1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
EducaçãoBrasil

Por trás das notas do Enem: corretores sem reajuste

Vinícius de Andrade
Vinícius De Andrade
22 de janeiro de 2026

Preço da negligência recai, mais uma vez, sobre os estudantes. Não há avaliação justa sem corretores valorizados, bem formados e respeitados.

Candidatos chegam em Campinas (SP) para prova do Enem, que teve 4,8 milhões de candidatos na última ediçãoFoto: Leandro Ferreira/Fotoarena/imago images

Na sexta-feira passada (16/01) foram liberadas as notas do Enem 2025. A nota na redação é a que os estudantes esperam mais ansiosamente e acaba sendo, em muitos casos, o que garante a aprovação no curso e nas universidades dos sonhos.

Logo após a liberação, candidatos de todo o Brasil se queixavam sobre suas notas na redação, pois estavam abaixo do que costumavam tirar enquanto treinavam.

Em um exame como o Enem, com 4,8 milhões de candidatos na última edição, é natural que nem todos saiam felizes com a nota. No entanto, a frustração parecia generalizada e indicativa de que algo merecia atenção.

Não coincidentemente, foi um ano de bastante descontentamento por parte dos corretores oficiais do Enem, em relação à Cebraspe, a atual banca que organiza o exame no Brasil.

Erros graves da banca

Para avançarmos na discussão, precisamos entender os bastidores de um corretor oficial, da candidatura à correção. De modo geral, o candidato se inscreve em julho. Passa por um treinamento formativo de três meses, online e de caráter classificatório e, se aprovado, por um treinamento presencial que ocorre após o exame e logo antes de iniciar as correções.

Há algumas semanas, Henrique Araújo, professor de redação e mentor da maior comunidade de corretores do Brasil, publicou em suas redes sociais uma carta aberta a Camilo Santana, atual ministro da Educação , com a intenção de ser um porta-voz dos corretores e expor erros da banca.

Segundo ele, "os maiores erros têm a ver com a falta de didática. Um treinamento muito longo, burocrático, mas que não capacita de verdade. As questões são muito fáceis, e os textos não são redações autênticas. O Cebraspe ensina minimamente a ligar o carro e o corretor precisa dirigir em alta velocidade na estrada."

Para ele, o mais grave é que "há uma falha de comunicação gigantesca e o próprio material se contradiz. No treinamento presencial não há material denso e completo, pois isso ocorre durante o treinamento online. Teve um conteúdo no material oferecido no treinamento formativo online, e basicamente no treinamento presencial chegam e dizem: 'Olha, o que está no material não vale mais. Vale o que irei passar agora no quadro e essa folha que estão recebendo agora'. Aí começa uma bagunça. O treinamento presencial seria só para arrematar o tema e não dar novas diretrizes. Além disso, ele é um grande telefone sem fio, pois há claras discrepâncias entre os estados e regiões."

Corretor desvalorizado e invisível

Organizar o maior vestibular do Brasil envolve uma complexidade absurda. Nesse contexto, a banca organizadora precisa estar preparada para lidar com todos os desafios e não parece ter sido o caso da Cebraspe. Mudar as diretrizes de formação durante uma edição, descartando instruções do treinamento formativo durante o treinamento presencial, impacta diretamente a formação dos corretores, o que, por sua vez, impacta as notas dos estudantes. É um erro gravíssimo.

Além disso, já faz 10 anos que não há qualquer tipo de reajuste da remuneração do corretor. Por correção padrão, ainda recebem os mesmos R$ 3. Esse problema orçamentário não é de responsabilidade principal da banca, mas sim do MEC e do INEP.

A desvalorização docente no Brasil é tão profunda que alcança até os corretores do Enem.

Por trás das notas do Enem, o maior vestibular do Brasil, há corretores sem reajuste há uma década. O preço dessa negligência recai, mais uma vez, sobre os estudantes. Não existe avaliação justa sem corretores valorizados, bem formados e respeitados.

______

Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

Pular a seção Mais dessa coluna

Mais dessa coluna

Mostrar mais conteúdo
Pular a seção Sobre esta coluna

Sobre esta coluna

Vozes da Educação

A coluna semanal é escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade.

Pular a seção Manchete

Manchete

Pular a seção Outros temas em destaque