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A 'Rota' de Deborah Colker

Augusto Valente21 de julho de 2007

A coreógrafa carioca Deborah Colker está em turnê pela Alemanha. A DW.WORLD.DE a entrevistou na Filarmônica de Colônia, onde sua Companhia da Dança se apresenta com enorme sucesso.

A roda gigante de 'Rota'Foto: DW/Augusto Valente

Após a recepção ambivalente de Maracanã no ano da Copa, a dançarina e coreógrafa superstar Deborah Colker está de volta à Alemanha. Desta vez, também dançando, ao lado da companhia que fundou em 1994.

Para as apresentações em Colônia e Berlim, a carioca escolheu Rota, de 1997, trabalho com o qual já fez diversas turnês de sucesso. Apesar dos dez anos transcorridos, Colker acredita que o espetáculo se mantém atual, justamente por ser vigoroso e "para cima", num momento em que a humanidade "está cada vez pior".

DW-WORLD.DE: O ser humano está mesmo cada vez pior?

Deborah Colker na Filarmônica de ColôniaFoto: DW/Augusto Valente

Deborah Colker: Não sei, mas acho que a gente está vivendo tempos difíceis. Vou falar bem ingenuamente: se você pensar que estamos em 2007, que já passamos por uma Primeira Guerra, uma Segunda Guerra... Ainda estar vivendo um Iraque, ainda ter uma África, com gente morrendo de fome! No Brasil, gente sem dignidade nenhuma, morrendo ao seu lado. Para mim, isso é inconcebível.

Era de se esperar que o ser humano tivesse evoluído?

Eu acho, eticamente falando. Sabe, às vezes parece meio final dos tempos! Tem gente que discorda, acha que o mundo está evoluindo, que o Brasil está melhorando. Eu não acho, não. Ainda ter esse desconhecimento... é uma intolerância total... as religiões são de uma intolerância... As condições de vida das pessoas...!

Agora, o mundo está progredindo também, em muitas coisas. Cientificamente, artisticamente. É bom viver. Senão a gente estava se matando. Todo o mundo quer viver.

Então você atribuiria a Rota um caráter político – no sentido amplo do termo – por propor beleza, otimismo, em tempos tão ameaçadores?

Acho que sim. Na verdade tudo tem um contexto político. Eu não fiz a peça pensando nisso, mas ser artista é dar a cara a tapa, é se expor. Num momento em que estão discutindo o que é arte, qual é a função da arte, eu digo: a arte não tem função nenhuma! Quem tem função é o governo, é a educação, é a cultura! A arte não tem, a função da arte não existe. Você tem que ter liberdade, ter criatividade, tem que apontar para a frente. Tem que querer melhorar o mundo, as pessoas, essa é a função. Então, [na arte] as regras são diferentes.

A Companhia de Dança: coreógrafa é a quarta da esquerda para a direitaFoto: DW/Augusto Valente

Muita gente tenta contextualizar a arte. Há quem diga que o Rota é deslumbrante, é lindo, mas é superficial, porque não traz as tragédias do mundo. Gente, se tudo que é artista falar de tragédia, fome, pobreza, dor...! O espetáculo que eu fiz em 2005 [], por exemplo, fala sobre a dor, a dor do desejo, sobre a inevitabilidade do desejo, pois a gente não tem escolha. Tem coisas na vida em que a gente não tem escolha: você nasce desejando. A vida é cruel, o ser humano é cruel. Essas potências que a gente tem dentro da gente...

Mas a gente tem a potência, também, da alegria, da esperança, do prazer. Por que eu não posso fazer um espetáculo sobre isso? Posso! E fiz. E acho que isso não é muito moda, principalmente aqui na Europa.

Aqui lhe cobram mais profundidade, mais peso?

Às vezes cobram, às vezes não; às vezes entendem. Por exemplo, muita gente acha que a companhia é atlética, circense, não sei o quê. Mas são todos bailarinos vindos do mundo clássico, do contemporâneo, do jazz. Bota essa gente no circo, não dá em nada. É o meu trabalho que mistura, que tem esse fascínio por explorar o espaço. Eu tenho esse fascínio, cada espaço diferente me propõe uma coisa diferente: é a minha maneira de olhar a dança.

Continue lendo: Deborah Colker fala sobre Rota, o público alemão e sobre seus planos para a próxima peça.

Os diferentes cenários dos dois atos parecem evocar um jogo de conceitos, um "trocadilho de imagens". No primeiro ato, um aparente mapa (na realidade, um molde da revista alemã de moda Burda), portanto uma "rota", caminho potencial e dinâmico. No segundo, temos a roda gigante, rota em latim, que só gira sobre o próprio eixo, sem sair do lugar. Uma palavra, dois movimentos opostos. Houve mesmo essa intenção?

