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"Crianças brincavam de contar cadáveres"

Klaus Krämer md
17 de abril de 2018

Em entrevista, historiadora conta o que a motivou a organizar uma exposição sobre a vida de menores no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Lugar foi destino final de 600 crianças, entre elas Anne Frank.

Ausstellung "Kinder im KZ Bergen-Belsen
Campo de concentração de Bergen-BelsenFoto: Stiftung niedersächsische Gedenkstätten/J. Denzel

Um aspecto pouco abordado quando se fala nos antigos campos de concentração nazistas é tema de uma exposição na Alemanha. A mostra Crianças no Campo de Concentração de Bergen-Belsen foi inaugurada nesta segunda-feira (16/04) no Memorial de Bergen-Belsen, no norte do país, e permanece em cartaz até 30 de setembro.

Para a exposição, a historiadora e curadora Diana Gring conduziu, ela mesma, muitas das 120 entrevistas com ex-detentos do lugar onde Anne Frank morreu, aos 15 anos de idade. Os depoimentos com os que foram presos quando crianças, colhidos ao longo de anos, fazem parte da mostra.

Em entrevista à DW, a historiadora diz que menores de idade são geralmente relegados a segundo plano em estudos e projetos sobre o Holocausto, porque, em geral, deixavam menos vestígios do que adultos. "Uma criança que chegava a Auschwitz ou Treblinka era selecionada e quase sempre morta imediatamente", ressalta. 

DW: Esta é sua primeira curadoria de uma exposição exclusivamente sobre as crianças em um campo de concentração alemão. Como isso aconteceu?

"Algumas crianças ficavam totalmente sozinhas no campo quando os pais morriam", conta a historiadora Diana GringFoto: Stiftung niedersächsische Gedenkstätten/W. Musterer

Diana Gring: O começo está nos anos 90. Naquela época, Thomas Rahe, nosso diretor científico, iniciou a primeira pesquisa sobre crianças no campo de concentração de Bergen-Belsen e estabeleceu os primeiros contatos com os sobreviventes.

Em geral, o tema é pouco representado em muitos memoriais e em pesquisas científicas. As crianças quase não tinham chance no processo de extermínio nazista. Uma criança que chegava a Auschwitz ou Treblinka era selecionada e quase sempre morta imediatamente.

Esse tema "crianças num campo de concentração" quase não foi cientificamente pesquisado. Nos últimos anos, fomos coletando fontes históricas e itens para uma exposição sobre crianças. Tivemos muito contato com sobreviventes e, através de um projeto de entrevistas em vídeo, coletamos mais de 120 depoimentos de pessoas que estiveram em Bergen-Belsen quando eram crianças.

DW: Qual a impressão que essas entrevistas em vídeo transmitem sobre a vida das crianças no campo de concentração?

Diana Gring: Uma impressão bastante variada, porque depende de muitos fatores: em que momento ela chegava ao campo, a que grupo perseguido ela pertencia, onde ela fora capturada anteriormente e quantos anos tinha. E também, é claro, importa se a criança era deportada para o campo sozinha ou com a mãe, com a família, com um grupo. Algumas ficavam totalmente sozinhas no campo quando os pais morriam.

DW: Em Bergen-Belsen havia cerca de 3.500 crianças com menos de 15 anos. Que tipo de crianças elas eram e de onde vinham?

Diana Gring: Em Bergen-Belsen havia um total de 120 mil prisioneiros de toda a Europa ocupada pela Alemanha. Por isso, havia crianças vindas de muitos países diferentes, por exemplo da Holanda, Polônia, Hungria, França. A maioria delas era de perseguidos judeus. Também havia crianças que pertenciam a grupos de ciganos e também filhos de pais que eram perseguidos politicamente.

DW: A senhora pode destacar o destino de uma criança como exemplo?

