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Como é que se diz mesmo "Streichholzschächtelchen"?

Augusto Valente / Kate Müser

Os desafios que o idioma de Goethe impõe a quem se propõe estudá-lo são legendários. Deparado com vocábulos intermináveis, o aprendiz de alemão logo tropeça em suas "barbaridades" fonéticas. Mas vale a pena insistir.

Foto: Fotolia/lassedesignen

"O alemão não é uma língua: é uma doença da garganta." Esse dito – que também existe em outras variantes, referindo-se ao holandês ou ao dialeto suíço schwyzerdütsch – é, sem dúvida, espirituoso. Mas será verdadeiro?

Para quem já se dedicou seriamente ao estudo do idioma de Goethe, já cantou um coral de Bach, ou escutou, bem recitados, poemas de um Hölderlin, Celan ou Rilke, a resposta é, definitivamente, "não".

Ainda assim, não há como negar que, para ouvidos e bocas acostumados aos sons mais redondos e claros das línguas latinas, as consonantes guturais do alemão, seus "ü" e "ö", e outros sons "bárbaros", são uma fonte de contínuo estranhamento. E de constantes arranhões na traqueia e nós na língua.

Para testar a intimidade do usuário com o idioma germânico, preparamos uma pequena coleção de desafios fonológicos, acompanhados de breves explicações. Cuidado: alguns são bem mais complicados do que parecem. Em caso de dúvida, clique em cima da palavra, para escutá-la na voz de um alemão nativo.

Streichholzschächtelchen

Foto: Fotolia/Fotoschlick

Uma das peculiaridades mais apavorantes do idioma é a possibilidade que abre para a formação de infinitos vocábulos compostos – geralmente sem o hífen, que ajudaria a identificação dos componentes.

Embora a extensão de uma palavra não seja necessariamente proporcional a seu potencial quebra-língua, a massa de letras, em si, costuma ser suficiente para fazer capitular até o mais corajoso aprendiz do idioma.

O exemplo é especialmente cruel por sua abundância do grupo consonântico "ch", que representa dois fonemas inexistentes na língua portuguesa. Neste caso, trata-se do assim chamado Ich-Laut, que se executa tentando-se pronunciar um "ch" com a língua encostada nos dentes incisivos inferiores. O "sch", por sua vez, soa exatamente como o "ch" português.

A boa notícia é que, apesar da aparência tão intimidadora, Streichholzschächtelchen não significa nada de muito perigoso: Streich[en] = friccionar; Holz = madeira; Schachtel = caixa; enquanto "chen" é uma partícula diminutiva. Portanto: "caixinha de fósforos", nada mais, nada menos.

Brötchen

Foto: Fotolia/IrisArt

Tamanho não é documento: os compostos quilométricos podem cansar os olhos e afligem a mente; mas muitas vezes é com os breves e recorrentes termos do dia a dia que os não alemães mais sofrem.

Brötchen é "pãozinho" (Brot+ "chen"), no singular e no plural. Na Alemanha eles costumam ser consumidos todos os dias no café da manhã – seja com manteiga, queijo, frios ou geleia – e, de preferência, frescos. Assim, o novato no país é confrontado com os famigerados "r" gutural, "ö" e "ch" germânicos – em grande proximidade e, inevitavelmente, com frequência bem maior do que ele gostaria.

Porém se isso fosse tudo, a língua alemã não seria o que é. A questão é que não há limite para as combinações dos pãezinhos alemães com outros conceitos. Assim, temos o Käsebrötchen (com queijo), o Roggenbrötchen (de centeio), o Laugenbrötchen (pincelado com soda cáustica [!], no estilo pretzel), o Vollkornbrötchen (integral).

Ou, que tal combinar abacate, legumes e queijo num saudável Avocado-Gemüse-Käse-Brötchen?

Zwanzig

Foto: Fotolia/Peter Atkins

Zwanzig significa "vinte" – que é o número aproximado de obstáculos que essas sete letras impõem ao pobre novato na língua.

