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Como a guerra na Ucrânia mudou a sociedade russa

Xenia Polska
10 de junho de 2026

Pesquisadores e ativistas russos exilados investigaram as consequências do conflito para o Exército e a sociedade na Rússia. O resultado: deserção, medo e exclusão.

Sepulturas simples todas iguais, com coroas de flores
Sepulturas de vítimas da guerra, em Krasnodar, no sul da RússiaFoto: REUTERS

"Eu também recebi uma ordem, mas não a obedeci", conta o russo Igor Shchetko, questionando por que outras pessoas não poderiam agir como ele.

O ex-soldado das forças de mísseis estratégicos da Rússia desertou por causa da guerra contra a Ucrânia. Ele tomou essa decisão quando percebeu que não havia outra maneira de escapar do Exército. Em 2021, um ano antes do início da invasão da Ucrânia, Shchetko havia se comprometido por contrato a servir por dois anos.

A decisão de desertar também foi influenciada pelo suicídio de um recruta em sua unidade. Shchetko encontrou o corpo. Depois disso, foi internado na ala psiquiátrica de um hospital, onde tentou ser dispensado do Exército por motivos médicos. No entanto, em vez disso, foi ordenada sua transferência para uma brigada de assalto.

"Quando soube que deveria ir para a zona de combate, ficou claro para mim que eu não iria à guerra sob nenhuma circunstância", diz Shchetko à DW. Poucos dias depois, ele fugiu da Rússia para a Armênia e, de lá, para a União Europeia.

Deserção e recusa em combater

A DW conversou com ativistas russos de direitos humanos no exílio, que no fim de maio se reuniram em Estrasburgo, na França, para uma conferência do Comitê Antiguerra da Rússia.

Igor Shchetko, desertor do exército russoFoto: Nikita Mouravieff/Le Monde

O comitê é uma iniciativa fundada em fevereiro de 2022 por russos proeminentes no exílio, que condena a guerra e se opõe ao regime de Vladimir Putin. As autoridades russas classificaram o comitê como uma "organização terrorista".

O ativista de direitos humanos Sergei Krivenko, que há anos defende os direitos de militares, estima em cerca de 60 mil o número de soldados russos que abandonaram suas unidades ou se recusaram a participar de combates. Não se trata apenas de deserções "clássicas"; há também casos de soldados que se escondem na Rússia ou tentam ser considerados por médicos incapazes para o serviço.

Segundo Krivenko, mais de 20 mil processos criminais já foram iniciados na Rússia por ausência do serviço, deserção e recusa em lutar – essa última considerada crime por Moscou. Igor Shchetko afirma que, se fosse extraditado para a Rússia, poderia enfrentar 15 anos de prisão ou ser enviado para a linha de frente.

Quem está sendo recrutado para o Exército russo

Desde 2023, conta Krivenko, o Exército russo tem recrutado novos soldados principalmente por meio de contratos lucrativos. Mas não são apenas voluntários: entre os militares contratados há presidiários, migrantes, devedores, recrutas obrigatórios e moradores de regiões economicamente mais fracas, que muitas vezes escolhem o serviço militar por dificuldades financeiras ou falta de alternativas. Ao mesmo tempo, o Estado intensifica programas "patrióticos" de treinamento paramilitar em escolas e universidades.

Observadores ressaltam, porém, que o Exército russo não deve ser visto apenas como um conjunto de pessoas que vão para a frente de batalha por dinheiro ou outros motivos. Um representante do Corpo de Voluntários Russos, que lutou ao lado dos ucranianos e usa o codinome "Kasper", lembra que o Exército russo também inclui unidades bem treinadas e motivadas, além de "carne de canhão".

Visão interna das tropas

Os ativistas alertam que, na Rússia, as pessoas estão perdendo cada vez mais o controle sobre suas próprias vidas. A antropóloga Alexandra Arkhipova relata ter reunido depoimentos de soldados russos, desertores e seus familiares, descrevendo um clima cotidiano de violência.

