Ministro israelense reagiu de maneira hostil após líder alemão alertar contra possível anexações israelenses de áreas palestinas na Cisjordânia ocupada, num sinal de um crescente distanciamento entre os dois países.
Após uma conversa telefônica com Benjamin Netanyahu, Merz se manifestou contra a anexação "de facto" da Cisjordânia por Israel Foto: Michael Kappeler/dpa/picture alliance
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No início desta semana, quando o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, falou por telefone com o primeiro‑ministro israelense, Benjamin Netanyahu, parecia se tratar de mais um expediente rotineiro entre líderes mundiais.
Depois da conversa, o porta‑voz de Merz, Stefan Kornelius, divulgou um comunicado à imprensa sobre a ligação. As duas frases finais diziam: "Na conversa, o chanceler expressou sua profunda preocupação com os desdobramentos nos territórios palestinos. Não pode haver anexação parcial 'de facto' da Cisjordânia."
O chanceler federak compartilhou a mesma mensagem em sua conta na plataforma X, em alemão e em inglês: "Deixei claro: não pode haver anexação 'de facto' da Cisjordânia."
Nada disso é realmente novo. Após uma ligação entre os dois chefes de Estado em meados de julho de 2025, por exemplo, o governo alemão informou: "O chanceler enfatizou que não pode haver passos em direção a qualquer anexação da Cisjordânia", deixando claro que se opunha a qualquer ação unilateral israelense.
Berlim continua a apoiar uma solução de dois Estados para israelenses e palestinos. O governo israelense, no entanto, já havia deixado essa solução de dois Estados de lado muito antes dos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Escalada verbal
Desta vez, porém, o alerta alemão foi seguido por uma escalada verbal, com o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, criticando Merz de forma dura nas redes sociais.
"Os dias em que alemães ditavam aos judeus onde era permitido ou proibido viver acabaram e não voltarão. Vocês não vão nos forçar novamente a viver em guetos, certamente não em nossa própria terra", escreveu o político de extrema direita de 46 anos na rede X na noite de segunda‑feira (13/04), em resposta à publicação do líder alemão.
Smotrich, neto de sobreviventes do Holocausto, é um dos vários políticos de extrema direita no gabinete de Netanyahu. Ele nasceu nas Colinas de Golã, ocupadas por Israel, e hoje vive numa colônia na Cisjordânia palestina, também sob ocupação de Israel.
Smotrich tem chamado a atenção não apenas por declarações racistas, xenófobas e homofóbicas, mas por se posicionar algumas vezes contra a Suprema Corte de Israel.
Com as eleições parlamentares israelenses previstas para o segundo semestre, ele busca se diferenciar politicamente de Netanyahu.
Smotrich divulgou sua declaração na véspera do Yom HaShoah, o Dia da Lembrança do Holocausto em Israel, quando o país para em memória aos 6 milhões de judeus assassinados pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Smotrich fez alusão a esse dia em sua crítica a Merz, mencionando os guetos e encerrando com as palavras "Am Yisrael Chai" — "O povo de Israel vive".
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Embaixador israelense em Berlim apoia Merz
Numa tenativa de botar panos quentes, o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor, rebateu Smotrich, chamando Merz de um "grande amigo de Israel" em entrevista à emissora israelense Kan, na terça (14/04).
"É possível e totalmente legítimo discutir com os alemães — especialmente neste dia, que é muito emotivo", disse Prosor. Ele acrescentou, porém, que declarações como as feitas por Smotrich eram "exatamente o que mina a memória do Holocausto e apresenta as coisas sob uma luz completamente distorcida".
Prosor, que frequentemente rebate com veemência críticos de Israel nos debates alemães sobre as políticas israelenses, acusou Smotrich de instrumentalizar o assassinato em massa dos judeus.
O ataque sem precedentes de um ministro israelense ao chanceler federal alemão já havia sido sinalizado pouco mais de três semanas antes, durante um confronto semelhante. No fim de março, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, reagiu duramente a uma publicação no X de Steffen Seibert, embaixador da Alemanha em Israel.
Na publicação, Seibert mencionou, entre outras coisas, a violência de colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967.
