Como racismo antipalestino molda percepção da guerra em Gaza
3 de novembro de 2025
Progaganda e desinformação contra os palestinos estão sendo usadas para "justificar os crimes que vêm sendo cometidos", diz Jalal Abukhater, diretor do 7amleh, uma ONG árabe que aborda a cobertura da causa palestina nas redes sociais. O centro, uma organização sem fins lucrativos que capacita ativistas da sociedade civil palestina e árabe a usar as mídias digitais na defesa dos direitos humanos, tem monitorado o aumento do ódio online contra os palestinos.
O ataque terrorista do grupo Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 matou cerca de 1.200 pessoas. Ações militares do exército israelense mataram, segundo autoridades de saúde de Gaza, ao menos 68 mil palestinos. A Associação Internacional de Pesquisadores sobre Genocídio e especialistas da ONU classificam a ação de Israel como genocídio.
O que é racismo antipalestino?
O termo "racismo antipalestino" é contestado e criticado entre acadêmicos e instituições judaicas. A definição mais comum e amplamente adotada é a da Associação de Advogados Árabes-Canadenses: "O racismo antipalestino é uma forma de racismo contra árabes que silencia, exclui, apaga, estereotipa, difama ou desumaniza os palestinos ou suas narrativas."
Diversas organizações que monitoram incidentes relatados de racismo antipalestino afirmam que eles aumentaram drasticamente após os ataques terroristas liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Por exemplo, um relatório do Centro de Pesquisa sobre Islamofobia da Universidade de York, em Toronto, afirma que "após 7 de outubro de 2023, o Canadá registrou um aumento no racismo antipalestino, na islamofobia, no racismo antiárabe, bem como um aumento no antissemitismo".
Raízes históricas
Especialistas afirmam que o fenômeno do racismo antipalestino não é novo, embora tenha adquirido proporções alarmantes nos últimos anos. "Esse preconceito tem suas raízes em discursos coloniais e orientalistas”, esclarece à DW Asmaa El Idrissi, advogada e docente da Universidade de Bochum, na Alemanha.
"Quando analisamos a literatura de cem anos atrás, encontramos exatamente os mesmos estereótipos sobre os palestinos que voltam agora à tona, com árabes ou muçulmanos descritos como irracionais ou atrasados", diz ela.
Segundo El Idrissi, um dos contextos históricos mais importantes para a compreensão do sentimento antipalestino é a negação da Nakba. Em 14 de maio de 1948, o Estado de Israel foi declarado no território da então Palestina sob Mandato Britânico, administrado pelos britânicos. A Nakba, que em árabe significa "catástrofe", refere-se ao deslocamento e à expulsão em massa dos palestinos durante a guerra árabe-israelense de 1948.
Segundo dados da Agência Central de Estatística da Palestina, mais de 800 mil palestinos foram expulsos de suas casas e ao menos 15 mil mortos durante a Nakba. "A negação da Nakba serve como narrativa central para deslegitimar qualquer reivindicação por igualdade de direitos e uma vida livre", explica El Idrissi.
Nem todos os palestinos são o Hamas
Embora o Hamas seja um partido político com um braço armado e classificado como organização terrorista pela UE, Alemanha e outros países, o partido foi eleito nas últimas eleições regionais em 2006, mas não por maioria dos votos. Desde então, não foram realizadas eleições regionais devido a divisões políticas não resolvidas entre o Hamas e o Fatah (partido político que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia ocupada) e devido à contínua ocupação e aos bloqueios israelenses.
Uma das narrativas falsas mais persistentes nos últimos anos é a associação de todos os palestinos ao Hamas. Embora existam vídeos mostrando palestinos comemorando o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, isso não significa que todos os palestinos apoiem o Hamas. Houve vários casos de palestinos protestando contra o Hamas nos últimos dois anos, o que também foi verificado pela DW. Em uma pesquisa recente, 54% dos palestinos em Gaza afirmaram que a decisão do Hamas de lançar seu ataque em Israel em 7 de outubro de 2023 não foi correta.
A narrativa que equipara todos os palestinos ao Hamas é usada indevidamente para justificar punições coletivas, o que viola o direito internacional, afirma El Idrissi. Uma pesquisa realizada pelo Accord Center em agosto de 2025 com cidadãos israelenses revelou que 62% dos entrevistados concordavam com a afirmação de que "não há inocentes em Gaza".
Ambos os especialistas entrevistados pela DW afirmam que uma das consequências é que as mortes de civis em Gaza são frequentemente minimizadas e, portanto, subnotificadas pela mídia. Abukhater dá um exemplo: "Quando um carro ou uma tenda em Gaza é bombardeado ou alvejado, alguém diz que talvez houvesse um membro do Hamas naquele veículo em que cinco crianças foram mortas."
Desinformação e racismo: aliança perigosa
O preconceito antipalestino é alimentado pela cobertura racista da mídia, que, por sua vez, promove o preconceito antipalestino, afirmam os especialistas entrevistados. A pesquisadora palestina Hanan Sahmoud destaca como a mídia europeia frequentemente desumaniza e "retrata os palestinos como selvagens".
