Há um ano, prefeitura vetou aluguel de apartamentos para turistas. Apesar de proibição e multa pesada, locações por sites como Airbnb explodiram. Governo afirma que impacto de lei será visível a médio prazo.
Placa anuncia apartamentos para férias em BerlimFoto: picture-alliance/Wolfram Stein
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A cada ano que passa Berlim atrai milhares de novos habitantes, mas infelizmente o mercado imobiliário não acompanha tal expansão. Quem precisa procurar um apartamento na cidade sabe como a busca é difícil. Moradias cujo valor do aluguel corresponda à realidade salarial entraram na lista de ameaçadas de extinção.
Amigos que moram há mais de quinze anos em Berlim sempre lembram como era fácil encontrar apartamentos enormes e baratos naquela época. Tamanha era a facilidade que a maioria trocava de casa quase todo ano, para experimentar os bairros, ou simplesmente porque achou uma casa melhor do que a anterior.
Essa realidade mudou bastante. Hoje em dia, quem tem um contrato de aluguel antigo permanece onde está, afinal, além de ser uma verdadeira batalha a busca por um apartamento, os aluguéis são exorbitantes.
Clarissa Neher vive em Berlim desde 2008Foto: DW/G. Fischer
Um dos motivos que contribuem para acirrar ainda mais a disputa é o aluguel de apartamentos por períodos curtos, ou seja, destinados ao turismo. Esse "desvio", como chama o governo, é algo muito lucrativo, pois em alguns casos, os donos tiram o valor do aluguel em uma semana de ocupação.
Para tentar trazer esses imóveis para o mercado, o governo proibiu o aluguel temporário de apartamentos para turistas que passavam férias na cidade, por meio da Zweckentfremdungsverbotgesetz – lei de proibição de alienação de finalidade. Os donos desses imóveis tiveram dois anos para pedir à prefeitura uma autorização para continuar a oferecer esse tipo de serviço, a qual na maioria das vezes era recusada.
Há um ano, a proibição entrou em vigor. A medida atingia, entre outros, aluguéis de apartamentos por sites como o Airbnb – a locação de quartos continua permitida. A lei foi duramente criticada pela plataforma e por outros sites, além de imobiliárias que disponibilizavam esse serviço. Os grandes tentam reverter a proibição na Justiça.
A prefeitura criou um departamento para investigar denúncias e rastrear possíveis moradias alugadas por temporadas. Quem desafiar a lei pode ser multado em até 100 mil euros. Mas mesmo com a ameaça, que pesa no bolso, um estudo revelou que o negócio de apartamentos de férias vem crescendo, pelo menos no Airbnb. Os aluguéis pela plataforma aumentaram 68% em relação a 2015, sendo a maioria deles de apartamentos inteiros.
O aumento, porém, não é um sinal do fracasso da nova legislação. Para a prefeitura, a medida terá um grande impacto a médio prazo. No decorrer do primeiro ano da nova lei, foram sendo criados e ampliados os departamentos de controle que devem ganhar força nos próximos anos, além disso, a prefeitura disponibiliza em seu site um espaço para quem quiser denunciar a suspeita de apartamentos deste tipo.
Embora o resultado maior seja esperado a longo prazo, os primeiros efeitos da lei já aparecem. No balanço de 2016, segundo a prefeitura, quase 4,5 mil apartamentos voltaram a ser alugados como moradia.
Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.
Os 225 anos do Portão de Brandemburgo
Símbolo de Berlim foi inaugurado em 6 de agosto de 1791. Como nenhuma outra construção da capital alemã, ele testemunhou os acontecimentos da história da Europa e do país.
Foto: picture-alliance/dpa/Rainer Jensen
Símbolo da unidade
No século 19, Berlim era cercada por um muro aduaneiro que tinha 18 portões. Eles foram todos destruídos, com exceção de um: o Portão de Brandemburgo. Hoje, ele é uma das atrações turísticas mais fotografadas da capital alemã e virou símbolo não só de Berlim, como também da Alemanha.
Foto: picture alliance/chromorange/SPA
"Atenas do Spree"
Esta imagem mostra o antecessor do atual Portão, em 1764. O imperador Frederico Guilherme 2º mandou construir o atual em 1788. O arquiteto Carl Gotthard Langhans desenhou um portal em estilo neoclássico, inspirado na Acrópolis de Atenas. Mas não foi por isso que ele ganhou o apelido "Atenas do Spree". Isso se deve ao fato de no século 18 Berlim ter se tornado um centro cultural na Europa.
Foto: Gemeinfrei
Portão da paz
Em 1793, o portal recebeu a quadriga. Ela foi idealizada por Johann Gottfried Schadow. Só que, na época, o carro de duas rodas puxado por quatro cavalos não era guiado pela deusa Vitória, e sim pela deusa da paz, Eirene. No início, portanto, o Portão de Brandemburgo era o "Portão da Paz".
