Cientistas descobrem "mapa 3D" mais antigo do mundo
14 de março de 2025
Gravuras em solo arenoso em caverna na França datam de aproximadamente 13 mil anos atrás. Rios e vales em miniatura revelam uma paisagem que desafia a percepção das habilidades cognitivas pré-históricas.
Artesãos paleolíticos esculpiram o piso com precisão surpreendente, criando canais que ganhavam vida quando cheios d'águaFoto: Dr. Médard Thiry
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Nas profundezas de uma caverna de arenito ao sul de Paris, cientistas descobriram o que pode ser o mapa tridimensional mais antigo do mundo. De acordo com os geocientistas Médard Thiry, do Centro Francês de Geociências, e Anthony Milnes, da Universidade de Adelaide, a descoberta é datada de aproximadamente 13 mil anos atrás e representa um avanço significativo para a compreensão das habilidades cognitivas de nossos ancestrais do período Paleolítico Superior (30.000 a 8.000 a.C.).
O achado fica na caverna Ségognole 3, parte de um famoso complexo de estruturas de arenito que inclui mais de 2 mil gravuras da Idade da Pedra. O que o torna único é a forma como os antigos caçadores-coletores manipularam com maestria o piso para criar uma representação do vale que fica ao redor.
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Miniatura funcional da paisagem
Diferentemente de outros mapas antigos conhecidos, este não é simplesmente um desenho bidimensional. Os povos pré-históricos que habitavam essa caverna esculpiram e alisaram o piso de pedra, criando canais, bacias e depressões que ganham vida quando enchidos por água da chuva, representando rios, deltas, lagoas e colinas da paisagem externa.
"O que temos aqui não é um mapa como o entendemos hoje – com distâncias, direções e tempos de viagem – mas sim uma miniatura tridimensional que representa o funcionamento de uma paisagem", explica Milnes, por meio de um comunicado.
Segundo o pesquisador, para nossos ancestrais, a direção dos fluxos de água e o reconhecimento das características do terreno eram provavelmente mais importantes do que os conceitos modernos de distância e tempo. Esse mapa poderia ter sido usado para caça, educação, contar histórias ou rituais relacionados à água.
A história dessa descoberta começou em 2017, quando Thiry visitou a caverna pela primeira vez. Já naquela época, o local era conhecido por suas gravuras artísticas: dois cavalos ao estilo do período Paleolítico, ladeando uma representação púbica feminina. No entanto, foi ao seguir o curso da água que fluía por essas gravuras que os pesquisadores notaram algo extraordinário.
Pesquisadores analisaram como sulcos esculpidos na caverna reproduziam fielmente o rio École e seus afluentes na paisagem externaFoto: Dr. Médard Thiry
Engenharia hidráulica na Idade da Pedra
O piso da caverna foi manipulado com uma precisão impressionante. Os antigos artesãos criaram uma série de depressões e canais que, de acordo com os pesquisadores, reproduzem elementos da paisagem externa: o terraço superior representa o planalto do vale, enquanto os sulcos representam o rio École e seus afluentes. Até mesmo as áreas planas de arenito correspondem à posição dos contrafortes locais.
A descoberta vai além de uma mera representação geográfica: "Provavelmente tem um significado muito mais profundo, mítico e relacionado à água", sugere Thiry.
A presença de uma representação feminina por meio da qual a água também flui sugere uma compreensão complexa da relação entre a natureza e a vida.
Para colocar em perspectiva a importância da descoberta: antes disso, o mapa tridimensional mais antigo de que se tinha conhecimento era uma placa de rocha portátil da Idade do Bronze criada há 3 mil anos.
"A precisão do desenho dessa rede hidrográfica revela uma capacidade notável de pensamento abstrato daqueles que o desenharam e a quem foi dirigido", escrevem os pesquisadores em estudo publicado no Oxford Journal of Archaeology [Jornal de Arqueologia de Oxford].
Além de demonstrar habilidades técnicas e capacidade de abstração de nossos ancestrais, o mapa também sugere que eles tinham uma compreensão profunda e sofisticada de seu habitat, muito acima do que se supunha anteriormente.
gb/ra (ots)
Obras de arte da era do gelo
Os mais antigos artefatos feitos por humanos, de 40 mil anos atrás, foram encontrados na Suábia, no sul da Alemanha. As seis cavernas onde objetos foram localizados são candidatas a patrimônio cultural da Unesco.
Foto: LAD, Y. Mühleis
A Vênus de Hohle Fels
Descoberta em 2008, a figura de Vênus da gruta de Hohle Fels data de 35 mil anos atrás. A mais antiga representação de figura humana é o mais conhecido dos 50 artefatos encontrados nas grutas da Suábia. Esculpida em marfim de mamute, a estatueta de 6 cm tem seios volumosos. Um pequeno aro substitui a cabeça, uma indicação de que a peça tenha sido usada como pingente.