A começar com um "z" pronunciado "ts"; passando pelo "w" ("v", em alemão); indo para um "an" acentuado e não anasalado; voltando para o "ts"; avançando para um "i" mais curto do que o do português; e acabando com um "g" – que no alto alemão é pronunciado como o "ch" (ver acima).

E na prática, por exemplo, na hora de pagar a conta da cerveja, arredondando para 20 euros? Para quem não estiver disposto a enfrentar a maratona fonética do zwanzig, só resta uma solução: arredondar logo a quantia para 30, que é mais caro, mas bem mais fácil de falar: "Dreissig!"

Frucht

Foto: Fotolia/Heike Rau

Como se não bastasse ser inusitado para muitos estrangeiros, o "ch" do alemão vem em dois sabores. Um é Ich-Laut (descrito em Streichholzschächtelchen), quando sucede a "e", "i", "ö", "äu", "ur", entre outras combinações. O outro é o gutural Acht-Laut – semelhante ao "j" espanhol (trabajo), o "h" inglês (hand) ou o relaxado "r" final carioca (andar) –, que o "ch" assume depois de "a", "o", "u" ou "au".

Não parece muito difícil, mas tudo é uma questão de contexto. Experimente Frucht (fruto) em que o "ch" aparece entre um "r" gutural e um "t" mudo. Tente de novo.

Uma dica: se depois da décima vez não tiver conseguido mesmo, escape para Obst, fruta(s) – que a rigor não é a mesma coisa, mas, em perigo extremo de mal entendido, pode salvar a situação.

Rechtschreibung

Foto: Fotolia

Entender Rechtschreibung não é difícil: recht (certo) + schreiben (escrever) = ortografia. E pronunciar a palavra não será nenhum obstáculo intransponível, depois das explicações anteriores. Difícil mesmo é a ortografia alemã.

Não há dúvida: como a grafia do idioma é predominantemente fonética, com raras exceções, o aprendiz logo consegue deduzir como se escreve uma palavra escutada – bem mais facilmente do que no inglês ou no francês, que em sua grafia carregam várias camadas arqueológicas de etimologia. Bem, pior é a gramática alemã, com seus diferentes casos gramaticais, como no latim.

Entretanto, como sempre, o diabo está no detalhe. Pois "ö" (semelhante ao "oeu" francês), por exemplo, não é sempre igual a "ö". Seguido por um "h", ele será longo (Höhle, caverna); mas depois de uma consoante dobrada, é breve (Hölle, inferno). E ouvidos e aparelhos fonadores brasileiros nem sempre perceberão a tempo a diferença entre Röschen (rosinha) e Höschen (calcinha).

Mas, admitamos, mesmo para os nativos a questão não é tão linear quanto parece. Pois nas últimas décadas a ortografia alemã passou por várias reformas e – para além dos inevitáveis equívocos e variantes austríacas e suíças – algumas modificações simplesmente não "pegaram" entre a população.

Assim, para um alemãozinho que esteja estudando para o exame de soletração, é melhor não ir pedir ajuda à vovó. É quase certo que as dicas dela para expressões como Rad fahren (andar de bicicleta) ou Schifffahrt (viagem de navio) serão completamente obsoletas. Afinal, até a Rechtschreibreform de 1996, o certo era radfahren e Schiffahrt.

Mais além

Foto: Fotolia/ra2 studio

Esta foi apenas a ponta do iceberg, claro: o idioma de Lutero e Karl Marx abriga muitas outras armadilhas, mistérios e quebra-línguas. Mas também inúmeras belezas ocultas: é uma floresta complexa e surpreendente, que vale a pena explorar.

Para testar os conhecimentos adquiridos, compare a sua pronúncia das palavras a seguir com o áudio que se abre depois de clicar nelas: Eichhörnchen (esquilo), Schlittschuhlaufen (patinação no gelo), Röntgen (radiografia).

E, como prova final, confira a versão alemã de estrangeirismos bem estabelecidos como Regisseur (diretor de teatro ou cinema), originário do francês, ou o adjetivo inglês happy. "Mas", diriam alguns, "é tão... alemão!"

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