Foto: picture-alliance/dpa/P. Zinken
Botim de guerra
O pórtico logo se tornaria bastidor de guerras. Em 1806, Napoleão derrotou os prussianos e as tropas francesas marcharam pelo Portão de Brandemburgo. Napoleão ordenou a retirada da quadriga e a carregou como troféu para Paris, onde seria exposta, mas acabou sendo guardada.
Foto: Gemeinfrei
Retorno triunfal
Em 1814, a Prússia derrotou Napoleão e o general Ernst von Pfuel trouxe a quadriga de volta. Agora, também a família dele podia passar pelo pórtico, um privilégio reservado ao imperador. O arquiteto Karl Friedrich Schinkel reformou o portal, que virou uma espécie de "arco do triunfo prussiano". Agora é a deusa Vitória que tem os arreios na mão, junto com a águia prussiana e a cruz de ferro.
Foto: Gemeinfrei
Propaganda nazista
Os nacional-socialistas logo usaram o Portão de Brandemburgo para fins de propaganda. Em janeiro de 1933, festejaram a ascensão de Hitler com uma marcha com tochas. A ideia era transformar Berlim em "Germânia, capital do mundo", se os nazistas ganhassem a 2ª Guerra. E, claro, a megalomania incluía também um novo pórtico. Muita coisa seria destruída para isso, menos o Portão de Brandemburgo.
Foto: Ullstein
O pós-guerra
Após a 2ª Guerra, o Portão de Brandemburgo estava seriamente danificado. Na Berlim dividida, acabou ficando sob o controle dos soviéticos. De 1945 a 1975, uma bandeira soviética tremulou sobre as ruínas da quadriga. Mais tarde, a da República Democrática Alemã. Apenas a cabeça de um cavalo restava inteira. Ela está exposta no Märkischen Museum em Berlim.
Foto: picture alliance/akg-images
A reconstrução
Apesar das diferenças ideológicas, os dois lados da Berlim dividida pelo Muro trabalharam juntos na reconstrução do portal. Por sorte, em 1942 havia sido feito um molde de gesso da quadriga, e assim ela pôde ser reconstruída e inaugurada com muita festa em 1957. Só que, meio ano mais tarde, e sem aviso prévio, a administração de Berlim Oriental mandou retirar a águia prussiana e a cruz de ferro.
Foto: picture-alliance/akg-images/G. Schuetz
Terra de ninguém
Com a construção do Muro de Berlim a partir de 13 de agosto de 1961, Berlim Ocidental perdeu o acesso ao Portão de Brandemburgo. E, pelo lado de Berlim Oriental, apenas os soldados de fronteira chegavam até ele. O Portão de Brandemburgo ficou em meio ao nada e virou o símbolo da divisão da Alemanha.
Foto: picture-alliance/akg-images/Pansegrau
"Gorbachev, derrube esse muro!"
Em 12 de junho de 1987, o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou Berlim e em seu discurso perto do Portão de Brandemburgo fez uma reivindicação que entrou para a história: "Senhor Gorbachev, derrube esse muro!", disse. Através dos alto-falantes, a mensagem foi ouvida também em Berlim Oriental. Ninguém tinha ideia do que aconteceria dois anos depois!
Quando o Muro de Berlim caiu, em 9 de novembro de 1989, milhares de pessoas festejaram junto ao Portão de Brandemburgo. O símbolo da divisão virou símbolo da unidade. Na festa de réveillon, no mês seguinte, a quadriga seria danificada e algumas partes, roubadas. No conserto, foram recolocadas também a águia prussiana e a cruz de ferro. Finalmente, a quadriga voltaria a estar completa.
Foto: picture-alliance/dpa
Local de festas
Turistas de todo mundo visitam o Portão de Brandemburgo. Ele virou ponto obrigatório para selfies, além de já ser local da festa de virada de ano, concertos e manifestações. Na Copa de 2006, na Alemanha, ele foi parte da "fanmeile", a festa da torcida. Milhares de pessoas assistiram ali aos jogos em telões.
Foto: Imago/Leber
Arte e solidariedade com luz
Todos os anos, durante o Festival das Luzes, no outono europeu, o Portão de Brandemburgo vira espaço de projeção para esculturas de luz. Em 2016, o festival será de 7 a 16 de outubro. O pórtico também é usado como mensagem de solidariedade, como na foto, de junho. As cores do arco-íris foram projetadas para manifestar solidariedade após o atentado homofóbico a um clube noturno em Orlando, nos EUA.
Foto: picture-alliance/dpa/J. Carstensen
Esperança de paz
A palavra "Frieden" (paz) foi projetada em 2014, quando a queda do Muro completou 25 anos. E a paz não é algo que acontece obviamente. Há 225 anos, o Portão de Brandemburgo é um monumento às transformações na Europa. Ele passou por períodos de guerras e de paz. Poucos outros monumentos na Alemanha reúnem tanta esperança de um futuro pacífico.