Diana Gring: Há um exemplo da Holanda: Lous Steehuis-Hoepelman é o nome dela. Ela nasceu em 1941 numa família judia em Amsterdã. Seus pais não eram judeus praticantes, eram comunistas e militantes da resistência política. Quando começaram as deportações de judeus na Holanda ocupada pelos alemães, eles queriam proteger a criança de três anos, doando a menina a uma família adotiva não judia.

A criança foi denunciada, presa e levada para a prisão sozinha. E, de lá, para o campo de trânsito de Westerbork. Lous entrou em um grupo de órfãos. De Westerbork, foi enviada para Bergen-Belsen e, depois, para o campo de concentração de Theresienstadt, onde foi libertada.

Ela conseguiu sobreviver por causa de circunstâncias favoráveis e porque havia pessoas que cuidavam de órfãos. Ela tem uma boneca de pano dessa época, que guardou até hoje. Há uma réplica dessa boneca na exposição.

DW: Como a senhora mostra a vida das crianças no campo de concentração de Bergen-Belsen aos visitantes da exposição?

Diana Gring: Em geral, crianças quase não deixam vestígios, diferentemente dos adultos do campo de concentração. Mas conseguimos coletar muitas peças para a exposição através dos contatos com sobreviventes: objetos, desenhos, poemas. Tentamos, com eles, representar algo da situação de vida das crianças no campo.

A parte central da exposição foi construída de tal forma que existem cinco blocos temáticos. Eles descrevem como as crianças eram acomodadas, por que agrupamentos sociais elas transitavam, como era seu estado psíquico, quais fatores eram ameaçadores à vida delas – como violência, fome. Também representamos coisas como aulas escolares e jogos.

DW: De que as crianças brincavam no campo de concentração?

Diana Gring: Eles faziam o que as crianças fazem em todo o mundo: reencenavam o mundo ao seu redor. Elas brincavam de nazistas e judeus ou contavam cadáveres que estavam empilhados em frente ao seu barracão. Isso era difícil, porque muitas vezes os corpos ficavam parcialmente entrelaçados uns nos outros. A descrição de como era a situação das crianças no acampamento, deixamos em grande parte aos próprios sobreviventes.

Temos esse grande tesouro das 120 entrevistas, em que muitos episódios são descritos – como o momento em que o pai morria ao lado delas na cama, como elas lidaram com a fome, ou o que lhes dava esperança.

DW: A sua exposição mostra fotos, documentos, lembranças das crianças que sobreviveram. Qual peça tem significado especial para a senhora?

Diana Gring: Assim, sem pensar muito, eu diria que é a foto de um bebê. Era Henriette Hamburger, que tinha dez meses quando morreu aqui. Ela sorri para a câmera. É a única foto deixada para a família dela. É a que mais me impressiona. Também mostramos um capítulo que lembra as cerca de 600 crianças que foram mortas aqui.

DW: Havia em Bergen-Belsen um chamado campo de troca, onde os nazistas mantinham as famílias como reféns. É por isso que um número desproporcional de crianças sobreviveram nesse campo. Como a experiência no acampamento marcou as vidas delas?

Diana Gring: O fato de que as crianças puderam sobreviver aqui é atribuído definitivamente ao fato de que Bergen-Belsen consistia em várias partes e também, em grande medida, porque os detidos e as famílias eram mantidos como reféns. A questão de como as crianças sobreviventes lidaram com a experiência do acampamento é ampla. Há pessoas, as chamadas child survivors, que quase nunca falaram sobre isso, que tiveram que aprender a entenderem a si mesmas, interna e externamente, em um processo que durou décadas. Às vezes, elas sequer conhecem sua identidade.

Temos um sobrevivente que foi libertado em Bergen-Belsen quando tinha dois anos e meio e que não sabe nada sobre sua identidade, que passou a vida tentando descobrir de onde veio. Então, depende muito de como era a situação da criança após a Segunda Guerra Mundial, se pais ou parentes sobreviveram, se elas eram órfãos e se foram acolhidas por um orfanato.

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