El Niño poderoso pode intensificar extremos climáticos
10 de junho de 2026
Um potencialmente poderoso El Niño está se formando no Oceano Pacífico e pode remodelar os padrões climáticos em todo o mundo nas próximas semanas. Meteorologistas alertam que este pode ser um dos mais fortes já registrados.
Há um "potencial real para o El Niño mais intenso dos últimos 140 anos", alerta Paul Roundy, professor de ciências atmosféricas e ambientais da Universidade Estadual de Nova York, em Albany.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) espera que as condições de El Niño se desenvolvam em breve e persistam pelo menos até o verão. Dependendo de sua intensidade e duração, o fenômeno climático pode provocar secas, enchentes, ondas de calor e interrupções no abastecimento de alimentos e água em várias regiões.
"O mundo precisa tratar isso como o alerta climático urgente que é", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres. "As condições de El Niño vão jogar combustível no fogo de um planeta em aquecimento".
O que é o El Niño?
El Niño é um padrão climático natural que ocorre a cada dois a sete anos. Ele começa quando os ventos alísios sobre o Pacífico tropical enfraquecem, permitindo que águas quentes se acumulem no oceano. O fenômeno é geralmente caracterizado quando a temperatura da superfície do Pacífico na região equatorial permanece, em média, cerca de 0,5 °C acima do normal por um período prolongado, normalmente de pelo menos três meses.
Embora a área de aquecimento tenha aproximadamente o tamanho dos Estados Unidos continentais e ocorra em uma única região, seus efeitos podem ser sentidos em todo o mundo.
"Ao alterar a atmosfera tropical, você também pode modificar a atmosfera em regiões mais distantes, nas latitudes médias. Por essa razão é que nos importamos tanto com isso, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância", explicou à DW Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa.
Isso gera uma reação em cadeia global, com o El Niño sendo "o primeiro dominó atmosférico a cair", disse ele.
Quais impactos são esperados?
Essas reações variam muito de região para região. Em alguns lugares, isso significa maior risco de seca; em outros, de enchentes.
Se o fenômeno se confirmar, no Brasil é esperado um agravamento da seca durante o inverno e o início do verão em algumas regiões, como Norte – na Amazônia – e parte do Nordeste. As condições podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. No Sul, pode ocorrer o aumento das chuvas. Em 2024, uma sobreposição de eventos climáticos, incluindo um El Niño intenso, provocou a pior inundação da história do Rio Grande do Sul.
Partes da América Central, da Ásia, da África e da Austrália costumam ficar mais quentes e secas durante anos de El Niño. A escassez de água resultante pode afetar a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de água potável. Em Honduras, autoridades estimam que cerca de 75 municípios podem enfrentar condições severas de seca. Tegucigalpa, a capital do país, já declarou emergência hídrica.
Em outras regiões, os riscos se invertem. Em partes da costa do Pacífico da América do Sul, o El Niño pode provocar chuvas torrenciais e enchentes destrutivas.
As consequências podem persistir muito além do fim das chuvas ou do esvaziamento dos reservatórios. O El Niño já foi associado a quebras de safra e perdas econômicas que podem chegar a trilhões. Durante o evento de 2015-2016, colheitas ruins deixaram milhões de pessoas em insegurança alimentar.
Os incêndios florestais também são uma preocupação crescente. Cientistas alertam que o El Niño provavelmente aumentará o risco de calor extremo e seca, condições que alimentam incêndios na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos e na Amazônia.
Tempestades, recifes e a temporada de furacões no Atlântico
O El Niño desempenha um papel importante na atividade de tempestades tropicais. Cientistas esperam que a temporada deste ano de furacões no Atlântico seja menos intensa que a média. As condições de El Niño tendem a aumentar o cisalhamento do vento no Atlântico, dificultando a formação e intensificação das tempestades.
"As águas estão começando a aquecer no Pacífico tropical central e oriental", afirma o cientista atmosférico Brian Tang. "Normalmente, quando o El Niño se desenvolve, especialmente durante a temporada de furacões, ele reduz nuvens, tempestades, precipitação e ciclones tropicais no Atlântico."
Mas menos tempestades não significa necessariamente menos perigo. Quando uma tempestade atinge a força de um furacão, torna-se mais difícil contê-la, o que significa que aquelas que se formarem ainda podem causar danos catastróficos.
A situação é diferente no Pacífico, onde o El Niño tende a provocar o efeito oposto, alimentando tempestades mais frequentes e intensas.
Os ecossistemas marinhos também sofrem pressão. O aumento da temperatura dos oceanos associado ao El Niño pode causar branqueamento de corais e agravar o estresse de recifes já afetados pelo aquecimento global.
A agricultura também é impactada. Na Índia, produtores de manga relataram colheitas muito menores após condições climáticas incomuns afetarem a floração e o desenvolvimento dos frutos, prejudicando tanto a oferta quanto a renda.
Como a mudança climática afeta o El Niño?
Cientistas afirmam que não há evidências claras de que a mudança climática esteja tornando o El Niño mais forte. No entanto, ela pode intensificar seus impactos.
"A mudança climática pode transformar uma seca severa associada ao El Niño em uma seca extrema", afirmou Michael McPhaden, cientista sênior da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).
Uma atmosfera mais quente retém mais umidade, aumentando o risco de chuvas extremas e enchentes. Temperaturas mais altas também podem intensificar secas ao ressecar o solo com mais rapidez.
Como as temperaturas globais já estão próximas de níveis recordes, eventos de El Niño podem levar mais facilmente o planeta a novos recordes de calor.
É possível se preparar para um El Niño?
Uma vantagem do El Niño é que ele se desenvolve gradualmente e pode ser monitorado com meses de antecedência. Cientistas conseguem acompanhar as temperaturas do oceano e as condições atmosféricas, dando tempo para governos e comunidades se prepararem.
As previsões podem ajudar autoridades a proteger colheitas, reforçar defesas contra enchentes e melhorar sistemas de alerta precoce.
"Sabemos onde haverá mais chuva ou seca do que o normal", disse McPhaden. "Há bastante tempo, com essas previsões de longo prazo, para desenvolver estratégias de mitigação e evitar alguns dos piores impactos."
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