Crise populacional encolhe Exército da Coreia do Sul
18 de agosto de 2025
Com número de homens jovens em queda, Coreia do Sul viu seu contingente de militares encolher 20% nos últimos seis anos. Ministério da Defesa afirma que déficit já vem causando problemas para recrutar suboficiais.
Militares sul-coreanos nos arredores da fronteira com o NorteFoto: picture-alliance/newscom/K. Mori
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O contingente das Forças Armadas da Coreia do Sul encolheu 20% nos últimos seis anos, caindo de 563 mil para 450 mil militares, em grande parte devido à forte queda no número de homens em idade de alistamento obrigatório no país, que enfrenta uma grave crise demográfica, em decorrência da baixa taxa de natalidade e rápido envelhecimento da população.
A queda acentuada no número de homens aptos para o serviço militar também está causando déficit no número de oficiais e suboficiais e pode resultar em dificuldades operacionais se a tendência continuar, informou o Ministério da Defesa da Coreia do Sul em um relatório divulgado neste mês de agosto.
O documento foi elaborado após uma solicitação da congressista Choo Mi-ae, do governista Partido Democrata (PD), que divulgou o relatório à imprensa.
O exército sul-coreano vem diminuindo de forma constante desde o início dos anos 2000, quando chegou a contar com cerca de 690 mil militares. O ritmo de redução acelerou no fim da década de 2010 e, em 2019, o exército já contava com cerca de 563 mil militares da ativa e oficiais.
Entre 2019 e 2025, a população masculina com 20 anos na Coreia do Sul - — idade em que a maioria dos que passam no exame físico se alista para o serviço militar - caiu 30%, chegando a 230 mil. Atualmente, o serviço tem duração de 18 meses. Homens aptos serviam 36 meses em 1953, quando a Guerra da Coreia terminou.
Já a vizinha e rival Coreia do Norte possui um exército de cerca de 1,2 milhão de soldados na ativa, de acordo com uma estimativa do Ministério da Defesa sul-coreano feita em 2022.
No entanto, segundo especialistas, isso não significa necessariamente que as Forças Armadas da Coreia do Norte estejam em uma situação mais confortável. O Norte, por exemplo, enfrenta seus próprios problemas de declínio na taxa de natalidade. Além disso, sua tecnologia está muito atrás da do Sul.
O orçamento de defesa da Coreia do Sul, que foi de mais de 61 trilhões de wons (US$ 43,9 bilhões) em 2025, é maior que o tamanho estimado de toda a economia da Coreia do Norte.
Soldados norte-coreanos. Vizinho do Norte tem exército maior, mas gasta menos e está bem atrás em matéria de tecnologiaFoto: picture-alliance/dpa/Kcna
Ainda assim, o exército sul-coreano tem um déficit de 50 mil soldados em relação ao número considerado adequado para manter a prontidão de defesa, segundo o ministério. Já entre os suboficiais, como sargentos, o déficit chega a 21 mil.
A Coreia do Sul é uma das sociedades que mais envelhecem no mundo e tem a menor taxa de fecundidade global: 0,75 em 2024, que representa o número médio de filhos que uma mulher deve ter ao longo da vida reprodutiva. Normalmente, são necessários 2,1 nascimentos por mulher necessários para manter uma população estável.
Para efeito de comparação, a taxa de fecundidade registrada no último Censo no Brasil foi de 1,6 por mulher.
O número de cidadãos de etnia coreana no país caiu 0,2% em 2024 em relação ao ano anterior, para 49,76 milhões, marcando o quarto ano consecutivo de queda. A queda geral na população só não foi maior por causa de cerca de 2 milhões de imigrantes que residem no país. O envelhecimento da população também tem avançado, com quase 1 em cada 5 sul-coreanos tendo 65 anos ou mais.
A população sul-coreana, que atingiu o pico de 51,8 milhões em 2020, arrisca cair para 36,2 milhões até 2072, de acordo com projeções.
Guerra da Coreia, 70 anos depois
Combates na península coreana duraram mais de três anos. De um lado, o sul, apoiado pela ONU. Do outro, o norte, reforçado por China e URSS. Guerra acabou em 1953, com milhões de mortos e a divisão das Coreias cimentada.
Foto: AP
Fronteira da Guerra Fria
Em 27 de julho de 1950, as tropas da comunista Coreia do Norte atravessam o Paralelo 38, iniciando uma verdadeira campanha de ocupação. Em poucos dias, praticamente todo o país estava sob seu controle. É o início de uma guerra que durará 37 meses, custando 4,5 milhões de vidas humanas, segundo certas estimativas.
Foto: AFP/Getty Images
Antecedentes
Depois de ser ocupada pelo Japão de 1910 a 1945, a Coreia estava dividida desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O território acima do 38º paralelo norte ficou sob controle soviético, o do sul, na mão dos EUA. Em agosto de 1948, Seul proclama a República da Coreia. Em reação, o general Kim Il-sung cria no norte a República Popular Democrática da Coreia, em 9 de setembro do mesmo ano.
