Egito cancela às vésperas visita oficial do Brasil
5 de novembro de 2018
Ministro Aloysio Nunes seria recebido pelo presidente egípcio no Cairo, onde uma comitiva de empresários brasileiros já o aguardava. Cancelamento é visto como primeira reação árabe a declarações pró-Israel de Bolsonaro.
Ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes foi comunicado da decisão às vésperas de embarcar para o EgitoFoto: Getty Images/AFP/N. Almeida
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O governo do Egito cancelou uma visita oficial que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, faria ao país árabe nos próximos dias. O governo brasileiro foi informado sobre a decisão nesta segunda-feira (05/11), às vésperas da viagem, algo atípico na diplomacia.
O Egito justificou que precisou adiar o encontro – sem apresentar uma nova data – por problemas na agenda de autoridades do país. O gesto, contudo, foi entendido como uma retaliação a declarações recentes pró-Israel feitas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.
O capitão da reserva anunciou que pretende seguir os passos dos Estados Unidos e transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo assim a cidade como capital do Estado israelense. A ideia não é bem vista pela comunidade árabe.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, diplomatas relataram que a Liga dos Países Árabes chegou a enviar uma nota à embaixada brasileira no Cairo rechaçando as declarações de Bolsonaro.
Os compromissos oficiais de Aloysio Nunes no Egito estavam marcados para esta semana, entre os dias 8 e 11 de novembro. Na capital, ele se reuniria com o presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, e com o ministro do Exterior, Sameh Shoukry.
Na mesma ocasião ocorreria ainda um encontro entre representantes do setor privado de ambos os países. Um grupo de 20 empresários brasileiros já estava no Egito à espera do ministro e terá que retornar ao Brasil sem a rodada de negociações.
Segundo a imprensa brasileira, a visita de Aloysio e da comitiva de empresários ao Cairo foi um convite que partiu do próprio governo do Egito, um dos principais parceiros comerciais do Brasil no Oriente Médio. De janeiro a setembro, o país exportou 1,5 bilhão de dólares ao Egito, com um superávit de 1,33 bilhão de dólares para o Brasil quando subtraídas as importações.
O país também mantém laços comerciais importantes com os governos do Oriente Médio. Juntos, esses países são responsáveis por 5,3% das exportações do Brasil e são o segundo maior comprador de proteína animal brasileira. Em 2017, as exportações somaram 13,5 bilhões de dólares, com um superávit de 7,17 bilhões de dólares.
Diplomatas árabes chegaram a alertar colegas brasileiros de que o país poderá sofrer retaliações comerciais caso a transferência da embaixada prometida por Bolsonaro seja confirmada.
A intenção do presidente eleito, por outro lado, foi elogiada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que classificou a decisão de "um passo histórico, correto e emocionante". Ele foi um dos líderes que telefonou para Bolsonaro após a eleição para parabenizá-lo pela vitória.
Na ligação, o premiê também fez um convite a Bolsonaro para uma visita a Israel, e o capitão da reserva prometeu ir assim que sua saúde melhorar – ele está se recuperando de uma facada que levou durante um ato de campanha em Juiz de Fora em setembro.
Netanyahu pretende ainda comparecer à cerimônia de posse do novo governo em 1º de janeiro em Brasília. Se acontecer, será a primeira visita de um chefe de governo israelense ao Brasil desde a criação do Estado, em 1948.
A mudança da embaixada brasileira para a cidade disputada entre israelenses e palestinos marcaria uma ruptura na tradição de neutralidade diplomática mantida durante muitos anos pelo Brasil em relação ao conflito entre os dois povos.
O país mantém relações diplomáticas com Israel desde 1949 e, em 2010, reconheceu o Estado Palestino com as fronteiras de 1967, anteriores à Guerra dos Seis Dias entre países árabes e israelenses.
Foi durante essa guerra que israelenses ocuparam o setor oriental de Jerusalém. Israel considera a cidade sua capital "única e indivisível", ainda que essa alegação não seja reconhecida pela ONU. Os palestinos, por sua vez, reivindicam Jerusalém Oriental como capital de seu almejado Estado.
Jerusalém é uma das cidades mais antigas do mundo, e ao mesmo tempo um dos maiores focos de conflitos. Judeus, muçulmanos e cristãos veem Jerusalém como cidade sagrada.
