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Documentário mostra a vida secreta dos gays na Alemanha Oriental

4 de maio de 2012

Considerada um resquício da burguesia decadente, a homossexualidade era um tabu no país comunista. Entrevistados relatam um cotidiano de opressão, silêncio e medo.

Foto: Edition Salzgeber

A noite de 9 de novembro de 1989 seria a mais importante na história da comunidade gay da antiga Alemaha Oriental, a RDA. Para esse dia estava programada a estreia de Coming Out, do diretor Heiner Carow. Era o primeiro filme a falar abertamente sobre a vida dos homossexuais do outro lado da Cortina de Ferro.

No entanto, algo muito maior aconteceu naquela noite, e esse pequeno ato de libertação foi ofuscado pela queda do Muro de Berlim.

O final da história do país comunista, e consequentemente de décadas de repressão, é o começo do documentário Unter Männern — Schwul in der DDR (Entre homens – gay na RDA). Dirigido por Ringo Rösener e Markus Stein, o filme chega aos cinemas alemães depois de sua estreia no Festival de Berlim deste ano.

Trabalho em dupla

O diretor Ringo RösenerFoto: Edition Salzgeber

Nascido na Alemanha Oriental, Rösener teve a ideia para o filme quando começou a pesquisar sobre a vida nos gays no regime comunista. "Queria ir além e perguntar para eles como eram suas vidas cotidianas", declarou o diretor em entrevista à DW Brasil. Quando o projeto começou a tomar forma, Rösener sentiu a necessidade de chamar alguém com experiência em cinema.

"Ele nunca havia feito um filme. Eu entrei no projeto para colocarmos as coisas em ordem e possibilitar que o Ringo conseguisse contar sua história. O fato de eu ser mais velho, heterossexual e da Alemanha Ocidental foi bom para questioná-lo a respeito de onde podíamos chegar com a ideia e como poderíamos atingir um público maior", disse Stein, co-diretor do filme.

Os dois trabalharam juntos no roteiro: Rösener era responsável pela pesquisa e Stein, pela dramaturgia.

Resquício burguês

O documentário mostra diferentes gerações e perspectivasFoto: Edition Salzgeber

Ao contrário do que se pode pensar, os homossexuais gozavam de certa liberdade no início do governo comunista. "Nos primeiros anos da RDA, era mais fácil viver como homossexual lá do que na Alemanha Ocidental. As pessoas tinham outros problemas e se achavam progressistas. Ser gay era considerado um resquício da vida burguesa. A ideia absurda era que, assim que o socialismo se desenvolvesse, não existiria mais a homossexualidade, vista como uma doença social", disse Stein.

A Alemanha Oriental descriminalizou a homossexualidade um ano antes do lado capitalista. "A RDA amenizou o parágrafo 175 em 1968, quando a homossexualidade foi descriminalizada. Isso só aconteceu no lado ocidental em 1969. Mesmo assim, continuou sendo algo que não podia ser visto nem comentado", completou Rösener. Quando questionado sobre a revogação da lei, um dos entrevistados no filme declarou nunca ter ficado sabendo disso.

O famoso parágrafo 175 entrou em vigor na Alemanha em 1871 e criminalizava o ato sexual entre homens. Ao longo dos anos a lei foi sofrendo modificações, ficando mais branda na República de Weimar e mais dura nos anos do nazismo, quando milhares de homossexuais morreram nos campos de concentração. A lei só foi completamente revogada em 1994, já após a reunificação do país.

Frank Schäfer foi preso diversas vezes por causa do seu visualFoto: Edition Salzgeber

Inimigos do Estado

Apesar do começo promissor, as décadas seguintes foram dominadas pela opressão e pelo silêncio. A homossexualidade se tornou algo quase inexistente aos olhos públicos na Alemanha Oriental. Quem ousava fugir da convenção era considerado inimigo do Estado.

O filme apresenta essa história por meio de entrevistas em que os entrevistados exibem suas dores e seus orgulhos de uma maneira casual e humana. "Não queríamos construir uma imagem, mas mostrar como essas pessoas recriam suas memórias e refletem sobre elas. Nosso filme mostra essas diferentes perspectivas", diz Stein

Dos mais novos aos mais velhos, todos falam como descobriram sua orientação sexual e como aprenderam a escondê-la. Apesar dos relatos de situações difíceis e de repressão, o documentário mantém um ar leve, humano e cheio de simpatia pelos entrevistados.

Entre eles está o divertido e extravagante Frank Schäfer, um cabeleireiro de Berlim que era constantemente preso por causa da sua aparência. Ele divide harmoniosamente as cenas com John Zinner, um artesão que cresceu e ainda vive numa pequena cidade na floresta da Turíngia.

Outro entrevistado é Christian Schulz, que reprimiu sua homossexualidade na juventude, voltando-se para o esporte, e só se assumiu completamente participando do documentário. "Acho que o filme o ajudou a refletir, e ele estava bem mais à vontade no final das filmagens”, disse Rösener.

Eduard Stapel foi o grande ativista gay da Alemanha OrientalFoto: Edition Salzgeber

Ajuda da igreja

A vida homossexual na Alemanha Oriental resumia-se a encontros ocultos em banheiros públicos ou a festas em ambientes privados, sempre marcadas pelo medo de denúncias e chantagens.

Uma das figuras principais para algumas mudanças na última década da RDA foi Eduard Stapel. Depois de estudar teologia, ele não aceitou ser ordenado pastor e ter que esconder sua homossexualidade. A Igreja Evangélica o empregou mesmo assim, e ele se tornou responsável por questões sociais e direitos dos gays.

Stapel construiu uma rede que interligava o movimento gay por toda a RDA através de encontros nas igrejas. A Igreja Evangélica apoiava movimentos democráticos e tornava possíveis encontros sem a aprovação do Estado.

Iniciativas como as de Stapel, em parceria com a igreja, começaram a fazer da homossexualidade algo visível na sociedade da RDA. Nos últimos três anos do país comunista, o medo de uma epidemia de aids criou preocupação nas autoridades. Isso levou a uma maior abertura, que teria o seu ápice nas estreia de Coming Out. Mas, na manhã seguinte, todos acordaram num mundo diferente.

Autor: Marco Sanchez
Revisão: Alexandre Schossler

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