Foto: picture-alliance / akg-images
Reforço da ONU
Seguindo o avanço dos norte-coreanos sobre o Paralelo 38, a partir de julho de 1950 as Nações Unidas decidem dar apoio militar à Coreia do Sul, por pressão dos EUA. São enviados para a península 40 mil soldados de mais de 20 países, entre os quais 36 mil norte-americanos. A sorte parece ter virado: logo os Aliados conseguem ocupar quase todo o país.
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Codinome Operação Chromite
Em 15 de setembro de 1950, tropas ocidentais sob o comando do general Douglas MacArthur desembarcam perto da cidade portuária de Incheon, no sudoeste, capturando uma base central de suporte do Norte. Pouco depois, Seul está novamente na mão dos Aliados, que em outubro também ocupam Pyongyang. O fim da guerra parece próximo. Mas aí a China envia tropas de apoio aos norte-coreanos.
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Ajuda de Mao
Em meados de outubro iniciava-se a intervenção chinesa. De início, a ajuda parte apenas de unidades de pequeno porte. No final do mês ocorre a primeira mobilização em grande escala na Coreia do Norte do "exército de voluntários" de Mao. Em 5 de dezembro, Pyongyang – única capital comunista ocupada por tropas ocidentais durante a Guerra Fria – está novamente nas mãos de norte-coreanos e chineses.
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Pró e contra a bomba atômica
Em janeiro de 1951 começa uma grande ofensiva da Coreia do Norte, com apoio chinês. Cerca de 400 mil chineses e 100 mil norte-coreanos forçam as tropas aliadas a recuar fortemente. Em abril, o general MacArthur é destituído de seu posto, depois que o presidente Harry Truman lhe ordenara usar bombas atômicas contra a China. Seu sucessor é o general Matthew B. Ridgway.
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Guerra de exaustão
Em meados de 1951, mais ou menos na altura da linha de demarcação que separava o Norte e o Sul antes da guerra, as forças oponentes chegam a um impasse. A partir daí, começa uma encarniçada guerra de exaustão, que durará até o fim das operações de combate, dois anos mais tarde – embora as negociações de paz já tivessem sido iniciadas em julho de 1951.
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Batalha de ideologias
O conflito entre as Coreias é considerado a primeira "guerra por procuração" entre o Ocidente capitalista e o Oriente comunista. A maior parte dos soldados lutando nas tropas da ONU vinha dos Estados Unidos. No lado oposto, os norte-coreanos contaram com o reforço de centenas de milhares de chineses e russos.
Foto: AFP/Getty Images
Coreia do Norte em ruínas
Desde o início, foi uma guerra de ataques aéreos e bombardeios. Durante os três anos de combates, as forças aéreas das Nações Unidas realizaram mais de 1 milhão de operações. Ao todo, os americanos lançaram cerca de 450 mil toneladas de bombas, inclusive de napalm, sobre a Coreia do Norte. A destruição foi extensa: ao fim da guerra, quase todas grandes cidades estavam arrasadas.
Foto: AFP/Getty Images
Estimativas conflitantes
Quando, em 1953, as tropas aliadas se retiram da península coreana, o saldo é de milhões de mortos. Os dados sobre o número de soldados caídos são conflitantes. Calcula-se que morreram cerca de meio milhão de militares coreanos, assim como 400 mil chineses. Os Aliados registram 40 mil vítimas, 90% delas americanos.
Foto: Keystone/Getty Images
Troca de prisioneiros
Ainda durante os combates, de meados de maio a início de abril de 1953, ocorreu a primeira troca de presos entre os dois lados. Até o fim do ano, mais detentos seriam repatriados. A ONU devolveu mais de 75 mil norte-coreanos e quase 6.700 chineses. O outro lado soltou 13.500 pessoas, entre as quais 8.300 sul-coreanos e 3.700 soldados dos EUA.
Foto: Keystone/Getty Images
Cessar-fogo
Após mais de dois anos, as negociações de cessar-fogo iniciadas em 10 de julho de 1951 culminam no Armistício de Panmunjom. A divisão da península está sedimentada: o 38º paralelo norte é definido com fronteira entre as Coreias do Norte e do Sul. Mas como um tratado de paz nunca foi assinado, do ponto de vista do direito internacional os dois países se encontram até hoje em estado de guerra.
Foto: AFP/Getty Images
Terra de ninguém
O idílio na cidade fronteiriça de Panmunjom é enganoso. Até hoje, a fronteira ao longo do Paralelo 38 é a mais rigorosamente vigiada do mundo. Ao longo da linha estipulada no acordo de armistício de 1953, o Norte e o Sul são separados por uma zona desmilitarizada de cerca de 250 quilômetros de extensão e 4 quilômetros de largura. Aqui, soldados de ambos os lados se defrontam diariamente.