Foto: Hilde Jensen, Universität Tübingen
A caverna Hohle Fels
Os arqueólogos encontraram a figura feminina nesta caverna. A maioria dos artefatos encontrados representa animais e remonta ao período aurignaciano (início do paleolítico superior) um tempo em que o neandertal e o homo sapiens viveram, em parte, lado a lado, e procuravam abrigo em cavernas. Já naquela época havia inúmeras grutas na região de Schwäbische Alb (montanhas da Suábia).
Foto: H. Parow-Souchon
O vale do rio Ach
Durante a era do gelo havia poucas florestas nesta região, coberta de estepes e habitada por mamutes e renas. Hoje em dia, a área, que tem mais de duas mil cavernas, é coberta por bosques. Seis das grutas onde aconteceram os achados espetaculares são candidatas a patrimônio cultural da humanidade. A candidatura foi oficializada no início do ano passado pelo estado alemão de Baden-Württemberg.
Foto: LAD, Chr. Steffen
Instrumento musical pré-histórico
O ser humano já fazia música há 40 mil anos. A prova são três flautas encontradas no abrigo rochoso Geißenklösterle, no sul da Alemanha, em 2009. A mais bonita delas, feita de marfim, pode ser vista junto com a Vênus no Museu da Pré-História da cidade alemã de Blaubeuren. O abrigo rochoso Geißenklösterle está bloqueado por uma cerca, mas, como não é muito profundo, pode ser visto a partir de fora.
Foto: Claus Rudolph, Urmu
Gruta Sirgensteinhöhle
A gruta Sirgensteinhöhle, de 42 m de comprimento, é aberta a visitantes e fecha só no inverno europeu, para a proteção dos morcegos que ali vivem. Os arqueólogos descobriram que o homem pré-histórico permanecia principalmente na entrada da caverna, onde fazia fogo, trabalhava e dormia. Há 500 anos, acreditava-se que na caverna havia vivido um monstruoso ciclope (gigante imortal com um só olho).
Foto: LAD, M. Steffen
Vale do rio Lone
As três outras grutas indicadas a patrimônio da humanidade ficam no vale do rio Lone, perto de Heidenheim. Elas se chamam Vogelherd, Hohlenstein Stadel e Bockstein. Da mesma forma como no vale do Ach, os sítios são área protegida. Não podem ser feitas alterações na área sem consentimento das autoridades de defesa do patrimônio. Sem essa garantia, a candidatura à Unesco não teria chance.
Foto: LAD, O. Braasch
A gruta Hohlenstein Stadel
As escavações nas cavernas da Suábia começaram no século 19. Os arqueólogos descobriram ali restos de fogueiras, armas, ferramentas e adornos feitos de pedra, chifre, marfim e osso. Em 1861, foram encontrados na gruta Hohlenstein 10 mil ossos de ursos. Apenas uma parte da caverna é aberta a visitantes.
Foto: Museum Ulm
Figura com traços humanos e de leão
A maior peça encontrada na gruta Hohlenstein Stadel é este artefato em marfim, de 31 cm de altura. Na foto, ele é visto de diferentes perspectivas. A peça, que faz parte do acervo do museu em Ulm, foi reconstruída quase completamente a partir de mais de 300 pedaços. Os arqueólogos não conseguiram identificar se se trata de homem ou mulher, por isso o chamam "Löwenmensch", "humano leão".
Foto: LAD, Y. Mühleis
Gruta Vogelherd
A localização da gruta Vogelherd era perfeita para o homem pré-histórico porque oferece uma ótima vista para o vale. Já se podia avistar os perigos de longe. Ou localizar a caça. Ali foram encontradas dez pequenas figuras de animais feitas de marfim de mamute. Um leão e uma figura de mamute podem ser vistos no parque temático arqueológico que fica junto à caverna.
Foto: LAD, Th. Beutelspacher
Cavalo selvagem
Uma figura de cavalo selvagem de cerca de cinco centímetros é considerada a principal peça encontrada na gruta Vogelherd. Seu pescoço curvado e as formas redondas e elegantes refletem a habilidade artesanal do homem pré-histórico. Ele está exposto no castelo de Tübingen, juntamente com outros achados das cavernas.
Foto: Hilde Jensen, Universität Tübingen
Gruta Bockstein
No rochedo Bockstein, no vale do Lone, há várias cavernas que podem ser acessadas. Os artefatos encontrados apontam que ali já moraram neandertais há mais de 60 mil anos. Em julho próximo, a Unesco vai decidir se "as cavernas com a mais antiga arte da era do gelo" virarão patrimônio cultural da humanidade.