Há cerca de um ano, Trump foi eleito. Desde então, os EUA têm agido na América Latina com um dinamismo que não se via há meio século. No Caribe, o país concentrou uma presença militar maciça . Em toda a região, Trump apoia presidentes ideologicamente próximos a ele. E está garantindo acesso privilegiado ao mercado para as corporações americanas.
O melhor exemplo é a Argentina: Trump acaba de assinar um acordo bilateral de livre comércio com Buenos Aires. Em alguns aspectos, assemelha-se ao que a União Europeia (UE) vem tentando alcançar com o Mercosul nos últimos 25 anos.
Antes, Washington apoiou o governo de Javier Milei com empréstimos que totalizaram 40 bilhões de euros. Agora, os EUA estão garantindo o acesso da Argentina a diversos produtos industriais e, em contrapartida, abrem seu próprio mercado para produtos agrícolas do sul.
Situação inédita
Para a economia e a política europeias, esta é uma situação inédita. Empresas e governos na Europa acabaram de perceber que a China está avançando rapidamente na América do Sul e se faz presente em todo o continente como concorrente. Agora, a Europa corre o risco de ficar no fogo cruzado entre duas grandes potências na América Latina.
Para Trump, não se trata apenas de comércio e investimento: as negociações também visam impor padrões, leis de patentes e regulamentações de segurança dos EUA. Grandes volumes de dados serão trocados. O acesso a terras raras e minerais essenciais será garantido. Grandes empresas de tecnologia serão isentas de potenciais impostos. Em resumo, os EUA querem recuperar rapidamente uma posição estratégica na América Latina. A razão subjacente: Trump quer conter a China.
Para esse fim, Trump está inicialmente buscando presidentes com proximidade ideológica, como Javier Milei, na Argentina, Nayib Bukele, em El Salvador, e Daniel Noboa, no Equador. Dada a atual guinada à direita na política latino-americana, novos parceiros não faltarão a Trump na região.
Além disso, o imprevisível Trump acaba de provar na Argentina que se pode contar com ele quando um aliado está em apuros. Sem os bilhões em empréstimos , Milei certamente teria perdido as eleições de meio de mandato.
Estratégia hesitante
Para a Europa, tudo isso é profundamente preocupante. Pois revela o quão hesitante e ultrapassada é a estratégia europeia para a América Latina. A UE cede rapidamente aos ataques tarifários de Trump e oferece amplas concessões. Mas, no caso do acordo com a América do Sul, debate interminavelmente como mitigar a resistência dos agricultores e ambientalistas europeus. Diante da avalanche na produção de fatos em Washington, a estratégia europeia de negociação parece pertencer a uma era passada.
Portanto, não é de se admirar que seja agora Lula quem está pressionando os europeus e acelerando o processo. Ele quer ir direto ao ponto com o acordo UE-Mercosul. Após reuniões com representantes europeus em Belém (COP30 ) e Joanesburgo (G20 ), ele anunciou: "Eu posso lhe garantir que no dia 20 de dezembro estarei assinando o acordo União Europeia-Mercosul ".
Essa clareza não foi ouvida dos europeus. E exatamente aí reside o verdadeiro dilema: quem quiser ter influência na América Latina no futuro precisa de coragem e decisões claras – qualidades que a Europa demonstrou muito raramente até agora.
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Há mais de 30 anos o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.
O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.
