1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Como o Clube da Esquina ultrapassou as fronteiras do Brasil

Publicado 4 de novembro de 2025Última atualização 7 de novembro de 2025

Liderado por Milton Nascimento e Lô Borges, movimento musical surgido em Minas Gerais inspirou nomes como Alex Turner, do Arctic Monkeys, e Björk, além de músicos da Alemanha e até do distante Belarus.

Brasilien | Clube da Esquina Musiker
Lô Borges (à esquerda) e Milton Nascimento (à direita) levaram música mineira ao cenário internacionalFoto: Juvenal Pereira

As singelas casas de muro baixo, o cheiro do café coado e a silhueta da Serra do Curral no dourado de um fim de tarde são um lugar-comum do tranquilo bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.

A imagem, que poderia muito bem ficar circunscrita a um mero clichê bairrista, foi muito mais longe do que possivelmente imaginava aquela meia dúzia de garotos que, nos anos 1960, se encontravam no cruzamento das esquinas das ruas Paraisópolis e Divinopólis para bater papo e tocar violão.

Foi ali, no coração da capital mineira, que surgiu um dos movimentos mais influentes da música brasileira. O chamado Clube da Esquina foi eternizado no disco homônimo de 1972, gravado por Milton Nascimento e seu parceiro de primeira-hora Lô Borges, que morreu no último domingo (02/11), em Belo Horizonte, aos 73 anos, em decorrência de uma intoxicação medicamentosa.

A mescla do cancioneiro brasileiro com toques dos Beatles e harmonia inspirada no rock progressivo inglês entrou de uma vez no rol das obras-primas da música brasileira, além de arrastar, junto de Lô e Milton, toda uma turma de mineiros como Beto Guedes, Toninho Horta, Flávio Venturini e Wagner Tiso para o panteão da MPB.

No entanto, os ventos daquelas tardes sem fim transcenderam as Minas Gerais e o Brasil, chegando à Europa e aos Estados Unidos e aos ouvidos de fãs e de artistas da prateleira de cima do escalão mundial.

O primeiro a romper as fronteiras nacionais foi Milton Nascimento. Em 1969, o artista gravou nos Estados Unidos o álbum Courage, produzido por Eumir Deodato, outro brasileiro já atuante em terras norte-americanas. Já na década seguinte, Milton foi convidado pelo saxofonista Wayne Shorter, que havia participado do lendário quinteto de Miles Davis, para dividir um disco.

Icônica capa de "Clube da Esquina", lançado em 1972 e que traz canções de Lô Borges e Milton NascimentoFoto: Cafi

O resultado virou Native Dancer (1975), que conta com cinco faixas do fundador do Clube da Esquina e serviu para impulsionar o nome de Milton nos Estados Unidos, tendo sido citado por artistas como Maurice White, do Earth Wind and Fire, e Esperanza Spalding com influências. A jazzista norte-americana, por sinal, lançou, em 2024, com Nascimento, o disco Milton + Esperanza, indicado ao Grammy do mesmo ano.

Mineiros no hemisfério Norte

Mas não foi só no jazz que as intricadas harmonias e melodias do Clube da Esquina encontraram ressonância. Nos anos 1990, a cantora Björk ganhou de presente uma fita cassete com a versão de Elis Regina para Travessia, canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, principal letrista do Clube da Esquina, e se apaixonou pela obra do brasileiro. A cantora islandesa chegou inclusive a gravar a canção, que foi produzida por Deodato, mas nunca a lançou oficialmente.

Já Alex Turner, do Arctic Monkeys, revelou a sua admiração por Lô Borges à revista especializada Mojo, da Inglaterra – em especial pela faixa Aos Barões, do disco Lô Borges (1972). A canção figurou numa lista de músicas que inspiraram o britânico na composição do álbum Tranquility Base Hotel & Casino, de 2018.

Mas os contornos daquela esquina belo-horizontina também aportaram em locais ainda mais surpreendentes, como na distante ex-república soviética de Belarus, país natal do músico Alex Chumak, idealizador do projeto Soyuz. O compositor lembra quando ouviu, pela primeira vez, Cais, segunda faixa de Clube da Esquina.