Seibert, cujo mandato em Tel Aviv termina em alguns meses, não costuma ser um crítico da política israelense. Para o ex‑porta‑voz da ex-chanceler federal Angela Merkel, sua publicação sobre Israel parecia mais uma questão de convicção pessoal. Ele aprendeu hebraico e defendeu de forma contundente esforços para garantir a libertação dos reféns que foram sequestrados em Israel por terroristas do Hamas baseados em Gaza.
O ministro Bezalel Smotrich, um dos principais representantes de colonos radiciais que ocupam áreas da CisjordâniaFoto: Debbie Hill/UPI Photo/Newscom/picture alliance
Crescente distanciamento entre Alemanha e Israel
O que se desenrolou no X nas últimas semanas não é apenas um exemplo do tom inflamado típico das redes sociais — também reflete um distanciamento crescente entre Alemanha e Israel, que começou antes de 7 de outubro de 2023.
O primeiro exemplo é a falta de consultas governamentais recentes entre os dois países. Alemanha e Israel realizaram suas primeiras consultas governamentais em 2008. Naquele ano, Angela Merkel discursou no Knesset, o Parlamento israelense, para marcar o 60º aniversário da fundação de Israel — sendo a primeira chefe de governo alemã a fazê‑lo. E o fez em alemão.
Alguns parlamentares israelenses deixaram o plenário. Netanyahu, então líder da oposição, criticou até a presença de Merkel.
O formato dessas consultas governamentais — das quais participam os chefes de governo e todos os ministros — é visto como um sinal de cooperação excepcionalmente estreita. A Alemanha mantém esse tipo de consultas com cerca de uma dúzia de países. No entanto, a sétima e, até agora, última consulta germano‑israelense ocorreu em 2018, há oito anos. Apenas com a Rússia e a Turquia o intervalo sem consultas é mais longo.
Depois, em outubro de 2025, Merz distanciou‑se do termo "razão de Estado", que, no caso da Alemanha, se refere ao que membros da classe política chamam de "responsabilidade política especial" pela segurança de Israel, usado pelo menos desde uma declaração original de Merkel em 2008.
Merz disse ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung que sempre teve dificuldade com o termo, "porque todas as suas implicações nunca foram completamente explicitadas".
Desde então, a questão de como a Alemanha deveria definir concretamente sua responsabilidade em relação a Israel tem sido discutida com mais frequência, incluindo críticas à conduta de Israel na guerra em Gaza e debates sobre exportações alemãs de armas para Israel. A questão mais teórica de uma eventual participação alemã em uma força internacional de paz para Gaza, contudo, não foi debatida.
Por fim, Israel e Alemanha há muito tempo concordam em discordar sobre uma solução de dois Estados. Repetidamente, porta‑vozes do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha descrevem novos projetos de novas colônias israelenses na Cisjordânia ocupada como violações do direito internacional.
O governo israelense rejeita explicitamente a criação de um Estado palestino. Com as colônias israelenses em constante expansão, as possibilidades para um Estado palestino encontram cada vez mais entraves. As Nações Unidas também consideram as colônias israelenses um grande obstáculo a um acordo de paz.
Enquanto isso, civis palestinos são rotineiramente atacados e até mortos em ataques de colonos israelenses radicais, que não raro queimam suas casas e plantações.
Foi nesse contexto que Merz expressou sua preocupação, sendo prontamente atacado pelo ministro das Finanças israelense.
O governo israelense tem atacado a Alemanha por esta "invocar os direitos humanos básicos dos palestinos", abservou Mairav Zonszein, especialista em Israel do International Crisis Group, uma organização não governamental sediada em Bruxelas. "Eles fazem isso mesmo com o custo de alienar seu aliado europeu mais forte", complementou, em sua conta no X.
Zonszein pediu ao governo alemão que reconsiderasse sua postura em relação ao governo Netanyahu.
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Foto: REUTERS
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Foto: NASA/UPI Photo/Newscom/picture alliance
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Irã abate dois aviões militares dos EUA
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Foto: Ben Walker/CATERS/SIPA/picture alliance
Ucrânia inaugura escolas subterrâneas em meio à guerra
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Expectativa para o lançamento de missão que levará astronautas à Lua
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