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Cidades-satélites

21 de abril de 2010

O Plano Piloto desenhado pelo arquiteto Lúcio Costa continua soberano, mas a capital do Brasil que faz 50 anos nesta semana também é marcada por núcleos habitacionais que extrapolaram o projeto original.

Transporte é problema para quem não mora no Plano PilotoFoto: AP

No centro de Brasília está o Plano Piloto: delineado, construído para se tornar a sede do poder brasileiro. O entorno é marcado pela ocupação urbana que passou dos limites e não foi planejada por nenhum dos idealizadores da capital federal. Chamadas de cidades-satélites Brasil afora, esses 30 núcleos que cercam o Plano Piloto formam uma complexa periferia ao redor do centro político do país.

A capital do Brasil, inaugurada há 50 anos, em 21 de abril de 1960, foi planejada para abrigar 500 mil moradores que se ocupariam, pensava-se em 1960, do funcionalismo público. Mas a região acabou atraindo milhares de trabalhadores de outros estados brasileiros, movidos pelo sonho de uma nova vida – muitos já haviam participado da construção de Brasília e decidiram ficar.

A capital do Distrito Federal é a mais esparsa do território nacional: a população de 2,6 milhões de habitantes se espalha por 5.780 quilômetros quadrados – área quase cinco vezes maior do que a da cidade de São Paulo.

Apesar de abrigar apenas uma pequena parcela da população total, o Plano Piloto reserva quase metade de todos os empregos do Distrito Federal. E nesses números estão contidos mais do que apenas informações estatísticas.

“Há sérios problemas quanto às baixas densidades edificadas, à alta dispersão da ocupação territorial, à perversa relação entre localização de empregos e localização de moradias, com excepcional concentração de comércio e serviços no centro metropolitano. As mais altas densidades habitacionais estão na periferia, contradizendo a realidade das demais capitais brasileiras – e de quase todas do resto do mundo.”

A análise é de Frederico de Holanda, professor da Universidade de Brasília (UnB). O arquiteto mergulhou no assunto e escreveu um livro que está em fase de impressão: Brasília – cidade moderna, cidade eterna será lançado em ocasião do jubileu da capital federal.

Bairros da grande metrópole

"Cidade Livre", hoje Núcleo Bandeirante, abrigava trabalhadores durante construção de BrasíliaFoto: Arquivo Público do Distrito Federal

As chamadas cidades-satélites não são, de fato, cidades sem qualquer autonomia política, as regiões têm um administrador local nomeado pelo governo do Distrito Federal. São bairros de Brasília – a questão é que estão a quilômetros do Plano Piloto.

O próprio Frederico de Holanda mora numa dessas regiões: Sobradinho, a 18 quilômetros da Brasília central. De carro até a sede da UnB, percorre a distância em 20 minutos, mas em horário de pico, chega a ficar 50 minutos preso no congestionamento.

“A infraestrutura urbana é subutilizada, o intenso movimento pendular entre áreas periféricas e centro metropolitano impõe elevados custos socioeconômicos (majoritariamente para os pobres), a ordem espacial não favorece sistemas de transporte de massa”, afirma Holanda.

Os problemas na configuração da cidade se refletem, por exemplo, no preço da passagem de ônibus, uma das mais altas do país, de três reais. Apesar da cobertura do transporte público ser eficiente, as linhas do metrô são lotadas em horário e pico e o deslocamento demorado.

Fragmentação perversa

Federico Holanda não gosta de falar em crescimento (des)ordenado. Ele defende que toda expansão segue uma lógica. “E no caso do Distrito Federal, o crescimento seguiu uma lógica social perversa: os pobres foram jogados para a periferia desde a origem de Brasília por medidas do governo, do Estado”, contou em entrevista à Deutsche Welle.

Antes mesmo da fundação de Brasília, já se viam núcleos periféricos em todas as direções – a quilômetros de distância do Plano Piloto.

Taguatinga foi a primeira delas, fundada em 1958. A região abrigou trabalhadores que haviam invadido terras na área central de Brasília. Essa população foi transferida para 21 quilômetros da capital, longe dos olhos de poderosos que acompanhavam a construção. O núcleo abriga atualmente 155.452 habitantes.

A mais populosa é Ceilândia, com 332 mil residentes, aproximadamente. A região foi fundada em 1971 e fica a 26 quilômetros do Plano Piloto, que abriga 198 mil moradores. “Brasília perdeu 6,69% de sua população entre 1991 e 2000, fenômeno relacionado, por exemplo, à queda do número médio de habitantes por domicílio e à mudança de contingentes da classe média para a periferia, premida por valorização imobiliária no Plano, que se tornou mais elitizado”, pontua Holanda.

Cidades-satélites não foram planejadas como BrasíliaFoto: Alessandro Escudero

Terra de grileiros

Apesar de segregadas, as regiões fora do Plano Piloto contam com bons serviços básicos. Segundo informações da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, 99% da população têm rede de água encanada e 96% contam com esgotamento sanitário.

Brasília não está imune, no entanto, às mazelas dos grandes centros urbanos brasileiros: aproximadamente 260 mil pessoas vivem em bairros extremamente pobres, segundo informações da Secretaria de Habitação do Distrito Federal.

O governo reconhece 36 bairros irregulares, denominados Áreas de Regularização de Interesse Social, as Aris. Dessas, 14 estão em processo de legalização fundiária – as outras devem ser regularizadas posteriormente, afirma a Secretaria de Habitação.

No caso da capital federal, a posse irregular das terras foi provocada principalmente por ação de grileiros: pessoas que invadem terras particulares ou do Estado, dividem em lotes e vendem a preços acessíveis para as famílias mais pobres.

Segundo Holanda, a concentração maior de bairros irregulares é no Itapoá – ou RAXXVIII. Em muitas ruas o asfalto não chegou e há parcelas da população vivendo em extrema pobreza. “Mas vale lembrar que famílias da classe média também constroem suas casas em áreas irregulares, de preservação ambiental e ficam aguardando que o governo regularize a situação”, critica.

Autora: Nádia Pontes
Revisão: Carlos Albuquerque

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