Segundo ato de 'Rota'Foto: DW/Augusto Valente

Houve, todas essas metáforas existem. Realmente, aquele primeiro cenário é um mapa de corte e costura, muitos acham que é o mapa das navegações. É que a idéia de se construir uma roupa é muito parecida com a de construir uma coreografia, ou de fazer uma comida. É uma alquimia, um artesanato. Por mais técnico que seja, é artesanato. Então Rota é isso. Muita gente acha que é por causa de roda, de rotação, como a rotação da Terra. Eu acho que é... tudo. Mas "tudo" assim: está na tua cabeça, na cabeça de quem [vê]. Para mim, "rota" é caminho, direção. E "roda" quer dizer roda.

A Companhia de Dança Deborah Colker já se apresentou pelo mundo inteiro. Cada público tem uma característica distinta? Por exemplo, o alemão em relação ao brasileiro? Você seria capaz de fechar os olhos e, só pela reação da platéia, dizer: "Estou em Cingapura"?

Não. Até porque isso não é definido por país. Às vezes, muda de uma cidade para a outra. Já fiz apresentações em várias cidades da Alemanha, não é sempre igual. Existe, um pouco, um público dos países mais frios e um dos países mais quentes, isso existe. No Brasil, a gente é uma companhia brasileira, então... Mas, especialmente com o Rota, o público é muito quente. Acho que é um espetáculo que estabelece essa comunicação.

Em 2006, você esteve na Alemanha com o espetáculo Maracanã, desenvolvido especialmente para a Copa do Mundo. Como compara a atual turnê com a anterior, em termos do país, das pessoas, das condições de apresentação?

Para mim é muito especial falar sobre isso, porque o Maracanã foi o primeiro espetáculo encomendado que eu fiz na minha vida. Não saiu da minha cabeça, nem de uma necessidade minha pessoal. E é muito difícil você fazer uma coisa encomendada. Ainda mais sobre o futebol, um assunto que eu não dominava tanto, embora já tendo feito um espetáculo sobre esporte. Então foi difícil. Mas foi super bacana. Maracanã teve as mais diferentes críticas, as mais diferentes receptividades. Era uma produção com bailarinos europeus misturados com brasileiros, eu tive muito pouco tempo. Rota é um espetáculo que é meu filho, meu, nasceu da minha barriga. Então, a produção aqui está super bacana, está funcionando tudo super bem. No Maracanã também funcionou tudo super bem.

A Alemanha tem tanto a facilidade da disciplina, profissional e tudo, como tem suas dificuldades pelo excesso de disciplina, também. Tem certas regras de segurança... às vezes é difícil lidar com isso. Às vezes, elas me ensinam, eu digo: "Está certo, eles estão certos, vamos prestar atenção". Às vezes, dá vontade de dizer: "Gente, não é assim, isso está amarrando. Vamos embora, vamos para a frente. Vocês estão brigando por uma coisa que nem sabem o que é!" Sabe, quando você respeita uma regra porque ela está ali há 200 anos? Aí, se alguém perguntar: "Vem cá, mas por que é que não pode?" "Hã? Não pode, não pode porque não pode." Então, acontece isso, um pouco.

Juventude, técnica e precisão absoluta diante de molde de 'Burda'Foto: DW/Augusto Valente

Mas eu respeito, porque sou uma pessoa que acredita muito na formação. Não é à toa que agora eu tenho, junto com a companhia, uma escola [no Rio de Janeiro]. E eu adoro isso, porque gosto de formar, gosto de estudar. Eu acho que o tempo, a história, isso é muito importante. E a Europa para mim é uma grande professora. A Alemanha também, se a gente pensar em filosofia, em música, se pensar em muitas coisas. Então é inegável. Eu tenho muitos ídolos que estão por aqui.

Por exemplo?

Deixa eu ver: Kraftwerk [risos], Pina Bausch (uma deusa, imagina!), na música, temos Beethoven (nossa, não preciso falar mais nada!), Wagner. E Nietzsche.

Você já tem uma nova produção "no forno"?

Tenho, estou fazendo um espetáculo novíssimo, que está mexendo muito comigo. Segue a trajetória do , que falou sobre o desejo, sobre a ausência de escolha (a gente nasce desejando!), sobre as relações de dominação, de poder. Acabamos de citar o cara, o Nietzsche: as potências e as forças que há dentro da gente!

Então, seguindo esse caminho, o assunto que está mexendo comigo é a crueldade, é o olhar cruel. A gente estava falando se o ser humano é pior ou não: acho que não se trata disso. Acho que é olhar para o ser humano e ver essas potências, essas forças que há dentro dele. E o movimento: eu acho que o mundo se movimenta assim, internamente e exteriormente também. Então é um espetáculo sobre isso. É muito intenso, muito diferente de Rota. Vamos ver! Estréia em abril do ano que vem.

Já tem um título?

Não. Por enquanto, Crueldade. Eu passo no caminho da ilusão do amor, entro na família, entro no grande trabalho que se tem na vida, que é olhar a si mesmo. Que é o momento mais cruel, quando você se olha no espelho. "Aqui estou eu. E agora?" Então, é isso!

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A Companhia de Dança Deborah Colker participa do 20º Festival de Verão de Colônia, de 20 a 29 de julho de 2007. O público aplaudiu longamente a estréia de Rota na Filarmônica da cidade. Colker se apresenta também no Admiralspalast de Berlim, de 3 a 12 de agosto.

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