Isso é visto com frequência em comentários em notícias sobre Gaza compartilhadas nas redes sociais. A DW também observou isso em suas contas nas redes sociais.
Os especialistas concordam que essa desumanização reduz a empatia pelos outros. "Tudo isso leva ao que é conhecido como uma ‘empathy gap‘ (em português, lacuna de simpatia), que, por sua vez, leva à justificativa do tratamento desigual", disse El Idrissi.
Há também exemplos de autoridades israelenses proeminentes usando terminologia desumanizadora para descrever os palestinos. Dois dias após os ataques de 7 de outubro de 2023, Yoav Gallant, então ministro da Defesa de Israel, disse: "Ordenei um cerco total à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, comida ou combustível. Tudo está fechado. Estamos lutando contra animais humanos e agimos de acordo."
A desumanização e a propaganda andam de mãos dadas, disseram os especialistas entrevistados pela DW, apontando para as campanhas de desinformação sobre a fome em Gaza em meados de 2025. Embora ambos os lados tenham sido acusados de espalhar desinformação, a pesquisa da DW constatou que o volume e a escala do conteúdo enganoso por parte de Israel foram maiores.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que não havia fome em Gaza e que as crianças apenas aparentavam estar desnutridas devido a doenças preexistentes, e não porque seu governo estivesse bloqueando a entrada de ajuda humanitária e alimentos em Gaza.
Algumas fotos amplamente divulgadas de fato retratavam crianças com graves problemas de saúde subjacentes, mas médicos e especialistas em nutrição afirmaram que a escassez de alimentos agravou seus problemas de saúde preexistentes.
Falta de fontes independentes
Jornalistas internacionais têm tido o acesso à Faixa de Gaza negado desde o início da guerra. Isso faz com que a mídia mundial dependa fortemente do Hamas, por um lado, e do exército e governo israelenses, por outro, sem a capacidade de verificar de forma independente as alegações feitas por qualquer um dos lados ou de acessar fontes locais de informação em Gaza.
Uma análise de quase 4.853 manchetes da imprensa alemã entre 7 de outubro de 2023 e 19 de janeiro de 2025 mostra que muitos dos principais meios de comunicação do país se baseiam principalmente ou exclusivamente em fontes oficiais israelenses em sua cobertura do Oriente Médio.
Um exemplo é a morte, em agosto, do jornalista Anas Al-Sharif, de 28 anos. O exército israelense alegou, sem apresentar provas, que ele liderava uma célula do Hamas. Vários meios de comunicação alemães repetiram essa alegação como fato, apesar da falta de provas.
Ao ser confrontado com as provas apresentadas pelas Forças de Defesa de Israel (FDI), o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) divulgou um comunicado afirmando que "não considera dignas de crédito as imagens das redes sociais [...] que claramente não são documentos originais. As FDI têm um histórico de fazer alegações infundadas de que muitos dos jornalistas que assassinaram deliberadamente em Gaza eram terroristas."
Redes sociais
As redes sociais também desempenham um papel importante na disseminação de conteúdos contrários aos palestinos. Desinformação apela às emoções, e os algoritmos muitas vezes promovem conteúdos de direita e extremistas em busca de engajamento. "Sabemos que conteúdos de extrema direita ou extremistas são impulsionados pelo algoritmo", afirma El Idrissi.
Além disso, as plataformas de redes sociais disseminam também propaganda paga. Uma pesquisa realizada pela equipe de verificação de fatos da DW e membros da European News Spotlight em setembro revelou que o Estado de Israel gastou pelo menos 42 milhões de euros (cerca de US$ 49 milhões) em propaganda antipalestina.
Em 22 de agosto, a ONU anunciou que grandes partes da Faixa de Gaza estavam sofrendo com uma "fome provocada pelo homem" e que "a fome está presente e se espalhando rapidamente". A Agência de Publicidade do Governo Israelense lançou uma nova campanha negando a fome.
Um relatório da 7amleh mostra que os sistemas de publicidade da Meta aprovaram e lucraram com conteúdo violento e incitador em 2023 e 2025, aceitando-o como publicidade paga.
O que pode ser feito?
O que a sociedade pode fazer para combater a propaganda antipalestina e o racismo? Para o pesquisador Abukhater, é fundamental que as pessoas deem espaço aos palestinos para que eles contem suas próprias histórias. "Em muitos meios de comunicação, fala-se frequentemente sobre os palestinos, mas os próprios palestinos não têm voz", diz.
Além de uma melhor representação, os meios de comunicação também devem questionar preconceitos pessoais e estruturais. "Deve-se discutir mais sobre o racismo contra os palestinos, reconhecendo-o como um conceito, abordando sua semântica e examinando como ele é geralmente usado para desumanizar e acusar todos os palestinos", conclui Abukhater.
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