Foto: picture-alliance/Zumapress/S. Qaq
Cidade de Davi
Segundo o Velho Testamento, no ano 1000 a.C., Davi, rei de Judá e Israel, conquistou Jerusalém dos jebuseus, uma tribo cananeia. Ele mudou a sede de seu governo para Jerusalém, que se tornou capital e centro religioso do reino. De acordo com a Bíblia, Salomão, o filho de Davi, construiu o primeiro templo para Yaweh, o deus de Israel. Jerusalém tornou-se assim o centro do Judaísmo.
Foto: Imago/Leemage
Reino dos persas
O rei Nabucodonosor 2º, da Babilônia, conquistou Jerusalém em 597 e novamente em 586 a.C., segundo a Bíblia. Ele destruiu o templo e aprisionou o rei Joaquim de Judá e a elite judaica, levando-os para a Babilônia. Quando o rei persa Ciro, o Grande, conquistou a Babilônia, permitiu que os judeus voltassem do exílio para Jerusalém e reconstruíssem o templo.
Foto: picture-alliance/Mary Evans Picture Library
Sob o poder de Roma e Bizâncio
A partir de 63 d.C., Jerusalém passou ao domínio de Roma. A resistência se formou rapidamente entre a população, eclodindo uma guerra no ano 66. O conflito terminou quatro anos depois, com a vitória dos romanos e uma nova destruição do templo em Jerusalém. Os romanos e os bizantinos dominaram a Palestina por 600 anos.
Foto: Historical Picture Archive/COR
Conquista pelo árabes
Durante a conquista da Grande Síria, as tropas islâmicas chegaram até a Palestina. Por ordem do califa Umar, em 637, Jerusalém foi sitiada e conquistada. Durante a época da supremacia muçulmana, vários rivais se revezaram no domínio da região. Jerusalém foi ocupada várias vezes e trocou diversas vezes de soberano.
Foto: Selva/Leemage
No tempo das Cruzadas
O mundo cristão passou a se sentir cada vez mais ameaçado pelos muçulmanos seljúcidas, que governavam Jerusalém desde 1070. Em consequência, o papa Urbano 2º convocou as Cruzadas. Ao longo de 200 anos, os europeus conduziram cinco Cruzadas para conquistar Jerusalém, algumas vezes com êxito. Por fim, em 1244, os cristãos perderam de vez a cidade, que caiu novamente sob domínio muçulmano.
Foto: picture-alliance/akg-images
Os otomanos e os britânicos
Após a conquista do Egito e da Arábia pelos otomanos, em 1535, Jerusalém se tornou sede de um distrito governamental otomano. As primeiras décadas de domínio turco representaram impulsos significativos para a cidade. Com a vitória dos britânicos sobre as tropas turcas em 1917, a região – e também Jerusalém – passou ao domínio britânico.
Foto: Gemeinfrei
Cidade dividida
Após a Segunda Guerra Mundial, os britânicos renunciaram ao mandato sobre a região. A ONU aprovou a divisão da área, a fim de abrigar os sobreviventes do Holocausto. Isso levou alguns países árabes a iniciarem uma guerra contra Israel, em que conquistaram parte de Jerusalém. Até 1967, a cidade esteve dividida em lado israelense e lado jordaniano.
Foto: Gemeinfrei
Israel reconquista o lado oriental
Em 1967, na Guerra dos Seis Dias contra Egito, Jordânia e Síria, Israel conquistou o Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, as Colinas de Golã e Jerusalém Oriental. Paraquedistas israelenses chegaram ao centro histórico e, pela primeira vez desde 1949, ao Muro das Lamentações, local sagrado para os judeus. Jerusalém Oriental não foi anexada a Israel, apenas integrada de forma administrativa.
Desde esta época, Israel não impede os peregrinos muçulmanos de entrarem no terceiro principal santuário islâmico do mundo. O Monte do Templo está subordinado a uma administração muçulmana autônoma. Muçulmanos podem tanto visitar como também rezar no Domo da Rocha e na mesquita de Al-Aqsa, que fica ao lado.
Foto: Getty Images/AFP/A. Gharabli
Status não definido
Até hoje, Jerusalém continua sendo um obstáculo no processo de paz entre Israel e os palestinos. Em 1980, Israel declarou a cidade inteira como "capital eterna e indivisível". Depois que a Jordânia desistiu de reivindicar para si a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, em 1988, foi conclamado um Estado palestino, com o leste de Jerusalém como sua capital.