Contratos lucrativos atraem homens ao Exército russoFoto: Sergey Pivovarov/REUTERS

Um dos resultados desse trabalho é um "dicionário de guerra", com o jargão da linha de frente que reflete a vida dentro do Exército russo. Segundo Arkhipova, os termos se relacionam a controle, punição e sobrevivência. Por exemplo, "casa de pássaros" refere-se a operadores de drones que monitoram até mesmo seus próprios companheiros e podem disparar contra quem tenta recuar. "Poço" significa locais improvisados de detenção ilegal e punição, e "quarentena" designa bases onde soldados russos retornados do cativeiro ucraniano são interrogados pelo Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (FSB) antes de serem enviados de volta ao front. "Não há retorno para casa", enfatiza Arkhipova.

Segundo ela, ao longo dos anos de guerra, tornou-se cada vez mais difícil voltar do Exército à vida civil. Muitos soldados veem uma saída apenas em ferimentos graves, captura, deserção ou, no pior caso, na morte. Além disso, desenvolveu-se dentro do Exército uma espécie de "mercado negro da sobrevivência". Soldados pagariam milhares de dólares para conseguir licença, ser transferidos do front ou evitar missões em unidades de assalto. Também seriam comprados atestados médicos e subornados comandantes para permitir a saída temporária de uma unidade.

Arkhipova destaca que a percepção do valor da vida humana dentro das tropas mudou: muitas pessoas descreveriam a frente de combate como um lugar onde indivíduos são vistos não como pessoas, mas como recursos descartáveis. Em um sistema assim, o comando precisa de um fluxo constante de novos soldados para compensar as perdas.

Impacto na sociedade russa

A guerra também está transformando a sociedade russa. De acordo com o jornalista Alexei Tupitsyn, o conflito tornou-se parte do cotidiano e, para algumas famílias, uma fonte de renda. Quando começou a mobilização, ele criou, com colegas, chats para esposas de soldados mobilizados e para os próprios soldados. Inicialmente, esses espaços eram marcados pelo medo e pelo desejo de trazer os familiares de volta para casa. Com o tempo, porém, a guerra passou a representar uma fonte de renda estável.

"As esposas de soldados mobilizados hoje pertencem, por assim dizer, à classe média", afirma o jornalista.

Soldados russos desfilam em parada militar na Praça Vermelha; para alguns, serviço também significa ascensão social para as famíliasFoto: Shamil Zhumatov/REUTERS

As famílias quitam dívidas e compram carros e móveis caros. Além disso, Tupitsyn relata que, em algumas escolas, filhos de participantes da guerra são alimentados separadamente e recebem doces e outros alimentos extras, sendo assim favorecidos.

Exaltação do dinheiro em vez do heroísmo

Enquanto o Estado tenta glorificar os veteranos de guerra que retornam, muitas pessoas mantêm distância deles no cotidiano, especialmente daqueles com passado criminal que lutaram em milícias privadas ou brigadas de assalto.

Tupitsyn a conta o caso de um homem condenado por duplo homicídio, libertado para servir no Exército, que após retornar tentou trabalhar como instrutor de segurança contra incêndios em uma escola. Seu nome havia sido apagado dos registros criminais após servir no grupo Wagner, mas ainda assim a escola recusou contratá-lo, apesar de suas condecorações e cartão de veterano. "A diretora me ligou horrorizada e disse que só de olhar para ele já sentia medo", lembra Tupitsyn.

Segundo Arkhipova, também familiares de militares reclamam de exclusão social. Uma mulher lhe escreveu dizendo que queria ser "a esposa de um herói", mas enfrentava rejeição. Ela criticou o fato de o Estado transformar participantes da guerra em "mercenários", enfatizando pagamentos e compensações generosas em vez da "ideia de serviço e heroísmo".

Para o desertor Igor Shchetko, que fez de tudo para não passar um único dia na guerra, o mais importante é outra coisa: "Minhas mãos não estão manchadas com uma única gota de sangue de ucranianos — nem de civis nem de militares", disse, lembrando que só se sentiu seguro pela primeira vez após fugir para a França. "Não me arrependo de nada; permaneci fiel a mim mesmo".

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