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EducaçãoBrasil

Como é estar na graduação com mais de 40 anos

Adriana Sueli Munck Gil
8 de junho de 2023

Existem muitas pessoas como eu nas universidades, mas acabamos invisibilizados, confundidos nos corredores com professores ou funcionários, conta Adriana Sueli Munck Gil, de 50 anos.

Adriana Sueli Munck Gil
Adriana Sueli Munck Gil cursa Letras na UFRJFoto: Privat

Quando decidi fazer o vestibular em 2019, aos 46 anos de idade, estava presa numa carreira que não exercia e presa às frustrações trazidas pela minha primeira profissão. Não queria mais aquilo e depois de ver minhas filhas criadas, estava pronta para o próximo desafio, o ENEM.

Aqui vieram as preocupações com as opiniões. O que falariam de mim? Ouvi alguns "Você é louca!" por parte de familiares e amigos. Mas, apesar disso, aprendi muito, me revisitei, revi conceitos, reaprendi a estudar e fui bem no vestibular – primeiro lugar no curso que queria, para a federal da cidade onde morava. Fiquei surpresa. Mas veio a pandemia e voltamos para o Rio de Janeiro no pior momento da crise sanitária. Tinha medo de tudo, medo de perder as pessoas que amo e mais ainda, medo de morrer.

Fiz a minha matrícula no Sisu do segundo semestre. Período remoto emergencial, sem ver as carinhas dos meus colegas. Fazer trabalho em grupo foi terrível! Mas superamos e só no terceiro período do curso de Letras nos encontramos no Campus da UFRJ. A sensação foi muito estranha de conhecer os colegas que sabia o nome, ouvia a voz, mas não tinha ideia de como seriam pessoalmente. Eles me reconheciam, claro, porque era uma das poucas pessoas que abria a câmera e tirava dúvidas ao vivo.

No começo, eu mesma achava que não me encaixaria, mas aos poucos fui ficando mais à vontade e tentando me relacionar com meus colegas. Aprendi coisas que estão fora do âmbito educacional, aprendi a viver em harmonia com pessoas muito diferentes daquelas da minha "bolha" pessoal. A única experiência com jovens que eu tinha até o momento, era com minhas filhas que me deram muito trabalho. Mas superei, aprendi e gostei do que vi. Vi um mundo muito diferente das minhas preconcepções, um colorido diferente, ideias novas, fiquei fascinada. Mas esse mundo novo demorou a se abrir completamente para mim.

Dinâmica universitária

Eu percebia que, apesar do meu encantamento por todo aquele universo descortinado à minha frente, alguns colegas evitavam um contato mais próximo. Eu não queria ser a melhor amiga deles, se fosse tudo bem, mas não era isso. Queria ter a oportunidade de interagir, de participar das conversas sem que aos poucos elas se esvaziassem. Eu tinha a impressão de que não era muito bem recebida pelos mais novos. Demorou um pouco para que eu entendesse a dinâmica universitária para uma pessoa mais velha. Eles se afastam de tudo o que lhes remeta à autoridade de seus pais e ali era onde se sentiam livres, eu sou igual a seus pais, só que de maneira diferente.

Existem muitas pessoas como eu nas universidades. Alguns estão fazendo a segunda ou a terceira graduação e existem ainda aquelas que começaram agora: só depois dos filhos criados tiveram a oportunidade de se dedicar aos estudos e buscar o crescimento pessoal através de um curso superior. Mas acabamos invisibilizados, confundidos nos corredores com professores ou funcionários. Quantas vezes me chamaram de professora, pelo simples fato de ostentar meus cabelos brancos. Mas aos poucos, conforme saio do ambiente restrito da minha turma, fazendo aulas com grupos de outros idiomas e períodos, percebo que não estou sozinha e é muito legal ver pessoas que se superam, que buscam conhecimento, que correm atrás do prejuízo independente de "o bonde da hora certa" já ter passado. Na verdade, nem sei se esse bonde existe.

Sociedade ainda não está preparada para o futuro

Quando a notícia da estudante de biomedicina que sofreu bullying em São Paulo por causa da idade veio à tona, me senti pessoalmente afetada. Qual o demérito em ingressar numa faculdade depois dos quarenta? Por que uma pessoa deixa de ter direitos conforme envelhece? Com estas reflexões, comecei a pensar sobre o que eu mesma vivia ali na faculdade. Tirando a falta de empatia e de educação daquelas meninas de São Paulo, eu vejo que a nossa sociedade ainda não está preparada para o futuro.

Hoje, uma pessoa de 25 anos provavelmente ainda não saiu da casa dos pais e só vai pensar em ter filhos lá pelos 30. Vejo isso nas minhas filhas. Viveremos hoje mais que nossos pais e avós, e nada mais justo que sermos ativos até mais tarde. O 50 é o novo 30. Daí o espanto em ver jovens que pertencem a uma geração tão bem-informada sobre as mudanças da sociedade, que exigem tolerância e respeito, agirem exatamente ao contrário de tudo o que vejo e ouço nos corredores da faculdade.

Apesar disso, acredito na convivência e na tomada de consciência. Hoje tenho amigos de verdade na faculdade. Precisamos buscar um mundo mais inclusivo e tolerante sim, mas não só para os jovens. Precisamos dar mais oportunidades para os que, como eu, querem se reinventar, começar de novo ou pela primeira vez. É preciso combater a gerontofobia que existe e quebrar barreiras. As oportunidades de crescimento e aquisição de conhecimento devem ser iguais para todos, de todas as etnias, de gêneros, de orientações religiosas ou sexuais, de todas as idades.

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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1.

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