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Doping na ex-RDA

José Ospina Valencia (av)30 de janeiro de 2009

Anabólicos e estimulantes: a história do esporte de elite na ex-RDA é um drama de dopings forçados. A ex-velocista Ines Geipel luta pelos interesses das vítimas.

Vencer a qualquer custo?Foto: AP

Esterilidade e impotência; cirrose, insuficiência cardíaca e câncer; meninas que receberam tanta injeção de testosterona que se tornaram mulheres altamente masculinizadas; mulheres que não puderam ter filhos porque sua região pélvica correspondia à de uma garota de 11 anos. A história dos atletas da antiga República Democrática Alemã (RDA) é um drama de dopings forçados.

O historiador Giselher Spitzer reuniu os casos. Suas pesquisas basearam-se num "plano de uso" do SED (partido único da antiga Alemanha Oriental), contendo anotações meticulosas, tanto dos nomes dos atletas, treinadores e médicos, como das dosagens aplicadas.

Entre outros, as atas e documentos da repartição dirigida por Marianne Birthler, que arquiva dados do Serviço de Segurança do Estado (Stasi), também comprovam que a ex-RDA praticava, com o auxílio de treinadores e funcionários, um programa estatal de doping forçado, pelo menos desde 1974. Mais de 3 mil colaboradores em caráter inoficial espionavam o esporte de alto desempenho na antiga Alemanha sob regime comunista, a pedido do Ministério de Segurança do Estado.

Anabólicos e estimulantes como "acompanhamento medicinal"

Mais de 15 mil atletas foram vítimas do programa de doping forçado. Sob a denominação "substâncias de suporte", médicos e treinadores deram anabólicos e estimulantes para jovens atletas, na maioria das vezes sem que estes soubessem, declarando-os falsamente como vitaminas.

Ex-corredora Ines GeipelFoto: picture-alliance/ ZB

"Eu era jovem, ingênuo e queria apenas fazer algo de bom. Para os atletas, o doping estava disfarçado como 'acompanhamento medicinal'. Como é que nós poderíamos saber?", pergunta Ines Geipel numa entrevista que concedeu a DW-WORLD.DE. Esta velocista e recordista mundial de Dresden luta hoje pelos interesses dos atletas e vítimas do sistema da ex-RDA.

Os funcionários do Partido Unitário sabiam muito bem como atrair a juventude. "Nós éramos rapazes e moças que queriam seguir adiante através do rendimento próprio, enquanto outros se uniam à Stasi. Para mim, era uma grande motivação querer ver o mundo. Desfrutar daquilo que só cabia aos privilegiados na ex-RDA.

Temos apenas uma vida. Por isso, as promessas de viagens feitas pelos funcionários à juventude foram uma isca bastante brutal", recorda a ex-corredora de curta distância, uma das mulheres mais velozes do mundo em 1984.

No entanto, no momento em que os ambiciosos atletas acreditavam na palavra do Estado, tornavam-se imediatamente uma parte do sistema – do sistema de doping. "E todos que se deixaram seduzir, devem confrontar-se hoje com esta verdade, independente do que sabiam", afirma Geipel.

Singularidades do doping sistemático

Depois da queda da "Ditadura do Proletariado" constatou-se que a fama esportiva da então Alemanha Oriental estava baseada numa mentira. "No final das contas, era um esporte verdadeiramente doentio", julga a atleta. "Não é possível defender nada. Sobretudo a existência de tantas vítimas, tantos doentes, tantas mortes, ainda hoje!"

Para a ex-corredora de Jena, o programa de doping forçado na antiga Alemanha Oriental é de uma singularidade desconcertante: "Ao conhecer os documentos do SED, percebe-se a maneira perfeita, elaborada e pérfida como a ditadura da ex-RDA agiu contra os atletas, algo provavelmente único na história", afirma ela, que atualmente é professora.

Doenças, deformações e casos de morte

A história do doping na ex-RDA é um capítulo da história alemã que ainda hoje não foi elaborado, sem falar no reconhecimento das vítimas ou em indenizações adequadas. Só mais tarde, as pessoas atingidas souberam da verdade, quando as inexplicáveis doenças, deformações e mortes não podiam mais ser escondidas. "Muitos ainda lutam por uma indenização, uma perspectiva de vida. Alguns estão na psiquiatria, outros são deficientes", informa Ines Geipel.

Sede da agência alemã antidoping NADA, em BonnFoto: AP

As vítimas alegam que o Comitê Olímpico Alemão não se ocupou suficientemente do destino que tiveram. Muito tempo atrás, Ines Geipel e outros esportistas atingidos propuseram a criação de uma fundação que se ocupasse dos traumas e danos psíquicos dos ex-atletas. Ines Geipel relata o caso de uma remadora de 30 anos de idade que está acamada e não pode pagar os tratamentos. "As substâncias dopantes degeneraram a medula espinhal desta atleta."

Mas como seria possível ajudar as vítimas do doping forçado? "Permitindo-lhes acessar sseus arquivos e saber exatamente que substâncias químicas lhes foram injetadas ou administradas por via oral", exige Geipel, continuando: "Lutamos para que a Jenapharm, a empresa que produzia as drogas, diga para nós, as vítimas, que tipo de experimentos a então RDA fez com os jovens atletas. Informar seria o mínimo que os responsáveis poderiam fazer, assim, as pessoas afetadas saberiam como orientar-se e agir."

Segundo Viktor Geisler, diretor da Jenapharm, a empresa não exerceu "nenhum papel determinante no sistema de doping da ex-RDA". A pedido da DW-WORLD.DE, Viktor Geisler informou por escrito: "Nossa empresa não tem nenhuma responsabilidade legal nos danos causados pelo programa estatal de doping da ex-RDA. Quanto à substância dopante usada na antiga RDA, tratou-se sobretudo do fármaco Oral-Turinabol, um medicamento permitido, que foi utilizado abusivamente no esporte por instituições estatais." Jenapharm, com sede em Jena, pertence hoje ao grupo Schering e faz anúncios com o slogan: "Tanto faz a fase em que a mulher se encontre, ela pode contar conosco. Pois amor, vida e saúde não são questão de idade, mas de atitude."

"Jogos perdidos": 22 meses em condicional

Nadadora Karen König também foi vítima de doping na RDAFoto: dpa

No livro Verlorene Spiele (Jogos perdidos), Ines Geipel protocola o processo, realizado no ano 2000 em Berlim, sobre doping no esporte da Alemanha Oriental e as consequências para os atletas. Na ocasião, o ex-ministro dos Esportes Manfred Ewald e o então chefe de medicina esportiva da ex-RDA foram acusados de lesão corporal culposa. O veredicto foi mais um escárnio para as vítimas: 22 meses em prisão condicional.

O maior êxito da ex-velocista Geipel havia sido o recorde mundial na prova de revezamento 4x100 metros. A atleta pediu a remoção de seu nome do registro de recordistas, sofrendo resistência da Federação Alemã de Atletismo e das outras três corredoras que hoje aparecem como recordistas de uma prova que, na realidade não existe: o revezamento feminino 3x100 metros.

Ines Geipel, nascida em Dresden em 1960, foi atleta de elite na ex-RDA. Após completar o curso de Estudos Germânicos, fugiu em 1989 para a Alemanha Ocidental, onde estudou Filosofia e Sociologia. Hoje é professora da Escola Superior de Arte Dramática Ernst Busch em Berlim e trabalha no Instituto Hannah Arendt.

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