"Era outono, com aquelas folhas douradas e tudo se encaixou perfeitamente. Fiquei totalmente arrebatado", lembra ele à DW, que confessa ter ficado dias a fio escutando sem parar a canção. "Depois fui descobrindo as outras músicas e, posteriormente, os outros discos dos integrantes do Clube da Esquina, como Lô Borges e Beto Guedes", acrescenta o músico, que hoje vive em Varsóvia, na Polônia.

A admiração pela música mineira é evidente no som do Soyuz. Em 2022, o grupo lançou seu terceiro álbum, Force of the Wind (2022), cujo nome é inspirado na canção A Força do Vento, de Lô Borges. Depois, Chumak foi até o Brasil gravar KROK, quarto álbum que acaba de ser lançado pelo selo inglês Mr. Bongo e que conta com a participação de Tim Bernardes.

"Aprendi muito a compor com o Clube da Esquina. São canções em que cada mudança de acordes, cada passagem, tem algo a dizer, um sentimento novo para apresentar. É tudo muito complexo, ao mesmo tempo em que não há nelas o medo de ser pop. Além disso, é uma música universal e atemporal", descreve o belarusso à DW.

Músico belarusso Alex Chumak, do projeto Soyuz, com o disco "A Via Láctea", de Lô BorgesFoto: Sviatlana Varapai

Encontro com Lô

Assim como com a islandesa Björk, foi uma fita-cassete que arrastou o alemão Sebastian Dingler para o meio do Clube da Esquina – e, mais precisamente, Lô Borges. O jornalista e músico, integrante da banda de música brasileira Bossa 68, de Saarbrücken, viveu em Brasília nos anos 1990, quando chegou às suas mãos uma K7 com Trem Azul e Tudo Que Você Podia Ser.

Fã de rock progressivo, Dingler reconheceu imediatamente as similaridades do Clube da Esquina com grupos ingleses que já conhecia, como Yes e King Crimson. "Eu senti na hora aquelas semelhanças. Mas tinha algo a mais ali, uma coisa meio mágica", diz ele à DW, citando a canção Equatorial, de Lô Borges. "É exatamente como eu me sinto, andando por uma cidade brasileira numa noite de verão."

Mas foi da maneira inusitada que a paixão pela música de Minas o aproximou de Lô Borges – literalmente. Há alguns anos, Dingler vendeu uma coleção de livros alemães no eBay para um conterrâneo residente em Itabira, também em Minas.

Ambos ficaram amigos e, em uma conversa, o jornalista citou a admiração por Borges. Foi quando o colega itabirano revelou uma inusitada conexão com o músico mineiro, cuja enteada é apadrinhada por Lô.

Lô Borges morreu em 2 de novembro de 2025, aos 73 anos, em Belo HorizonteFoto: Joao Diniz/Wikimedia Commons

Em 2023, Dingler resolveu visitar Minas e descobriu que o músico faria um show na capital mineira dali alguns dias. O casal de amigos o convidou e, instantes antes do show, o alemão pôde conhecer Lô Borges no camarim do Palácio das Artes, coincidentemente o mesmo local onde o artista foi velado nesta terça-feira (04/11).

"Contei a história para ele, mas senti que ele era alguém muito tímido, retraído mesmo. Mas ele era um dos meus heróis musicais e entendi um pouco de quem ele era naquele encontro", conta Dingler, que escreveu sobre o encontro com Lô num artigo para o jornal Saarbrücker Zeitung, com o título: Como o eBay realizou um sonho musical.

O jornalista lamenta que a música de Lô ainda seja pouco conhecida na Alemanha, mas espera ter contribuído para converter ao menos um conterrâneo para o universo do Clube da Esquina: "Tive uma grata surpresa: um leitor do jornal enviou uma mensagem agradecendo pela dica."

Pular a seção Mais sobre este assunto
Pular a seção Manchete

Manchete

Pular a seção Outros temas em destaque