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El Niño poderoso pode intensificar extremos climáticos

10 de junho de 2026

Fenômeno em formação pode ser o pior em 140 anos e provocar secas, enchentes e ondas de calor em várias regiões, agravando impactos do aquecimento global e pressionando sistemas de água, alimentos e energia.

Pessoas em silhueta contra o sol
Em 2024, em Quezon City, nas Filipinas, uma onda de calor foi associada ao El NiñoFoto: Xinhua/IMAGO

Um potencialmente poderoso El Niño está se formando no Oceano Pacífico e pode remodelar os padrões climáticos em todo o mundo nas próximas semanas. Meteorologistas alertam que este pode ser um dos mais fortes já registrados.

Há um "potencial real para o El Niño mais intenso dos últimos 140 anos", alerta Paul Roundy, professor de ciências atmosféricas e ambientais da Universidade Estadual de Nova York, em Albany.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) espera que as condições de El Niño se desenvolvam em breve e persistam pelo menos até o verão. Dependendo de sua intensidade e duração, o fenômeno climático pode provocar secas, enchentes, ondas de calor e interrupções no abastecimento de alimentos e água em várias regiões.

"O mundo precisa tratar isso como o alerta climático urgente que é", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres. "As condições de El Niño vão jogar combustível no fogo de um planeta em aquecimento".

O que é o El Niño?

El Niño é um padrão climático natural que ocorre a cada dois a sete anos. Ele começa quando os ventos alísios sobre o Pacífico tropical enfraquecem, permitindo que águas quentes se acumulem no oceano. O fenômeno é geralmente caracterizado quando a temperatura da superfície do Pacífico na região equatorial permanece, em média, cerca de 0,5 °C acima do normal por um período prolongado, normalmente de pelo menos três meses.

Embora a área de aquecimento tenha aproximadamente o tamanho dos Estados Unidos continentais e ocorra em uma única região, seus efeitos podem ser sentidos em todo o mundo.

"Ao alterar a atmosfera tropical, você também pode modificar a atmosfera em regiões mais distantes, nas latitudes médias. Por essa razão é que nos importamos tanto com isso, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância", explicou à DW Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa.

Isso gera uma reação em cadeia global, com o El Niño sendo "o primeiro dominó atmosférico a cair", disse ele.

Quais impactos são esperados?

Essas reações variam muito de região para região. Em alguns lugares, isso significa maior risco de seca; em outros, de enchentes.

Se o fenômeno se confirmar, no Brasil é esperado um agravamento da seca durante o inverno e o início do verão em algumas regiões, como Norte – na Amazônia – e parte do Nordeste. As condições podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. No Sul, pode ocorrer o aumento das chuvas. Em 2024, uma sobreposição de eventos climáticos, incluindo um El Niño intenso, provocou a pior inundação da história do Rio Grande do Sul. 

Partes da América Central, da Ásia, da África e da Austrália costumam ficar mais quentes e secas durante anos de El Niño. A escassez de água resultante pode afetar a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de água potável. Em Honduras, autoridades estimam que cerca de 75 municípios podem enfrentar condições severas de seca. Tegucigalpa, a capital do país, já declarou emergência hídrica.

Enchente na vila de Kamuchiri, no Quênia, em abril de 2024Foto: LUIS TATO/AFP

Em outras regiões, os riscos se invertem. Em partes da costa do Pacífico da América do Sul, o El Niño pode provocar chuvas torrenciais e enchentes destrutivas.

As consequências podem persistir muito além do fim das chuvas ou do esvaziamento dos reservatórios. O El Niño já foi associado a quebras de safra e perdas econômicas que podem chegar a trilhões. Durante o evento de 2015-2016, colheitas ruins deixaram milhões de pessoas em insegurança alimentar.

Os incêndios florestais também são uma preocupação crescente. Cientistas alertam que o El Niño provavelmente aumentará o risco de calor extremo e seca, condições que alimentam incêndios na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos e na Amazônia.

Tempestades, recifes e a temporada de furacões no Atlântico

O El Niño desempenha um papel importante na atividade de tempestades tropicais. Cientistas esperam que a temporada deste ano de furacões no Atlântico seja menos intensa que a média. As condições de El Niño tendem a aumentar o cisalhamento do vento no Atlântico, dificultando a formação e intensificação das tempestades.

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"As águas estão começando a aquecer no Pacífico tropical central e oriental", afirma o cientista atmosférico Brian Tang. "Normalmente, quando o El Niño se desenvolve, especialmente durante a temporada de furacões, ele reduz nuvens, tempestades, precipitação e ciclones tropicais no Atlântico."

Mas menos tempestades não significa necessariamente menos perigo. Quando uma tempestade atinge a força de um furacão, torna-se mais difícil contê-la, o que significa que aquelas que se formarem ainda podem causar danos catastróficos.

A situação é diferente no Pacífico, onde o El Niño tende a provocar o efeito oposto, alimentando tempestades mais frequentes e intensas.

Os ecossistemas marinhos também sofrem pressão. O aumento da temperatura dos oceanos associado ao El Niño pode causar branqueamento de corais e agravar o estresse de recifes já afetados pelo aquecimento global.

A agricultura também é impactada. Na Índia, produtores de manga relataram colheitas muito menores após condições climáticas incomuns afetarem a floração e o desenvolvimento dos frutos, prejudicando tanto a oferta quanto a renda.

Como a mudança climática afeta o El Niño?

Cientistas afirmam que não há evidências claras de que a mudança climática esteja tornando o El Niño mais forte. No entanto, ela pode intensificar seus impactos.

Seca em La Calera, nos arredores de Bogotá, Colômbia, em abril de 2024Foto: Fernando Vergara/picture alliance/dpa

"A mudança climática pode transformar uma seca severa associada ao El Niño em uma seca extrema", afirmou Michael McPhaden, cientista sênior da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).

Uma atmosfera mais quente retém mais umidade, aumentando o risco de chuvas extremas e enchentes. Temperaturas mais altas também podem intensificar secas ao ressecar o solo com mais rapidez.

Como as temperaturas globais já estão próximas de níveis recordes, eventos de El Niño podem levar mais facilmente o planeta a novos recordes de calor.

É possível se preparar para um El Niño?

Uma vantagem do El Niño é que ele se desenvolve gradualmente e pode ser monitorado com meses de antecedência. Cientistas conseguem acompanhar as temperaturas do oceano e as condições atmosféricas, dando tempo para governos e comunidades se prepararem.

As previsões podem ajudar autoridades a proteger colheitas, reforçar defesas contra enchentes e melhorar sistemas de alerta precoce.

"Sabemos onde haverá mais chuva ou seca do que o normal", disse McPhaden. "Há bastante tempo, com essas previsões de longo prazo, para desenvolver estratégias de mitigação e evitar alguns dos piores impactos."

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