Há alguns anos, eu estava em um lago no meio de Berlim quando vi uma cena que me marcou. Uma mulher saiu da água pelada e, calmamente, começou a vestir um uniforme de motorista de ônibus. Um senhor ao seu lado, também nu, comentou: "Você veio nadar antes de ir para o trabalho? Que ótimo! Isso é muito saudável”. Ela disse que sim e o senhor completou: "Tenha um bom turno”. Ela agradeceu, pegou a mochila e foi embora trabalhar. Simples assim.
O lago em questão era o Halensee, um dos mais tradicionais pontos de nudismo de Berlim. E para tornar tudo mais surpreendente para nós, brasileiros, que não crescemos vendo corpos pelados em parques e praias, o lago fica ao lado de uma avenida muito movimentada e a poucos metros da famosa Kurfürstendamm, a rua mais tradicional e sofisticada da antiga Berlim ocidental.
Outra curiosidade: a maioria dos frequentadores do ponto de nudismo são idosos. Em dias quentes, você vê centenas deles, bem tranquilos.
O Halensee é apenas um dos exemplos de como o nudismo, ou Freikörperkultur ("cultura do corpo livre" ouFKK, na sigla em alemão), um movimento que existe desde o final do século 19, é comum na Alemanha. Se um dia proibissem o nudismo no Halensee, isso seria praticamente um ataque contra as tradições do país.
Tabu no Brasil
Ficar nu em público, ou achar isso normal, é uma questão cultural, claro. Mas, depois de muitos anos morando na Alemanha, a gente não só se acostuma a ver muitos pelados ao ar livre, como fica chocado ao ver como a nudez ainda é tabu no Brasil. E junto com o avanço do conservadorismo, cada dia esse tabu aumenta.
Uma prova: na última sexta-feira (19/12), a prefeitura de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, publicou um decreto proibindo a prática do naturismo na Praia do Pinho, reconhecido como o primeiro local de naturismo do Brasil. Como justificativa, a prefeita da cidade, Juliana Pavan, do partido conservador PSD, afirmou que a praia deixou de ser usada para o naturismo e passou a ser cenário de "atos ilícitos e crimes sexuais". A decisão está no novo Plano Diretor da cidade.
Realmente, não consigo entender a conexão entre nudismo e aumento de "práticas ilícitas". O que uma coisa tem a ver com a outra?
O nudismo é permitido oficialmente, no momento, em apenas seis praias do Brasil, reconhecidas pelas prefeituras locais e pela Federação Brasileira de Naturismo.
E se você ousar entrar no mar pelado fora dessas áreas, pode até ser preso. Mulheres que fazem topless também correm risco. Já houve casos em que mulheres que aderiram à prática foram atacadas, literalmente, com pedradas. Algumas também já foram presas.
Que problema com o corpo nu é esse, Brasil? É sempre estranho pensar que em um país tão liberal, onde, para citar o exemplo mais óbvio, mulheres nuas desfilam normalmente em escolas de samba no Carnaval.
O corpo nu é permitido, mas apenas uma vez por ano e bastante sexualizado, mas se alguém quiser nadar pelado por gostar, pode até ser preso. Sim, a prática é considerada ato obsceno, um crime que pode levar a um ano de prisão. Nesse ponto, nossa cabeça muda bastante quando moramos na Alemanha, por exemplo.
Já na Alemanha, há várias modalidades de FKK, mas, basicamente, a cultura é aceita praticamente em qualquer lugar. Temos praias e lagos que são "área FKK" (o que, na maioria das vezes, não significa que você seja obrigado a ficar pelado) e também locais onde existem áreas das praias para a prática e outras "comuns". Mas a realidade é que em qualquer lago ou praia da Alemanha você pode ver pessoas peladas. E isso é tratado com completa naturalidade.
No verão, costumo nadar de manhã cedo em um lago de Berlim chamado Schlachtensee. Esse é um lago popular, no subúrbio de classe média de Zehlendorf e que é frequentado por muitas famílias. Todas as vezes que vou lá pela manhã, encontro mulheres muito idosas (na fase dos seus 80 anos) nadando peladas, livres, leve e soltas.
O que há de indecente nisso? Nada.
Eu não sou exatamente adepta do FKK, mas ver pessoas de todas as idades sem vergonha dos seus corpos é uma experiência transformadora, que recomendo fortemente, principalmente para as mulheres, vítimas de tanta pressão estética que muitas vezes sentem vergonha até de usar biquíni.
Repito, esse é um traço cultural e não espero que o Brasil vire a Alemanha e que passe a ser comum ficar nu até em um parque, mas que o tabu poderia diminuir, poderia. Uma pessoa que gosta de nadar pelada não é necessariamente alguém louco, obsceno ou que faz coisas ilegais. Ela pode ser apenas alguém que quer fazer algo saudável antes de ir trabalhar, assim como a motorista de ônibus do Halensee...
_____________________________
Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo "02 Neurônio". Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
