Partido do presidente chega na disputa com o objetivo de inflar sua reduzida base parlamentar. Oposição, porém, ganha força em meio a escândalos de corrupção, queda de popularidade e pressões econômicas.
Em meio a duras medidas econômicas, cresce a insatisfação popular de parte da população argentinaFoto: Luciano Gonzalez/Anadolu Agency/IMAGO
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Os argentinos vão às urnas neste domingo (26/10) para uma eleição parlamentar que renovará metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado do país. O pleito deve definir o futuro político do presidente Javier Milei, cuja governabilidade, já frágil, se vê ameaçada por denúncias de corrupção e pela queda de sua popularidade.
Em 21 de agosto, a deputada Marcela Pagano, que há dois anos havia sido eleita pelo partido de Milei, A Liberdade Avança, deixou a sigla governista e lançou nas redes sociais uma série de denúncias contra o governo que implicam diretamente a irmã do presidente, Karina Milei.
Áudios vazados, que ainda passam por verificação judicial, indicam que Karina, que também é secretária-geral da Presidência, estaria envolvida em um esquema de proprina em negociações envolvendo empresas farmacêuticas. Ela nega as acusações.
Para Pagano, o escândalo é um indicativo de que o Executivo argentino ignorou as necessidades da classe média e de grupos desfavorecidos, como pessoas com deficiência e aposentados, além de não exonerar os supostos envolvidos em casos de corrupção, conforme prometido por Milei.
"Eu estava convencida de que poderíamos promover uma mudança real, mas, infelizmente, o projeto saiu dos trilhos", afirma Pagano à DW. Ela acredita que o "milagre argentino", que muitos economistas em todo o mundo elogiaram devido à queda maciça da inflação no governo Milei, cobra um preço alto.
"Mais de 25 mil pequenas e médias empresas tiveram que encerrar ou suspender suas atividades devido à falta de demanda e ao aumento dos custos energéticos. O poder de compra a partir dos salários formais caiu cerca de 20% em termos reais, enquanto os rendimentos informais e as pensões mínimas perderam mais de 30% do seu valor em relação à inflação", relata Pagano.
Denúncias da deputada Marcela Pagano abriram escândalo de corrupção no governo MileiFoto: Privat
Os custos sociais do ajuste fiscal proposto por Javier Milei também pressionam sua popularidade, que antes superava 50%. Às vésperas da eleição, apenas 39,9% dos argentinos aprovam sua gestão, enquanto 55,7% a desaprovam. Os resultados podem derrubar os votos em seus apoiadores.
O apoio popular era justamente o principal pilar de governabilidade de Milei. Com uma base legislativa menor que a da oposição peronista, o presidente tem recorrido a decretos e vetos para implementar sua agenda. A expectativa é que as eleições legislativas ampliem o número de deputados alinhados ao governo, mas analistas avaliam que as dificuldades econômicas e políticas devem continuar impedindo que Milei conquiste uma maioria estável no Congresso.
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Tratamento de choque com efeitos colaterais
Aparentemente, os efeitos colaterais do tratamento de choque na economia são maiores do que a cura em si. Milei impôs medidas drásticas ao país, que tinha uma dívida externa de 278 bilhões de dólares (R$ 1,5 trilhão): demitiu dezenas de milhares de funcionários públicos, extinguiu ministérios e cortou subsídios para medicamentos, eletricidade, água, gás e transporte público, alguns dos quais essenciais à vida em sociedade.
O símbolo dessa política radical de austeridade é uma motosserra, com a qual ele personifica o corte do Estado. De fato, há resultados além do controle da hiperinflação. Milei conqistou o primeiro superávit orçamentário desde 2010, por meio de um ligeiro boom nas importações e lucros recordes para empresas exportadoras dos setores de mineração e energia.
No entanto, os sucessos macroeconômicos não mudaram a vida da parcela mais pobre da população. A frase "meu mês acaba no dia 20" tornou-se um dito popular para muitos argentinos, pois o salário simplesmente não é suficiente para os dez dias restantes.
Especialistas estimam que um em cada dois argentinos precisa recorrer às suas poupanças todos os meses para conseguir pagar as contas. Os motivos: um peso argentino supervalorizado, com preços semelhantes aos dos EUA e da Europa, e o aumento do desemprego, salários congelados e aluguéis elevados devido à liberalização do mercado imobiliário.
"Muitas pessoas estão trabalhando ainda mais, outras estão adiando as compras que pretendiam fazer para o futuro. As famílias estão se endividando. Estamos há dois trimestres em recessão, o que levou a uma queda no consumo", afirma o analista político Sergio Berensztein.
Trump pretende lançar um pacote financeiro para ajudar a Argentina, mas apenas se Milei se sair bem nas eleições parlamentaresFoto: Jonathan Ernst/REUTERS
Trump tenta ajudar Milei
Devido à crise econômica, Milei pediu ajuda a um de seus maiores amigos políticos dentro da ultradireita: o presidente dos EUA, Donald Trump, que, em troca, elogiou Milei como seu "presidente favorito". Washington quer montar um pacote financeiro em forma de swap cambial no valor de 20 bilhões de dólares (R$ 107 milhões) para a Argentina.
Mas não sem interferir na campanha eleitoral: "Se ele ganhar, continuaremos com ele. Se não ganhar, vamos embora", disse Trump na última semana, vinculando a ajuda financeira ao sucesso de Milei nas eleições parlamentares deste domingo.
Pode ser por pouco: as pesquisas preveem uma disputa acirrada entre o partido de Milei, A Liberdade Avança, e os peronistas do Fuerza Patria, que voltaram a se destacar principalmente depois da vitória nas eleições provinciais de Buenos Aires no início de setembro.
Os peronistas também contam com o fato de que a euforia dos jovens eleitores, alguns dos maiores apoiadores do atual governo, diminuiu, derrubando sua popularidade.
Muitos jovens se dizem desiludidos com o desempenho do presidente: "Em 2023, a eleição presidencial foi decidida pelos votos dos jovens. Embora Milei ainda possa contar com um grande apoio entre eles, isso já não acontece mais na mesma medida", afirma Berensztein.
De modo geral, mais homens do que mulheres votaram em Milei: "No interior do país, ele ainda é visto como uma voz contra o sistema, embora nunca tenha visitado muitas dessas províncias", diz.
Como Milei mudou a Argentina
28:26
Campanha prejudicada por escândalos
O resultado da eleição parlamentar também depende da capacidade do presidente – que em uma de suas mais recentes e memoráveis aparições na campanha eleitoral se apresentou como um astro de rock – de se livrar dos escândalos de corrupção que abalam seu governo.
Ao escândalo que envolve sua irmã, apelidado de "Karinagate", se somou o caso de José Luis Espert, um
correligionário de Milei acusado de ligações com um traficante de drogas.
"O resultado das eleições parlamentares não é tão decisivo quanto a forma como o governo lidará com o resultado. É claro que é importante para Milei vencer as eleições, mesmo que seja por uma pequena margem, para ganhar capital político e frear o ímpeto dos peronistas", afirma Berensztein.
"Mas uma vitória não resolve os problemas da Argentina. Milei precisa aprender a construir pontes e, acima de tudo, mudar seu estilo confrontador", conclui.
Ex-presidentes latino-americanos que já foram presos
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.