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Trump age, América Latina apenas observa

Thomas Milz
Thomas Milz
14 de janeiro de 2026

Os EUA são alvo de duras críticas por sua crescente interferência na América Latina. No entanto, a região se mostra incapaz de resolver seus próprios problemas.

Maduro e sua esposa, Cilia Flores, são conduzidos por agentes americanos a uma corte em Nova York, em 5 de janeiroFoto: Adam Gray/REUTERS

Donald Trump agiu. Em uma operação noturna em Caracas, forças especiais americanas capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e o levaram para os Estados Unidos, onde agora enfrenta julgamento. Em vez de chamá-lo de presidente, talvez seja mais apropriado usar ditador — alguém que fraudou várias eleições, reprimiu brutalmente a oposição, arruinou a economia do país que já foi o mais rico da América Latina e expulsou cerca de 8 milhões de venezuelanos para fora de suas fronteiras.

A tragédia que o povo venezuelano vem enfrentando desde o início do chavismo, em 1999, e especialmente desde que Maduro assumiu o poder, em 2013, vai muito além do que normalmente chamamos de crise ou declínio. Não foram apenas os migrantes venezuelanos que se espalharam por toda a América Latina por causa do regime de Maduro. O crime organizado, com grupos como o Tren de Aragua, também se expandiu como uma verdadeira praga.

Conversando com representantes da oposição venezuelana, é impossível não perceber a frustração com governos de esquerda e progressistas, como os do Brasil e do México. Maduro foi cortejado e apoiado por esses países, em vez de ser pressionado a moderar seu regime. Na prática, a defesa de regimes de esquerda como o da Venezuela – e também de Cuba e Nicarágua – por governos que recorrem com frequência ao vocabulário dos direitos humanos e da humanidade tornou-se rotina.

Relação amistosa com Caracas

Com razão, a esquerda latino-americana sempre denunciou ditaduras brutais como a de Augusto Pinochet no Chile. E, com razão, o ex-presidente brasileiro Jair Messias Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe. Mas, do mesmo campo político que comemora a condenação de Bolsonaro, vem agora a crítica à punição que Maduro pode sofrer. No caso dele, não foi apenas uma tentativa de golpe, como executado por Bolsonaro, mas várias, de forma brutal e implacável.

A crítica se concentra no fato de que foram os EUA que intervieram na Venezuela. No entanto, por décadas, os governos da região falharam em ajudar o povo venezuelano e conter a tragédia do chavismo. O Brasil, que sob Lula manteve relações estreitas e amistosas com Caracas, não usou essa proximidade para apoiar a oposição ou defender a democracia. Preferiu fechar os olhos para os abusos do regime.

 

A estreiteza ideológica, alimentada pelo antiamericanismo generalizado, levou à defesa de ditadores, em vez de impor limites às suas ações. Os resultados são desanimadores: a juventude cubana já abandonou a ilha diante da repressão política e do colapso econômico, a maioria rumo aos EUA. O mesmo aconteceu com a Venezuela. E, recentemente, cerca de 100 mil pessoas têm fugido todos os anos da brutal ditadura de Daniel Ortega, na Nicarágua.

Curiosamente, a migração em massa para os EUA acaba sendo vantajosa para muitos desses regimes. As vozes críticas deixam o país, e depois enviam grandes quantias à sua terra natal. Em várias nações da América Central e do Caribe, essas remessas representam até um quarto do PIB. Assim, os governos podem se dar ao luxo de não oferecer políticas sociais, já que o dinheiro vindo dos odiados EUA sustentam milhões de famílias.

Como garantir a ordem na região?

Falta à América Latina mecanismos internos para conter os "maus elementos" da região. A Corte Interamericana de Direitos Humanos, na Costa Rica, é tão ineficaz quanto a ONU em Nova York com suas inúmeras instituições. "Só Donald Trump ajudou os venezuelanos" disse-me ontem uma ativista da oposição venezuelana.

É claro que os EUA só agem quando isso atende aos seus próprios interesses. Mas China e Rússia também agem movidos por interesses próprios. Se os EUA não assumirem o papel de "polícia do mundo", quem deveria fazer isso? A Europa parece estar a caminho de resolver os problemas do seu próprio continente no futuro. E a América Latina?

Aqui, estamos mais distantes disso do que nunca. O Brasil, que por sua força econômica seria o candidato natural a assumir um papel de mantenedor da ordem na região, recusa-se a fazer isso e se esconde atrás de uma "neutralidade pragmática". Quer manter diálogo com todos, evitando posicionamentos claros. Só depois da fraude eleitoral descarada de Maduro em 2024 o Brasil se manifestou, timidamente, com críticas ao regime.

Mas isso foi muito hesitante e tardio. Agora, Donald Trump intervém — à sua maneira. Se isso vai levar a uma mudança de regime em Caracas, ainda é incerto. Por enquanto, os aliados de Maduro continuam no poder. Em vez de propostas construtivas sobre como restaurar a democracia, o que se ouve da esquerda são apenas críticas à ação de Trump. Parece não haver ideias próprias.

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Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há mais de 25 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, desde então, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há doze anos.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente da DW.

 

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Realpolitik

Depois de uma década em São Paulo, Thomas Milz mudou-se para o Rio de Janeiro, de onde escreve sobre a política brasileira sob a perspectiva de um alemão especializado em Ciências Políticas e História da América Latina.

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