Dormir pouco pode matar?
5 de agosto de 2026
Muitas pessoas convivem com dificuldades para dormir ao longo da vida. Às vezes, a percepção de uma noite mal dormida é apenas uma sensação; em outras, ela é reforçada por dados fornecidos por dispositivos de monitoramento.
Paradoxalmente, a tecnologia criada para ajudar a acompanhar o sono também pode aumentar a preocupação com ele. Alertas constantes sobre horários de dormir e avaliações negativas da qualidade do sono podem elevar os níveis de ansiedade, acelerar os batimentos cardíacos e dificultar ainda mais o adormecimento.
Mesmo assim, nem sempre uma noite considerada ruim pelos indicadores se traduz em cansaço ou prejuízo no dia seguinte. Muitas vezes, a percepção do sono e o funcionamento real do organismo não coincidem completamente.
"Quando você está privado de sono, seu julgamento piora", afirma Catia Reis, pesquisadora do sono da Universidade de Lisboa, em conversa com a DW.
Isso pode explicar o dilema. Porque, mesmo quando nos sentimos bem durante a semana, acabamos dormindo mais tempo nos fins de semana, o que é um sinal claro de déficit acumulado de sono, diz ela.
O que a ciência sabe sobre quem precisa de poucas horas de sono
Catia Reis estuda diferentes condições relacionadas ao sono, incluindo os efeitos do jet lag (desconforto físico e mental causado por viagens rápidas entre fusos horários diferentes, geralmente em voos longo) e da privação de sono em atletas.
Em uma de suas pesquisas, ela comparou os níveis de sonolência de pacientes com apneia do sono, condição em que a respiração para repetidamente durante a noite, com os níveis de sonolência de pessoas que trabalham em turnos.
A pesquisadora confrontou avaliações subjetivas feitas pelos próprios participantes da pesquisa e os testes clínicos objetivos aplicados por ela. Ela identificou uma discrepância intrigante: quanto mais sonolentas as pessoas estavam, menos capazes se tornavam de avaliar com precisão o próprio nível de sonolência. Em outras palavras, o cérebro deixa de funcionar adequadamente. E isso é preocupante, já que ele desempenha um papel central no sono.
Dormir ou morrer
Enquanto dormimos, o organismo realiza diversas funções de recuperação. Ele elimina toxinas absorvidas pelos alimentos e pelo ambiente, restaura energia e consolida processos essenciais para a aprendizagem e à memória.
"O sono envolve muitas partes do cérebro", afirma Ying-Hui Fu, pesquisadora do sono da Universidade da Califórnia em São Francisco. "Quase todas as doenças cerebrais, incluindo as neurológicas e psiquiátricas, podem estar associadas a problemas de sono".
Em média, uma pessoa precisa de cerca de 7,5 a 8,5 horas de sono por noite.
Ainda assim, de tempos em tempos surgem relatos de pessoas que se orgulham de dormir poucas horas por noite, como se isso demonstrasse dedicação extrema ao trabalho.
Um exemplo recente é o da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que afirmou dormir entre zero e três horas por noite desde que assumiu o cargo.
Mas, mesmo que a privação crônica de sono seja voluntária ou resultado de um hábito, não se trata de uma estratégia saudável no longo prazo.
No melhor dos cenários, um déficit prolongado de sono pode levar ao acúmulo de toxinas no organismo, aumentando o risco de doenças cardíacas e cerebrais. No pior, pode ser fatal.
"Existem apenas duas coisas mais importantes para a nossa saúde do que o sono", diz Fu à DW. "Uma é o ar. Sem ar, morremos em poucos minutos. A outra é a água. Sem água, morremos em poucos dias. Sem comida, conseguimos viver por meses. Mas sem sono provavelmente sobreviveríamos apenas algumas semanas".
E isso vale para todos os animais, acrescenta ela: "se não dormimos, morremos".
A exceção: quem naturalmente dorme pouco
Existem, porém, exceções. Algumas pessoas conseguem dormir menos de seis horas por noite e não apenas se sentem bem, como realmente apresentam boa saúde, disposição e qualidade de vida. São os chamados "dormidores naturais de curta duração" (natural short sleepers).
Pesquisadores acreditam que essas pessoas tenham variações genéticas que lhes permitem prosperar com menos horas de sono. Fu cita o caso de uma pessoa de 80 anos com essa característica que continuava competindo em provas de triatlo.
Em 2009, o laboratório de Fu identificou a primeira dessas variações, no gene DEC2. Dez anos depois, os pesquisadores publicaram um estudo sugerindo uma ligação entre a síndrome do sono curto natural e o gene ADRB1. Posteriormente, outras variantes genéticas associadas ao fenômeno foram encontradas nos genes NPSR1, GRM1 e SIK3, entre outros, que ainda estão sendo investigados.
Os cientistas preferem falar em "variações" genéticas, e não em "mutações", já que o segundo termo costuma estar associado a efeitos negativos para a saúde. Até o momento, o sono natural de curta duração não parece trazer os mesmos riscos observados em pessoas que dormem pouco por hábito ou porque sofrem de privação de sono.
As funções desses genes são variadas. DEC2: ajuda a regular a duração dos ciclos de sono e vigília; ADRB1: participa da sinalização cardíaca e neuronal; NPSR1: contribui para regular estados de alerta e ansiedade; GRM1: está ligado ao funcionamento cerebral e pode ter relação com a depressão; e SIK3: participa da regulação celular, metabólica e inflamatória. Cada uma dessas descobertas exigiu anos de pesquisa.
"Cada indivíduo possui entre 500 e 1.000 variações exclusivas em seu genoma. Identificar qual delas realmente causa determinado efeito é extremamente difícil", explica Fu.
Sono melhor impacta a humanidade
O número de pessoas identificadas como "dormidoras naturais de curta duração" ainda é pequeno. Mesmo assim, Fu acredita que o fenômeno possa ser mais comum do que estudos atuais indicam.
Grande parte das descobertas da pesquisadora se baseia em famílias que compartilham a mesma variação genética. O motivo é metodológico: se vários parentes apresentam a mesma alteração genética e todos permanecem saudáveis dormindo apenas quatro a seis horas por noite, há uma forte indicação de que aquela variação esteja relacionada ao fenômeno. Ainda assim, a pesquisa está apenas começando.
"Sabemos que essas pessoas têm melhor desempenho e são mais saudáveis. A explicação mais lógica é que a qualidade do sono delas é superior", diz Fu.
Catia Reis também pede cautela. Para ela, ainda existem poucos estudos sobre os chamados "dormidores naturais de curta duração".
"Quando avaliamos pessoas que dormem pouco por hábito e aumentamos seu tempo de sono, percebemos que elas melhoram seu desempenho", afirma. "O problema é que ainda não temos estudos de longo prazo suficientes com os dormidores naturais."
Fu concorda. Mas ressalta que obter financiamento para esse tipo de pesquisa continua sendo um desafio.
"Meu objetivo é ajudar todas as pessoas a terem um sono de qualidade. Porque, se conseguirmos isso, a incidência de todas as doenças diminuirá", diz. "Todo o espectro de doenças seria reduzido. Você consegue imaginar o impacto disso para a humanidade?".
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