1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
ConflitosÍndia

Crise entre Índia e Paquistão escala após ataque na Caxemira

24 de abril de 2025

Nova Délhi revoga vistos de paquistaneses e rompe tratado de compartilhamento da água do rio Indo. Rejeitando envolvimento em atentados, Paquistão fecha espaço aéreo e acusa país vizinho de promover "ato de guerra".

Pessoas protestam contra Índia no Paquistão
Índia lançou operação para encontrar agressores, acusando Paquistão de financiar "terrorismo transfronteiriço". Paquistaneses protestam contra retaliação indianaFoto: Anjum Naveed/AP Photo/picture alliance

As tensões entre a Índia e o Paquistão aumentaram nesta quinta-feira (24/04), dois dias após homens armados atirarem contra turistas na Caxemira indiana. A nova crise diplomática volta a colocar as duas potências nucleares à beira de um conflito pelo controle da região de maioria muçulmana. 

O estopim da disputa aconteceu na terça-feira, quando o atentado reivindicado por um grupo rebeldematou 26 pessoas, o pior ataque contra civis na Índia desde os tiroteios de 2008 em Mumbai.

Segundo testemunhas, os agressores perguntavam a turistas sua religião. Se a vítima não soubesse recitar versos do islamismo, era baleada. O atentado fugiu à regra de outros embates na região, pois mirou civis, e não forças de segurança.

O governo do primeiro-ministro Narendra Modi afirma que o ataque foi perpetrado por três homens, incluindo dois paquistaneses, e acusa diretamente o país vizinho de "promover terrorismo transfronteiriço". O Ministério das Relações Exteriores indiano ordenou que todos os cidadãos paquistaneses deixem a Índia até 29 de abril. A decisão não apenas suspende o processamento dos novos vistos, mas também cancela as autorizações já concedidas.

"Na esteira do ataque terrorista em Pahalgam, o governo da Índia decidiu suspender os serviços de visto para cidadãos paquistaneses com efeito imediato", anunciou a pasta nesta quinta-feira. "Todos os cidadãos paquistaneses que estão atualmente na Índia devem deixar o país." A suspensão é a mais recente medida tomada por Nova Délhi na nova deterioração das relações exteriores entre os dois países.

Na quarta-feira, a Índia já havia suspendido um tratado de 1960 que permite o compartilhamento da água do rio Indo com o Paquistão, e decidiu fechar sua única passagem fronteiriça terrestre com a nação vizinha. A medida afeta fortemente a economia paquistanesa, que depende do comércio transfronteiriço, e pode provocar escassez de água no país.

Fechamento de única fronteira terrestre afeta economia paquistanesaFoto: Narinder Nanu/AFP

Paquistão fecha espaço aéreo

Horas após Modi prometer encontrar e punir os extremistas que assassinaram os turistas na Caxemira indiana, o Paquistão retaliou nesta quinta-feira as sanções fechando seu espaço aéreo para companhias aéreas indianas. O governo suspendeu as relações comerciais com a Índia, inclusive por meio de países terceiros, e interrompeu a emissão de vistos especiais para cidadãos indianos.

O ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, desafiou a Índia a fornecer qualquer indício que ligue seu país ao ataque de terça-feira: "A Índia tem repetidamente apelado para o jogo da culpa. Se houver provas do envolvimento do Paquistão no incidente de Pahalgam, pedimos que as compartilhem conosco e com a comunidade internacional."

O governo paquistanês também suspendeu acordos bilaterais com o país vizinho, incluindo o Acordo de Simla de 1972, até que Nova Délhi desista de "fomentar o terrorismo dentro do Paquistão", disse o gabinete do primeiro-ministro do Paquistão em comunicado. Simla estabelece princípios que devem reger as relações bilaterais, incluindo o respeito a uma linha de cessar-fogo na Caxemira.

Para Paquistão, fim de Tratado sobre água é "ato de guerra"

Islamabad disse ainda que "rejeita veementemente" a suspensão do Tratado das Águas do Indo de 1960, e que qualquer tentativa de impedir ou desviar a água será considerada um "ato de guerra e será respondida com força total."

O tratado, mediado pelo Banco Mundial, divide o rio Indo e seus afluentes entre os vizinhos e regulamenta o compartilhamento da água. Até o momento, ele resistiu até mesmo às guerras travadas entre os dois países.

O Paquistão depende dessa água para manter sistemas de irrigação e de produção de energia hidrelétrica. A suspensão do tratado permitiria que a Índia impedisse a chegada do fluxo fluvial ao Paquistão.

A investida da Índia na Caxemira

10:53

This browser does not support the video element.

De acordo com a agência de notícias Reuters, a suspensão do tratado não deve ter um efeito imediato, já que a Índia não tem capacidade de armazenamento suficiente para reter o rio. A chancelaria indiana afirmou que não retomará a cooperação até que o país vizinho "renuncie de forma irrevogável ao seu apoio ao terrorismo transfronteiriço".

Segundo Maria Sultan, analista de defesa residente em Islamabad, a suspensão do tratado sobre a água por parte da Índia equivale a uma "séria intimidação": "A água é uma linha vermelha, e a violação do Tratado das Águas do Indo ou qualquer esforço para reduzir o abastecimento de água do Paquistão será considerado um ato de guerra." 

Para o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, a Índia está "travando uma guerra de baixa intensidade contra nós e, se aumentar a escala, estaremos prontos. Para proteger nossa terra não sofreremos nenhuma pressão internacional."

Caxemira em disputa

Índia e Paquistão já protagonizaram três guerras em sua história, duas delas pela Caxemira – território que ambos reivindicam em sua totalidade, mas controlam apenas parcialmente. Os dois possuem armas nucleares.

Familiares protestam contra morte de turistas na CaxemiraFoto: DW

A Caxemira também é disputada por grupos rebeldes que querem a independência da região de maioria muçulmana. Militantes da Frente de Resistência (TRF), uma célula radical ligada ao Lashkar-e-Taiba, assumiram responsabilidade pelo ataque.

A Índia sempre acusou o Paquistão de financiar grupos insurgentes na Caxemira, mas Islamabad afirma que apenas oferece apoio diplomático às demandas por autodeterminação. Milhares foram mortos na região desde o início da revolta, em 1989. O conflito voltou a se intensificar após a Índia revogar a autonomia da região.

gq/av (Reuters, AFP, DW)