da Alemanha, havia construído um sistema para a transposição de peixes. Para atrair turistas ao espetáculo da migração dos peixes, a cidade resolveu construir uma plataforma. Só que dela se vê o mesmo que das margens do riacho. Neste caso, gastar "apenas" 6 mil euros do dinheiro do contribuinte é demais, acusa a União Alemã de Contribuintes.
Foto: Bund der Steuerzahler NRW/Bärbel Hildebrandt
Ponte cara
Para ligar a nova área residencial Europacity, ao norte da estação ferroviária principal de Berlim, a capital alemã havia se comprometido a construir uma ponte para pedestres sobre o canal de Spandau. A construção da ponte, inicialmente estimada em 1,8 milhão de euros, ficará um milhão de euros mais cara por causa de erros de cálculo.
Foto: Bund der Steuerzahler
Rodovia em área de proteção
Uma rua de 2 km na costa do Mar do Norte foi construída para desviar o trânsito de Bensersiel, na Frísia. Antes do início da obra, ambientalistas advertiram que a rua passaria por uma área de proteção de aves. Mesmo assim, a cidade a construiu. O proprietário da área recorreu contra a obra, que custou 8 milhões de euros. Desde então, a rodovia não pode ser usada e poderá ser removida.
Foto: Bund der Steuerzahler
Cadê os carros?
A pequena Winsen, na Baixa Saxônia, tem um problema incomum: muito espaço para estacionar, mas poucos carros. Este estacionamento foi construído perto da estação ferroviária, para facilitar a vida de quem viesse até ali de carro. O prédio ficou pronto em abril, após nove meses de atraso e 11 milhões de euros gastos. Há vagas para 534 carros e 294 bicicletas. Só que a maior parte não é ocupada.
Foto: Bund der Steuerzahler
Erro de cálculo
A cidade de Hamelin queria um levantamento das árvores fora do perímetro urbano que precisavam ser protegidas. A prefeitura calculou que gastaria cerca de 8.500 euros para quase 550 árvores dignas de proteção. Só que foi esquecido que para fazer o levantamento teria de ser analisado um contingente de nada menos que 16 mil árvores – um erro de cálculo que custou cerca de 130 mil euros.
Foto: Bund der Steuerzahler
Obra milionária sem fim
O túnel por baixo de um canal em Rendsberg foi construído em 1957. Desde 2007, estão sendo feitas obras de manutenção. Devido a uma infinidade de erros de construção e desentendimentos, a obra já dura mais de dez anos e seus custos ultrapassam 70 milhões de euros, sem contar os transtornos causados pelo fechamento da rodovia, desvios e engarrafamentos.
Foto: Bund der Steuerzahler
Vazamento no chão
As obras deste prédio de escritórios para deputados federais no bairro Mitte, em Berlim, estão paralisadas.O motivo: rachaduras no concreto do chão deixam passar umidade.O vazamento exige que o prédio ainda em construção seja saneado. A obra prevista para ser entregue em 2014 tem custos adicionais estimados em 46,6 milhões de euros.
Foto: Bund der Steuerzahler
Arte no campo
Uma árvore de 400 anos vai virar obra de arte em Oberursel, perto de Frankfurt. Em um concurso, foi escolhido o projeto de 77 mil euros, que prevê cercar a velha árvore com uma caixa metálica sem paredes. Quando pronto, o local será usado para leituras. Resta saber se a instalação em um remoto local junto a uma rodovia movimentada atrairá interessados.
Foto: Bund der Steuerzahler
Alternativa cara
Depois de um túnel para pedestres em Dresden ter sido inundado várias vezes por enchentes no rio Elba, a cidade decidiu fechar o túnel com concreto e instalou semáforos sobre ele, para a passagem de pedestres. A União Alemã de Contribuintes afirma que consertar o túnel para que não alagasse mais custaria apenas a metade.